Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vinicius de Moraes (Schmidt: Na sua morte)


Ele era poeta como quem se afoga. Nas suas noites, sempre a poesia subitamente a vazar de encanamentos mal soldados em suas pernas e seus braços, e a invadir-lhe a casa, perseguindo-o da sala para o quarto, do quarto para o banheiro, do banheiro para o escritório, onde, exausto, ele acabava por se trancar. E seu corpo outrora vasto, já agora reduzido pelas dolências, subia boiando com o nível das águas até o emparedamento total e a asfixia, como nos antigos suplícios por afogamento em recinto fechado. E ele morria em seu noturno aquário, esmagado pelo teto do infinito, náufrago de si mesmo - um poeta como quem se afoga.

Eu tinha 19 anos quando, em 1933, pela mão de Otávio de Faria, fui pedir-lhe para distribuir meu primeiro livro de versos. Encontrei-o na porta de sua livraria, na antiga rua Sachet, e seu volume físico oprimiu o menino magro que eu era. Olhou-me com intensidade e disse:

- Mas é uma criança...

Aquilo me deu raiva. Deu-me, sim, porque eu me achava um gênio e meus amigos mais próximos também não faziam por menos. Para Otávio, que orientava meus primeiros passos literários, eu era - embora sem nenhuma influência direta, pois mal me iniciara na leitura dos poetas modernos - o continuador de Schmidt, o jovem acólito de sua missa poética. Aquela missão secundária feria-me os brios porque me parecia que eu partira de mim mesmo, de minhas próprias fontes, e não devia nada a ninguém. Mas, depois de lê-lo, eu me pusera a admirá-lo também e nas nossas intermináveis viagens andorinhas amávamos despetalar seus poemas e atirar versos soltos às estrelas...

Tudo é inexistente, disseram os príncipes deitados na areia...

E vinha o grande pálio aberto e se estendia sobre o céu sem manchas. Destroços, ruínas, podridões ameaçavam desabar... Eram palavras proféticas, a revelar a catástrofe em gestação, a enunciar poeticamente os dados da aventura existencialista do pós-guerra: uma "vidência", uma premonição realmente extraordinárias...

Nós éramos todos "de direita". Torcíamos pela vitória do fascismo e líamos Nietzsche como quem vai morrer. "Escreve com o teu sangue, e verás que teu sangue é espírito!" Ah, como amávamos essa palavra sangue... Ah, que conteúdo tinha para nós essa palavra espírito...

Depois eu cresci e vi que não era nada disso. Vi que nem eu era gênio, nem queria destruir coisa alguma. Queria era namorar, conversar com os amigos, tomar sol na praia, empilhar fichas de chope e escrever palavras simples.

E fui me afastando...

Mas, vira e mexe, encontrava Schmidt. Em São Paulo, num cais em Montevidéu, em Montmartre, na rua Cupertino Durão. Então ele me pegava, dava-me o braço e me dizia:

- Vem comigo. Estou precisando muito conversar com você...

E eu ia. Uma vez foi para poder atribuir-me a culpa da ingestão de meia lata de goiabada que comeu em casa, pobrezinho, alucinado que estava por uma dieta de fome a que o submetia a sua Musa, que o queria esbelto e elegante.

Foi também em sua casa que conheci Jayme Ovalle, o grande, o eterno amigo.

No fundo, devo-lhe muito. Aliás, por falar em dívida, fiquei lhe devendo cinco contos, emprestados há muitos, muitos anos.

Eu lhe digo o que farei, meu caro Schmidt. Hoje à noite, quando sair para fazer meu show, pegarei uma nota de Cr$ 5.000, bem amassada numa bolinha, e a jogarei para cima, com toda a força que tiver. Se você ainda estiver levitando por aí e conseguir pegá-la, muito bem. Se não, tudo o que desejo é que caia perto de alguém mais pobre do que eu.

Fonte:
Vinicius de Moraes. Para uma menina com uma flor.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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