quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Jornais e Revistas do Brasil (A Manha / RJ)


Período disponível: 1926 a 1955 
Local: Rio de Janeiro, RJ 

Publicação de humor político, A Manha foi criada e dirigida por Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, posteriormente auto-intitulado Barão de Itararé. O próprio nome do periódico parodiava um dos grandes jornais da época, A Manhã (de cujo título subtraiu-se o til), no qual Torelly, sob o pseudônimo Apporelly, antes de criar o seu jornal, publicava uma coluna humorística intitulada “A Manhã tem mais”. A Manha procurava imitar A Manhã também no seu aspecto visual.

Torelly foi na sua especialidade, o humor, importante personagem das redações cariocas, sendo considerado um precursor da moderna imprensa satírica brasileira. A Manha começou a circular no dia 13 de maio de 1926 com o subtítulo “Órgão de ataques... de riso”. Propunha-se abertamente a “morder o calcanhar das autoridades”, especialmente a classe política. Com estilo irreverente e inovador, A Manha revelou-se em pouco tempo um sucesso de vendas, colocando-se à frente das publicações concorrentes, como O Malho, Careta e Fon-Fon. 

Homem de idéias socialistas, ligado ao Partido Comunista Brasileiro – o que lhe valeria três prisões durante governo Vargas –, Torelly gostava de atacar com suas piadas os valores estabelecidos, enquanto se solidarizava com os setores marginalizados da sociedade. A própria figura fictícia do Barão de Itararé era uma crítica bem-humorada ao conservadorismo das elites e aos valores aristocráticos. 

Criado como semanário de circulação nacional, mas caindo depois em periodicidade irregular, A Manha era quase totalmente escrita pelo próprio Torelly, que na primeira fase do jornal ainda se assinava Apporelly. No entanto escondiam-se, sob vários pseudônimos, colaboradores importantes como Manuel Bandeira, Henrique Pongetti e José Madeira de Freitas (o caricaturista e escritor que se assinava Mendes Fradique). O jornal contava também com charges de Nássara, Pedro de Lara, Martiniano, Mollas e Hilde.

O diagramador e desenhista paraguaio Andrés Guevara foi, pela constância e qualidade do seu trabalho, o mais importante colaborador do periódico, atuando nele do início ao fim, já na década de 1950. Dividia o seu tempo entre Brasil e Argentina, onde tinha sua principal residência. Guevara não só influenciou muitos cartunistas brasileiros como introduziu modernos conceitos de diagramação e paginação em nossa imprensa, tendo sido responsável, inclusive, pelo projeto gráfico do jornal Última Hora, lançado em 1951, que introduziu a técnica da diagramação na imprensa brasileira. Muito devido a seu trabalho, A Manha foi o primeiro jornal humorístico a fazer uso de fotomontagens para ridicularizar as autoridades. 

A Manha tinha formato tabloide (fator que viria a influenciar a chamada imprensa alternativa dos anos 1960/70) e apresentava várias seções: economia, política, cotidiano, noticiário policial, página de literatura e esportes etc. Trazia também previsões de fim de ano e um suplemento de supostos correspondentes estrangeiros, com artigos redigidos à maneira pela qual imigrantes portugueses, alemães e italianos falavam coloquialmente o português, com suas respectivas pronúncias e erros de ortografia. A política, vista sempre pela ótica do humor, era o assunto predominante do jornal, que mantinha também uma seção destinada a denúncias dos leitores. 

Em 1929, durante a campanha política promovida pela Aliança Liberal, com Getúlio Vargas candidato à Presidência e João Pessoa a vice, A Manha circulou por quatro meses como encarte semanal do jornal Diário da Noite, órgão dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em apoio ao movimento. Na primeira semana, dobrou de tiragem, vendendo 15 mil exemplares, até chegar à marca de 125 mil exemplares, vendidos na data da publicação do programa da AL. 

Após a Revolução de 1930, que levou Getúlio ao poder, A Manha se dizia um órgão independente, “que não se vende, apenas se troca por quinhentos réis”. Foi nesse período que Torelly contemplou-se com um título de nobreza, barão de Itararé, em alusão à cidade de São Paulo, de nome Itararé, onde se esperava um cruento e decisivo confronto entre as forças governistas fiéis ao presidente Washington Luís e os revolucionários liderados por Getúlio. A "Batalha de Iraré", da qual ele emergiu como "barão", jamais aconteceu, no entanto. Essa sutil provocação seria apenas o começo de uma conflituosa relação do dono de A Manha com a ditadura de Vargas. 

