terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lino Mendes (CONVERSA com a Escritora Dulce Rodrigues)


Mas quem  é DULCE RODRIGUES?

 Dulce Rodrigues é uma escritora portuguesa que vive um pouco por toda a Europa. Gosta de jardinagem, fotografia, arte, música, animais e livros – tanto os dos outros como os que ela própria escreve, especialmente os que escreve para crianças e jovens… de todas as idades. É uma apaixonada por História e por viagens e adora os seus dois filhos. Leia excertos dos seus livros, os textos das suas conferências, os seus artigos sobre plantas medicinais, lendas e tudo o mais que encontrar no seu sítio web – www.dulcerodrigues.info – e sinta-se à vontade em lhe dizer o que pensa… sobre tudo ou quase tudo

Mas as suas respostas nesta nossa “conversa “complementam”, e de que maneira, esta curta apresentação

1) A doutora dedica uma especial atenção à literatura para a infância, sem ignorar o género teatral.  Alguma razão para a preferência?

Efectivamente, há várias razões para a minha preferência pelo género teatral. Como menciono na página teatro do meu sítio www.dulcerodrigues.info, um texto de teatro (ou guião) pode ser usado como fonte de leitura na sala de aula ou em actividades depois das aulas. As crianças nem sequer têm necessidade de memorizar os textos, mas simplesmente de os ler, e este género de actividade dispensa mesmo o palco. O espaço da sala de aula chega para o efeito, pois o objectivo principal é a leitura do texto, se possível acompanhada de expressão verbal e corporar, coisas que os jovens normalmente adoram fazer. 

Por outro lado, os textos de teatro são sempre numa linguagem mais fácil, porque são diálogos, um discurso de todos os dias. A minha experiência mostrou-me, assim, que crianças e jovens pouco interessados pelos livros ou que sentem por vezes dificuldades na leitura ganham confiança e gosto em ler à medida que começam a poder gerir textos de teatro (guiões) de dificuldade média.

A finalidade da leitura é transmitir ao leitor conhecimentos sobre assuntos variados, sobre outras gentes e outras culturas e fazê-lo, tanto quanto possível, de uma maneira lúdica e num discurso acessível, e uma peça de teatro reune geralmente esses ingredientes. 

2) O que deve  caracterizar  a literatura infanto-juvenil?

O livro – seja ele infanto-juvenil ou para um público mais crescido – não é um objecto decorativo para pôr na prateleira. A sua apresentação gráfica é importante, mas é sobretudo o seu conteúdo literário que nos deve interessar. É no conteúdo literário que reside o valor intrínseco de um livro. Uma estória para crianças deve ter um discurso autêntico e espontâneo e desenvolver um laço afectivo entre o leitor, as personagens e o autor. A estória de um livro infantil tem de despertar a imaginação dos leitores a que se destina. É preciso que as crianças se identifiquem com as personagens, os seus defeitos, virtudes, desgostos e desejos. Mas, tudo isto, contando uma estória. 

É neste aspecto que, por exemplo, os contos tradicionais e os contos de fadas têm tanto interesse para as crianças e foram adaptados ao cinema, primeiramente por Walt Disney, por outros realizadores mais tarde. Continuam e continuarão a ser actuais – embora com algumas evoluções a nível de certos usos e costumes morais e sociais. Contam estórias que são universais e que agradam a todas as crianças, quer elas tenham vivido no século XVIII ou vivam agora no século XX; quer elas vivam na Europa ou em África. 

Na literatura infanto-juvenil, todavia, devemos considerar em primeiro lugar a idade dos leitores para que escrevemos. Se o livro se destina a crianças com idades entre os dois e os quatro/cincos anos, o indicado são livros de imagens onde o texto é reduzido a algumas frases que contam a estória. Para leitores entre os cinco/seis e os dez/onze, o texto deve ser mais extenso,mas também é recomendado que leve ilustrações. Aqui, faço a distinção entre um livro de imagens e um livro com ilustrações, pois não são a mesma coisa. Tratando-se de literatura juvenil, portanto para um público já adolescente, no meu ponto de vista o livro pode conter somente texto. Contudo, não esqueçamos que mesmo alguma literatura, em princípio dirigida aos adultos, também contém por vezes ilustrações.

