Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 18 de novembro de 2012

José de Alencar (Ao Correr da Pena) 24 de dezembro: A Véspera do Natal


Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa que não há nada tão poético como esta legenda das Mil e Uma Noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da igreja, nesses símbolos que comemoram a poética tradição do nascimento de um menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia noite, os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é porém, na cidade que se pode gozar deste idílio suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado; mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo ao longe o tanger alegre de um sinozinho de  aldeia, que vem quebrar a calada da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida, distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade, vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não ide à missa do galo nas igrejas da cidade.. Escolhei algumas capelinhas dos arrabaldes, a beira do mar, como a São Cristóvão, cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada  nalguma eminência, como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com as suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadido que não aspirais aos foros da alta fashion, porque neste caso deveis ficar na cidade e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma boa constipação na saída.

A diretoria do Teatro Lírico, que tem o bom gosto de conservar o teatro aberto neste tempo, não devia deixar de dar algum espetáculo na noite de hoje, a fim de vos preparar por um banho russiano, para a visita das estufas nas igrejas.

É pena que não se lembrassem de repetir o Roberto do Diabo que acaba justamente às 2 horas, tempo em que cantam os galos. 

Tudo neste mundo depende das ocasiões, disse-me um dilettante que vós conheceis: - Se a diretoria tivesse sabido aproveitar a noite de hoje, o Roberto do Diabo estaria apenas no purgatório donde naturalmente o conseguiria tirar algum artigo hieroglífico, maçônico ou brâmine, escrito unicamente para os espíritos sublimes. Então não se veria na dura necessidade de conservar o teatro aberto, recordando atrasados e obrigando os acionistas e os assinantes a pagarem as diabruras, não do Roberto, mas de algum São Bartholomeu que não conhecemos.

Eu não concordo com esta opinião. Julguei a princípio que convinha interromper-se os espetáculos por um mês, ao menos, porém hoje estou convencido que o teatro presta uma tão grande utilidade a esta corte, que a polícia devia intervir para que houvesse representação todas as noites. Se duvidam, vou enumerar-lhes as enormes vantagens econômicas, higiênicas, políticas e morais que resultam do teatro.

Em primeiro lugar, cura constipações pelo sistema homeopático, alivia o reumatismo dos velhos, e dá às mocinhas do tom uma cor baça e amarela, do melhor efeito, a qual os poetas têm convencionado chamar – a palidez romântica. No fim de uma semana ou quinze dias, uma bela menina, viva e rosada, começa a definhar; desmaiam-lhes as cores, os olhos tornam-se febricitantes, o corpo toma um ar de lânguida morbidez.

Para o médico, homem positivo, isto é o sintoma funesto de alguma consunção; mas o poeta, espírito elevado, que tem a pretensão de viver de ar como os camaleões, extasia-se em face desse rosto macerado pelas vigílias satisfeito por achar uma ocasião de aplicar a sublime comparação do pálido lírio languidamente reclinado sobre a haste delicada.

No fim de contas, o médico faz um diagnóstico importante; o poeta escreve algumas centenas de versos no estilo de Byron, ou do Alfredo de Musset. O boticário avia receitas sobre receitas; e o tipógrafo tira duas edições do volume de poesias. Faz-se uma consulta de médicos, enquanto os folhetins e as revistas críticas dissecam e fazem a autópsia dos versos novamente dados à luz. Trava-se a discussão, e no momento justo em que os médicos enchem de cáusticos e cataplasmas a heroína do romance, o país atônito reconhece que surgiu alfim o seu Petrarca, seu Dante, o seu Tasso.

Eis aí, o Teatro Provisório concorrendo para o desenvolvimento literário, e fazendo aprofundar o estudo da medicina. Isto, porém, não é tudo. A diretoria, que empreendeu a regeneração da nossa ópera lírica, visa também a outros resultados mais reais e positivos.

A Charton é a cantora predileta do público, é o rouxinol das belas noites pintadas por Bragaldi, é a rosa perfumada em cujo cálice bubul fez o seu ninho  gracioso, e onde se reclina soltando nos ares as ricas melodias de suas notas. Pois bem, a Chaarton continuará a representar pelo verão, sem ter nem sequer um mês de descanso; bubul cantará todo o estio como uma cigarra importuna; a flor se fanará exposta ao tempo, sem sombra e sem abrigo.

Um belo dia a Charton ficará com a voz cansada como a Zecchini; e este público caprichoso e exigente ficará ensinado, e aceitará aí qualquer comprimária que lhe queiram impingir na qualidade de cantora de cartelo.

Então, como a guerra do Oriente e a exposição de Paris não permitirão novos engajamentos na Europa, a empresa, livre de reclamações exageradas, poderá fazer importantes economias, contratando nesta corte algumas cantoras de modinhas para coristas, e promovendo por antiguidade as coristas e comprimárias e as primas-donas: teremos neste caso espetáculos baratos, a pataca e a quinhentos réis. O público tomará o seu banho de vapor pela quinta parte do que paga hoje.

