Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Carlos Leite Ribeiro (A Deusa e o Mar) Capitulo 3

O choque daquela notícia inesperada pareceu sobrepor-se a tudo o resto, no ânimo da rapariga, que ficou pálida, e uma série de revelações fez-se, nesse momento, no seu espírito. Como se estivesse a adivinhar que estava a perder terreno foi quando, com certa petulância que o amigo dela, o Januário interveio:

Januário: -  Olhe lá, amigo (que eu não conheço), posso saber que conversa é essa que está a ter com a minha noiva, parecendo que me quer ignorar?!

António: -  Parece que não ouvi bem... Sua quê...?! 

Januário: -  Minha noiva - ouviu bem desta vez?... Não estou  compreendo essa sua admiração toda...

Sandra: -  Nós não somos noivos, Sr. António das Ondas. Ele escrevia-me do Porto, onde reside, e eu esperá-lo simplesmente como amigo. Mas diga-me, é verdade que o Luís Carlos se foi embora?

António: -  Já te disse que ele partiu, só não sei exatamente porquê. Escuta Sandra Cristina, podes dizer-me onde estiveste desde que te encontraste com esse moço que te acompanha... E a fazer o quê?

Um pensamento súbito rasgou o cérebro de Sandra - se Luís Carlos a tivesse visto nos braços do Januário. Sim, não podia ser outra coisa!

Uma onda de vergonha ruborizou o rosto da rapariga, que logo rompeu em soluços, escondendo o rosto nas mãos.

António: -  Bem, vai andando para casa, Sandra Cristina, que eu irei lá ainda esta tarde. Quanto a este senhor... Senhor, Januário, não é verdade? ... Devo informá-lo de que aqui em São Pedro de Moel, nenhum rapaz se intitula noivo de uma rapariga, sem antes ter obtido o consentimento dos pais dela, e como neste caso a mulher ser menor...

Januário: -  Mas como o Sr. sabe, eu não sou de cá.

António: -  Que não é desta terra vê-se, logo, meu amigo, mas vamos conversar... E tu, minha filha, podes ir, que eu ficarei com o teu, teu "noivo???" como ele diz...

Ao ouvir falar o António das Ondas, o rapaz ficou muito surpreendido. Este, tomando-lhe o braço e caminhando com ele em direção ao farol, começou por lhe dizer: "Como você deve saber muito bem, o coração das mulheres é muito complicado, e por vezes, nem elas próprias o entendem! os rapazes de vinte anos é que não o entendem nunca".

Só naquele momento é que Sandra Cristina compreendeu o que Luís Carlos representava para ela, como ele era insubstituível na sua vida, como ela fora uma perfeita idiota com aquele romance com o Januário... Arrependia-se agora da sua conduta, das cartas que escrevera ao Januário e da sua leviandade, ao não reconhecer que era o verdadeiro amor o daquele que a pintara. Que saudades já tinha da sua presença, que falta lhe fazia a sua voz compassada e calma, a sua presença máscula, o seu olhar leal, que sabia encobrir o desejo e onde só brilhava a dedicação e lealdade... Mas tudo isto só agora é que se apercebera. Agora que já era tarde e ele partira para Lisboa, sem ou menos ter deixado a sua morada, ou outra qualquer indicação. Ela receava que Luís Carlos, não voltaria a aparecer.

O seu orgulho de homem feito, o seu amor-próprio, não consentiria que se rebaixasse a procurá-la depois do que sucedera. Ainda se ela não o tivesse beijado naquela manhã, ou se não fosse naquele rochedo, onde ele a conhecera e que afinal a fora surpreender nos braços do Januário. Depois do que a criadinha lhe contara, da chegada de Luís Carlos e da sua ida, para regressar pouco depois, transtornado e nervoso a buscar tudo sem lhe dar uma palavra, não lhe restavam agora quaisquer dúvidas, do que o pintor a surpreendera nos braços do Januário. Agora sofria as consequências do seu erro, já que os pais, por sugestão de António das Ondas, tinha decidido não lhe falar em nada, sem que ela procurasse esclarecer o que se passara realmente, e o que se estava a passando no seu íntimo de rapariga infeliz, que errara e estava arrependida.

Um dia, o correio trouxe endereçado a seus pais, mas sem remetente, um enorme embrulho de forma cilíndrica. Ela sobressaltou-se. Pelo formato, logo lhe pareceu que seria o seu retrato.