No caso particular de peças de teatro, a ilustração pode ser inexistente ou reduzida a um mínimo. Contudo, considero que uma peça de teatro infantil pode muito bem incluir ilustrações se assim o entendermos. Afinal, trata-se igualmente de literatura jovem, por vezes até mais acessível a quem ainda não domina muito bem a leitura, visto que a escrita em diálogo que caracteriza uma obra literária de teatro é muito mais acessível do que qualquer outro texto de ficção. Aliás, tenciono ilustrar uma ou mais das minhas peças de teatro infantis, e o livro Le Théâtre des Animaux levou também algumas ilustrações.

Por outro lado, a escrita é também uma forma de arte, e a arte deleita. A literatura infantil – embora um utensílio através do qual a criança descobre novos mundos e desperta para novas sensações, isto é que tem um fundo moral,  pedagógico e didáctico –- não pode de modo algum esquecer a componente lúdica, a criatividade, a imaginação. Excluo a fantasia, pelo efeito nefasto que ela exerce no desenvolvimento intelectual do indivíduo, conduzindo-o a uma alienação da realidade. Na nossa sociedade ocidental actual, os jovens parecem viver desde há algumas décadas num mundo fantasista, alheados das realidades da vida, num mundo cada vez mais virtual, no plano tecnológico como humano. Penso que a literatura do fim do século passado e início do presente tem contribuído, de certo modo, para essa alienação.

3) O que devemos considerar  como literatura portuguesa?

Na minha modesta opinião, acho que hoje em dia na Europa – e até mesmo de um modo geral no mundo, com excepção ainda de alguns países – já  não existe propriamente uma literatura portuguesa ou luxemburquesa, francesa... Vivemos numa época em que as pessoas se movem cada vez mais de um lado para o outro e conhecem novas ideias e culturas. Quer nos agrade ou não, a globalização existe e reflecte-se em todos os domínios culturais. O que é preciso é que continuemos a ser nós próprios, impregnando-nos do ambiente que nos rodeia mas sem, todavia, nos deixarmos contaminar por ele. Assim, a obra de cada um será única e universal ao mesmo tempo. 

4)  Conhece e escreve para vários países. Há grandes diferenças nos projectos educativos?

Infelizmente, sim. Enquanto em Portugal reduzimos os orçamentos para a Educação e o Ensino (além dos da Saúde), em países com a França o orçamento da Educação nacional é o maior de todos os orçamentos do governo! Um povo ignorante é muito mais fácil de manipular do que um povo culto. Aliás, a Educação e a Cultura  têm sido desde sempre duas órfãzinhas no nosso país. 

Deixando de lado a “complicada” história do Ministério da Educação, que até 1976 geria igualmente a Cultura, não esqueçamos que esta última tem tido ainda uma vida mais atribulada e efémera do que a Educação, ora pertencendo a uma Secretaria de Estado, ora sendo elevada a uma categoria superior digna de um Ministério da Cultura. Estamos de novo com a Cultura entregue a uma Secretaria de Estado. A título informativo, por exemplo, data de 1959 o Ministério da Cultura em França, sem nunca ter sofrido nenhuma descida de estatuto. 

A própria palavra “cultura” parece ser algo de que muitos Portugueses fogem como o Diabo foge da cruz. “Cultura” em Portugal, só a do futebol, das telenovelas e dos programas débeis como o do “Gordo” e semelhantes e, como se já não chegasse, temos agora ainda um tal de “Café Central”. Sem falar nas touradas, de que alguns “aficionados” (empresas e membros da família) receberam em 2011 subsídios no valor de 9.823.004,34 (nove milhões, oitocentos e vinte e três mil e quatro euros e trinta e quatro cêntimos)!! Depois não há dinheiro para a Educação, a Cultura e a Saúde!