Pouco tempo depois que a diretoria tiver obtido este grande resultado, o público se convencerá que se a música (do teatro lírico), como disse alguém, é o mais suportável dos barulhos, o teatro é o mais insuportável dos suadores.

Os espetáculos, pois, serão abandonados, o dilettante começará a ser uma espécie de mastodonte anti-robertiano, objeto do estudo dos arqueólogos e antiquários, e o barracão terá um destino muito semelhante ao que tem hoje, e ficará sendo uma dependência do Museu.  

Não se pode, portanto, deixar de tributar todos os elogios a quem empreendeu e trata de executar com tanta habilidade a útil empresa de desacreditar a era italiana e de nos fazer aborrecer o teatro lírico. Todo o público desta corte deve auxiliar este projeto, por todas as razões, até mesmo porque é de melhor gosto, e mais elegante, nestas noites de calma ir suar no Provisório, do que tomar fresco no Passeio Público.

No teatro olha-se para um camarote, procura-se uma feição mimosa e acetinada, umas faces que são de suave cor-de-rosa, um colo alvo de jaspe, e tem-se o desprazer de ver um rosto  açodado, vermelho, mudando de cores, um seio arfando dificilmente sem aquelas doces palpitações que lhe dão tanta graça e tanta sedução; vê-se enfim um belo quadro, uma tela amarrotada cheia de dobras.

Ao contrário, no Passeio Público o quadro realça com a luz do gás, que, ao longe, entre as árvores, semelha um pouco a claridade da luz; todas as noites, mas especialmente nos domingos, a concorrência é numerosíssima. Às nove horas a multidão se retira, o passeio torna-se mais agradável, e começa-se a encontrar-se de espaço a espaço uma ou outra família conhecida, das que freqüentam ordinariamente os nossos salões.

Não nos enganamos, pois, quando dizíamos há tempo que a iluminação a gás concorreria muito para a concorrência do Passeio, e daria ao público desta corte um ponto agradável de reunião. Resta, porém, que se trate de outros  melhoramentos, como de reparar ao menos as grades da rua principal, de ceder-se aos dois pavilhões do terraço para neles se estabelecerem cafés decentes que possam servir às famílias, e de fazer-se com que haja música aos domingos, das oito até às dez horas.

Faça-se isto, faça-se alguma coisa mais que or conveniente; e todas as noites em que houver espetáculo lírico, durante a força do verão, eu terei o prazer de ver os mais entusiásticos dilettanti sentados nos bancos de pedra do círculo que forma a rua principal do Passeio, vendo, como eu, passarem os grupos das lindas passeadoras, enquanto apenas um ou outro melomaníaco, com os cabelos pregados na testa, contemplará heroicamente o holocausto lírico da voz da Charton, do Bouché e do Gentile, condenados à rouquidão para assegurar o futuro da ópera italiana, que ficara comprometida nesta corte, se não se cantar nos meses de dezembro e janeiro.

O natal, o teatro, o passeio me iam fazendo esquecer das questões sérias que este ano se guardaram para o tempo das festas, justamente para não deixarem nem um dia de férias ao jornalista. O livro do Sr. De Angelis sobre o Amazonas e ultima,mente o decreto do governo sobre as sociedades comanditárias vieram agitar a imprensa da corte, e fazê-la sair da rotina editorial. Sobre a primeira questão deveis ter lido não só a obra do Sr. P. de Angelis, como os artigos que publicou nesta folha um nosso patrício, conhecido pelo seu talento. Quanto à segunda, esperai mais alguns dias, e vereis sob que aspecto importante ela vai apresentar-se; não vos falo mais largamente a respeito, porque deveis saber que os advogados estão de férias, mais felizes nisso do que os folhetinistas, que não as têm.

Finalmente vou  dar-vos uma boa nova. Como a festa é tempo de muita indigestão, podeis contar já com mais trinta e dois médicos, que no dia 18 deste mês receberam o seu grau na Academia Militar, em presença de SS. MM. e de um brilhante e numeroso concurso de pessoas gradas desta corte. O digno diretor da escola recitou um belo discurso e um dos doutorandos, designado pelos seus colegas, agradeceu em nome deles o grau que acabavam de receber, fazendo nesta ocasião acertadas considerações sobre o estudo da anatomia e da fisiologia.

Terminando a sua carreira, vão dar agora o primeiro passo no mundo, e trabalhar para um futuro que a esperança, companheira inseparável da mocidade, lhes aponta tão risonho e tão feliz. Deus os fade bem por interesse seu e da humanidade; e possam um dia, repassando na memória esta primeira página de sua vida, sentirem essas doces recordações do homem feliz que se revive no seu passado. 

Fonte:
José de Alencar. Ao Correr da Pena. SP: Martins Fontes, 2004.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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