E, com efeito, não se enganara, mas só ela não partilhou da alegria dos pais e de António das Ondas... É que, e apesar dos seus conhecimentos de pintura ser mais do que rudimentares, não acreditou que fosse aquela tela, que durante quase um mês Luís Carlos, pintara defronte a si... O traço parecia-lhe fácil e o colorido vulgar, embora Sandra Cristina nunca tivesse visto o quadro que Luís Carlos pintara, tinha a certeza de que se tratava de uma obra-prima. E aquele, não sendo mau, não era de modo algum aquilo que o seu coração, carregado de remorsos e arrependimento, imaginava que devia ser...

Entretanto...

Em Lisboa, o pintor algarvio alcançava um êxito assinalável, logo na sua primeira grande exposição. A crítica e o público ocorriam à mais célebre galeria de arte da cidade das sete colinas, a admirar as telas ousadas do jovem pintor, e uma sensação de moderno e de novo se estampava em todas as sensibilidades, desde logo subjugadas pelo talento do artista. Entre todos os quadros expostos, havia um que chamava a atenção geral, perante o qual, nenhum visitante deixara de demorar em êxtase. Chamava-se o quadro: "A DEUSA e o MAR".

É que Sandra Cristina tivera razão, quando sentira que aquela tela que os pais tinham recebido, não podia ser a que Luís Carlos, a pintara junto dela. O cartão simples e cerimonioso que acompanhava o trabalho garantia-lhe que o pintor continuava gostando dela, pois de outro modo, não seria tão frio e reservado no cumprimento de um dever social, como esse de enviar o seu trabalho aos pais. Mas, tratava-se de uma cópia que lhe fizera, do seu próprio quadro, pois o original era aquele que ali estava na exposição, exposto em lugar de honra e constituindo a admiração de todos os visitantes. Era evidente que só um artista apaixonado pelo seu modelo, poderia ter traçado e colorido aquele belo quadro. O amor, com tudo quanto há de espiritual e entusiástico nesse sentido sublime, estava ali como que retratado plasticamente, na poesia do ambiente, uma espécie de santidade que aureolava a figura central, e no carinhoso acabamento de cada pormenor.

Aliada a esta impressão poderosa que o quadro transmitia a toda a gente, estava a circunstância de terem oferecido por aquela pintura, autênticas somas fabulosas, e o quadro continuar no catálogo, com esta indicação: "Sem Preço - Não é para Venda". Isto queria dizer que Luís Carlos não venderia a sua obra-prima, por nenhum preço. Ora, quando um pintor se nega a vender um dos seus quadros, isso só pode acontecer por uma fortíssima razão sentimental. E assim a lenda do quadro "A Deusa e o Mar", logo começou a correr de boca em boca.

Até no desejo de evitar as constantes perguntas e entrevistas sobre os motivos por que não vendia aquele quadro, Luís Carlos pouco aparecia na galeria, deixando o encargo das vendas, que já ao quinto dia eram quase totais, ao seu amigo e algarvio como ele, de nome Daniel, que lhe tinha conseguido o aluguel da galeria para expor.

Nessa noite, porém, e sem saber porque o fazia, o pintor entrou na galeria, deviam de ser umas dez horas da noite. A galeria estava literalmente cheia de visitantes, e havia um sussurro geral de admiração.

Daniel, orientador da exposição, em determinada altura, correu para ele dizendo-lhe:

Daniel: -  Ainda bem que apareces-te! Tu nem calculas quem está interessado em comprar o quadro “A Deusa e o Mar”?

Luís: -  Não faço a menor ideia, nem quero saber.

Daniel: -  Escuta, Luís Carlos... É certo que toda a gente quer comprar aquele quadro, mas este cliente é muito especial...

Luís: -  Por favor, não insistas, pois sabes muito bem que eu não mudo de opinião. Só por curiosidade, e devido à tua grande excitação, diz lá quem é que o pretendeu comprar o quadro?

Daniel: -  Nem mais nem menos que o Dr. Roger Richter! Que esteve aqui ontem com a esposa e ficaram ambos embasbacados diante da tela!

Luís: -  Sei lá quem é esse Roger Richter!

Daniel: -  Claro que sabes quem é!... Olha, ali vem ele com a mulher. É que eu disse-lhe que passassem por cá esta noite, porque talvez tu aparecesses...

Luís: -  Até parece impossível, em vez de me facilitares as coisas, atiras-me para a cabeça do "touro". Tu queres é que eu enfrente os clientes, para tu poderes receber a tua comissão...

Mas calou-se a olhar para aquele casal que acabara de entrar na sala, e que o seu amigo Daniel lhe indicara como sendo o Dr. Roger Richter e a esposa. Sim, conhecia o rosto daquele homem, mas de onde?...
 
continua...
 
Fonte:
O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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