Claro que este estado “cultural” se reflecte em tudo o resto, incluindo o nível do ensino. Todos sabemos que os sábios desejam rodear-se sempre de outros sábios. Mas que  os medíocres  se rodeiam de outros ainda mais medíocres, pois é a única maneira da sua mediocridade não dar muito nas vistas. Assim, mesmo que queiramos fazer alguma coisa a nível pessoal, porque sabemos que não podemos contar com as instituições e entidades oficiais para isso, deparam-nos com um muro impossível ou difícil de transpor. Somos um povo muito bairrista e, se não tivermos uns “conhecimentos” que nos arranjem uma “cunha”, só por milagre poderemos concretizar alguma coisa. Só a título de curiosidade, nas poucas ocasiões em que contactei alguma entidade governamental – nomeadamente o Ministério da Educação em 2002, 2003 e, mais recentemente, de novo em 2012, com propostas de projectos pedagógicos, nem resposta recebi. 

Quando, regularmente, envio para um jornal qualquer português ou para um programa televisivo, supostamente cultural, uma carta ou mensagem, a carta fica sempre sem resposta e a mensagem é eliminada sem ter sido lida. Isto sucede sistematicamente também com as bibliotecas! Não devo, possivelmente, ser uma escritora com suficiente estatuto para que, ao menos as bibliotecas se dignem ler as minhas mensagens. 

Em contrapartida, como sabe, continuo a receber com regularidade convites de países estrangeiros. O último veio de França, nomeadamente de Oloron, onde tinha estado em 2009 para dar uma conferência na Câmara Municipal sobre o nosso grande poeta Camões (entre outras actividades), e nessa altura conheci os Franceses que me convidaram agora para o Salão do Livro Sem Fonteiras e visita a duas escolas da região. Em 2002, A Education nationale (nome do Ministério de Educação de França) realizou um projecto-piloto e um dos livros escolhidos e trabalhados em quatro escolas da região de Longwy (perto da fronteira com a Bélgica) foi o meu primeiro livro infantil L’Aventure de Barry. No seguimento desse trabalho sobre o livro, alguns alunos sentiram-se inspirados pelas estórias e escreveram maravilhosos poemas, para grande surpresa de professores, que nunca tinham visto nada semelhante acontecer antes, e para grande prazer meu, como é óbvio.   

Dos países com quem tive o prazer e honra de colaborar, considero que a Alemanha, a França e, de certo modo o Luxemburgo são os que mais se investem a nível educacional e cultural. Enquanto isto, Portugal torna-se cada vez mais pobre, porque a riqueza de um povo está no nível do seu ensino, da sua educação, da sua cultura.

5) Como situa Portugal neste campo e no contexto internacional? Aliás, como é a criança portuguesa em relação às outras?

Relativamente a Portugal, o ponto anterior responde a essa pergunta. Quanto à criança portuguesa, ela não fica de modo algum atrás das crianças dos outros países; é tão interessada e com as mesmas capacidades intelectuais que qualquer outra criança. O que a pode “castrar” é o meio em que vive. E nesse aspecto as nossas crianças estão em devantagem, o que é lamentavelmente injusto, porque a aprendizagem para aquilo que vamos ser mais tarde, quando adultos, joga-se precisamente nos primeiros anos. Neste aspecto, refiro-me também ao meio familiar, não somente à escola, pois é no seio da família que se dão os primeiros passos. Os níveis educacional e cultural da maioria das famílias portuguesas não são dos mais elevados, e o interesse pela aprendizagem, o conhecimento, numa palavra os interesses culturais, são muito baixos.  
    
6) Qual a sua posição face ao novo acordo ortográfico? Concorda que nos nossos jornais de referência se escreve por vezes muto mal, em especial na construção das frases?

De um modo geral, os Portugueses falam e escrevem muito mal o português, e os jornalistas (mesmo alguns que são igualmente escritores) não são excepção, contribuindo até para que haja uma degradação cada vez maior da língua portuguesa.

Quanto ao “aborto” do acordo ortográfico, dentro de alguns dias tenciono tornar pública a carta que vou enviar ao Parlamento sobre o assunto. Nessa altura; envio-lha para que a publique também, se quiser. Como já deve ter deduzido pelas minhas palavras, sou completamente contra. Foram pressões, especialmente de grandes editoras (algumas brasileiras, aliás) que estão por detrás deste acordo. E como os Portugueses, especialmente aqueles que nos têm governado ultimamente, têm um baixo perfil e se humilham perante qualquer estrangeiro, foi este o resultado...