Em setembro de 1932, Torelly foi preso por causa de seus constantes ataques ao regime. Em 1933, seu jornal já aderia fervorosamente à campanha antifascista, ironizando o movimento integralista brasileiro, de extrema-direita, comandado por Plínio Salgado e inspirado no ideário de Hitler e Mussolini. O slogan integralista “Deus, Pátria e Família” foi substituído nas páginas de A Manha por “Adeus, Pátria e Família”. Neste período, Torelly sofreu violento atentado perpetrado por militares integralistas da Marinha por causa de uma série de reportagens sobre o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata, publicada no Jornal do Povo, editado em paralelo a seu jornal humorístico. Mas em A Manha até as tragédias se transformavam em anedota. Consta que depois do incidente Torelly teria afixado uma tabuleta na porta de sua sala com os dizeres: “Entre sem bater”. 

Em 1934, mesmo ano em que se inicia o regime nazista na Alemanha, Torelly já denunciava em A Manha a “carnificina dos campos de concentração, onde se encontram presos os adversários do regime (…) e milhares de judeus que curtem o crime de não terem nascidos arianos puros”. As posições políticas levam Torelly para a prisão pela segunda vez, em dezembro de 1935, quando seu periódico saiu temporariamente de circulação. Dessa vez o Barão de Itararé era apontado como militante e um dos fundadores da Aliança Nacional Libertadora. A ANL fora desarticulada pelo governo Vargas após o fracasso dos levantes armados de 1935, liderados pelo PCB (Intentona Comunista). Algumas reuniões da ANL ocorriam, de fato, na própria sede de A Manha, com a presença de Francisco Mangabeira, Carlos Lacerda, Roberto Sisson, Manuel Venâncio Campos da Paz, Benjamim Soares Cabello e outros. 

A Manha só foi reaberta após a soltura de Torelly, em 21 de dezembro de 1936, passando a circular sob censura exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Nesta fase, o periódico concentrava seus ataques às ditaduras de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, evitando choques frontais com a direita brasileira. Mesmo assim, o jornal só conseguiu funcionar por cerca de um ano a mais, sucumbindo finalmente sob as pressões da ditadura do Estado Novo. Torelly se refugiou então no Diário de Notícias, na condição de colaborador, mas acabou sendo preso novamente. Em novembro de 1937, dividiu uma cela, no presídio da Frei Caneca, com Graciliano Ramos, fato citado no livro Memórias do cárcere, do escritor alagoano. 

Quase uma década depois, em abril de 1945, A Manha ressurge, alcançando um sucesso até maior do que antes. Neste momento, em clima de instabilidade política pelo qual passava o governo Vargas, o jornal prenunciava a articulação de um golpe contra o presidente em manchete que se tornaria mais uma das célebres criações de Torelly: “Além dos aviões de carreira há qualquer coisa no ar”. Nesta nova fase, contando com a colaboração de escritores como José Lins do Rego, Álvaro Lins, Rubem Braga, Raimundo Magalhães Jr., Raul Lima, Pompeu de Sousa e Sérgio Milliet, entre outros, o jornal passou a ter Arnon de Melo como responsável pelo seu departamento comercial. Incentivou-se, nesse período, o uso da imagem do Barão de Itararé como garoto-propaganda, mas a sociedade mantida entre Torelly e Arnon de Melo acabou desfeita pouco tempo depois, quando este passou a apoiar a candidatura de Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), nas eleições presidenciais. 

Devido a problemas financeiros, A Manha deixou de circular em 1948. Torelly havia sido eleito vereador do antigo Distrito Federal, pelo PCB, no ano anterior, sendo cassado em 1948, assim como outros parlamentares da legenda. Um ano depois, associado a Andrés Guevara, o Barão de Itararé edita em São Paulo (SP) o Almanaque d’A Manha, também chamado Almanhaque. Impulsionada pelo repentino sucesso da publicação, A Manha volta a circular em 1950, agora em São Paulo, para desaparecer em setembro de 1952. Em 1955 Torelly lança as duas edições derradeiras do seu Almanhaque. A Manha teve ainda curta sobrevida em 1960, ao reaparecer como encarte de uma página no jornal Última Hora. Em 1989, o Almanhaque teve reedições fac-similares, editadas pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e pela Editora Studioma.

Fonte:
http://hemerotecadigital.bn.br/artigos/manha

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