De todos os países de língua portuguesa, o Brasil é exactamente aquele em que se fala pior e onde a língua portuguesa é mais estropiada. O que se fala no Brasil é já um dialecto português não A língua portuguesa, e por mais acordos que possa haver, mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a considerar duas linguagens separadas – mas, entretanto, a língua degradou-se também em Portugal. Fala-se tão mal português no Brasil que as pessoas com mais educação e instrução, como professores universitários, por exemplo, dizem ter de falar e escrever mal, pois de outro modo a maioria dos Brasileiros não os percebe!  Basta falarmos com Brasileiros para nos apercebermos que eles têm dificuldade em nos compreender e que falam uma linguagem que já se distanciou da língua portuguesa, uma das línguas literárias mais antigas da Europa e que está em risco de se tornar um dialecto a curto ou médio prazo se não a salvarmos. 

Aliás, não penso que seja por acaso que a procura do ensino da língua portuguesa tenha descido 26% no estrangeiro. As pessoas aperceberam-se já dessa degradação e perderam interesse em aprendê-la.

Se já o anterior acordo ortográfico (que, curiosamente, os Brasileiros não assinaram...) não devia ter sido posto em prática – e nem sequer devia ter sido pensado – este ainda menos. Ainda o podemos recusar e, de qualquer modo, há uma maneira democraticamente cidadã de o boicoitar: não comprar livro nenhum que seja escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. Em momento de crise, esta medida terá ainda a vantagem de se poderem adquirir livros mais baratos, em segunda-mão; e não deve ser difícil encontrá-los. Pessoalmente é o que tenciono fazer. E, claro, muito menos devemos escrever ao abrigo do acordo. Excepto as “pobres criancinhas” que serão obrigadas a (des)aprender a língua na escola. 

É fácil eliminar do computador o corrector de português. Aliás, quanto mais as pessoas se habituarem a deixar que as máquinas substituam as suas faculdades mentais, mais vão perdendo capacidades. Um dia, quando precisarem de escrever alguma coisa sem recorrerem ao corrector, não saberão como se escreve. E assim, a língua portuguesa ainda se vai degradando mais. A perda de faculdades, por causa do uso de “máquinas” que substituem o esforço de pensar, é um dos grandes problemas com que vão defrontar-se as gerações mais novas e as futuras, que possivelmente já por volta dos 50 anos sofrerão da doença de Alzheimer e outras do género. Poderemos discutir deste assunto numa outra ocasião.

Quanto aos livros que escrevo, com a evolução que o mercado editorial tem sofrido, em que é possível publicar um livro em qualquer língua em qualquer país, não publicarei certamente em Portugal se me exigirem que seja escrito ao abrigo do novo acordo. O livro infantil que publiquei recentemente em Portugal – Era uma Vez uma Casa – não foi escrito ao abrigo do novo acordo. 
   
7) Projectos para o futuro?

Tenciono continuar a trilhar os mesmos ”caminhos” que até agora:  publicação de livros infanto-juvenis em várias línguas (incluindo peças de teatro, claro) e actividades lúdico-pedagógicas, por um lado; por outro, conferências e fóruns, participação em salões do livro, publicação de livros também para um público adulto. 

Fui contactada há dias por um editor em Paris que disse ter-me conhecido durante o Salão do Livro de Paris de 2011 -- em que participei a convite do editor do meu livro bilingue O Pai Natal está constipado. É possível que se verifique uma colaboração a curto ou médio prazo. Ele disse-me ter adorado o meu livro Il était une fois une Maison, uma estória que recebeu um prémio literário em França em 2004 e que é, na realidade,  a versão original de Era uma Vez uma Casa, o livro recentemente publicado em Portugal. 

Projectos não me faltam, o que me falta é o tempo para poder realizá-los todos, pois já não sou nova...

8) Uma mensagem e tudo o que mais entender

Teria imensas mensagens que gostaria de enviar a todos os Portugueses que lerem esta entrevista. Mas vou tentar condensá-las numa pequena frase que me tem acompanhado ao longo da vida : “Desejo que cada um de nós  procure ver o mundo através do olhar da criança que todos já fomos, e que continua sempre no fundo de nós mesmos. Só uma alma de criança nos fará aproveitar em harmonia e felicidade tudo o que a Vida tem para nos oferecer.”

Fonte:
Colaboração de Lino Mendes

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