Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Folclore Japonês (Hatschihime)

Hatschihime, a donzela protegida, popularmente conhecida como “A Donzela com Capacete de madeira” se passou há muito, muito tempo… Em uma pequena aldeia do Japão vivia um velho homem, sua esposa e filha. Por muitos anos eles foram felizes e prósperos, mas maus momentos vieram e, finalmente, nada lhes foi deixado, além da menina, que era tão bonita como o sol da manhã. Os vizinhos foram muito amáveis, e fizeram tudo o que podiam para ajudar seus pobres amigos, mas o velho casal sentiu que desde que tudo tinha mudado eles preferiam ir para outro lugar e recomeçar. Então um dia eles partiram adentrando o país, levando apenas sua única filha com eles…

A Lenda

Agora, a mãe e a filha tinha muito que fazer para manter a casa limpa e cuidar do jardim, mas o homem sentava-se por horas a fio olhando o infinito a pensar nas riquezas que antes possuíam. Cada dia que passava mais e mais miserável ele se sentia, até que finalmente, ele foi para sua cama e nunca mais se levantou. Sua esposa e filha choraram amargamente por sua perda, e passaram-se muitos meses sem que pudessem ter prazer em nada.

Então, certa manhã a mãe de repente olhou para a menina e percebeu que ela tinha crescido ainda mais encantadora do que antes. Seu coração teria ficado contente com a visão, mas agora que as duas estavam sós no mundo, ela temia que algum mal pudesse lhes acontecer. Então, como uma zelosa mãe, ela tentou ensinar sua filha tudo o que sabia, e, desta forma, mantê-la sempre ocupada, de modo que ela nunca iria ter tempo para pensar sobre si mesma ou no mundo lá fora. E a garota que era uma boa filha, ouviu todas as lições de sua mãe, e assim os anos se passaram.

Na última úmida primavera, a mãe pegou uma friagem, e embora no início ela não prestasse muita atenção, a enfermidade cresceu gradualmente, deixando-a mais e mais doente. A pobre mãe pressentiu que ela não tinha muito tempo de vida. Então chamou a filha e disse-lhe que muito em breve ela estaria sozinha no mundo, e que ela deveria cuidar de si mesma, pois dali em diante, não haveria ninguém para olhar por ela. E temerosa, sabendo que era mais difícil para as mulheres bonitas passar despercebidas do que para outros, ela mandou-lhe buscar um capacete de madeira para que fosse usado fora da casa. Ela deveria colocá-lo em sua cabeça, e puxá-lo para baixo sobre as sobrancelhas, de modo que quase todo o rosto deveria ser encoberto em sua sombra.

A menina fez o que lhe foi orientado, e sua beleza era tão escondida sob a aba de madeira, que cobria todo seu rosto e o cabelo, que ela poderia ter passado por toda a multidão, que ninguém teria olhado duas vezes para ela.

E quando viu isso, o coração da mãe que estava em repouso, finalmente sossegou, ela então deitou em sua cama e calmamente morreu.

A menina chorou por muitos dias. Mas, sentiu que estando sozinha no mundo, ela deveria partir e arranjar trabalho, pois agora só tinha que depender de si mesma. Não havia nada para ser obtido no lugar onde estava. Decidida, ela arrumou suas roupas em um saco, e caminhou sobre as colinas até que chegou à casa do homem que possuía a maioria dos campos nessa parte do país.

E a jovem conseguiu trabalho com ele, e trabalhou em suas terras de cedo à tarde. E todas as noites quando ia para a cama, sentia-se em paz, pois ela não tinha esquecido o que tinha prometido a sua mãe. E, mesmo estando sob o sol quente, ela sempre mantinha o capacete de madeira sobre a cabeça, ao que o povo da região deu-lhe o apelido de Hatschihime.

Porém, apesar de todos os seus cuidados, a fama de sua beleza se espalhou; muitos jovens insolentes iam atrás dela enquanto estava no trabalho e tentavam levantar o capacete de madeira. Mas a menina não tinha nada a dizer a eles, e apenas pedia-lhes que a deixassem; em seguida, eles insistiam em falar com ela, mas ela nunca respondia e continuava com o que estava fazendo.

E assim seus dias iam se passando, e embora seu salário fosse baixo e a comida não muito abundante, ainda assim, ela conseguia viver, e isso era suficiente.

Certa vez, aconteceu de seu mestre passar através do campo onde ela estava trabalhando, e, impressionado com o seu desempenho, parou para observá-la. Depois de um tempo ele lhe fez algumas perguntas, e, em seguida, levou-a para sua casa, e disse-lhe que doravante o seu único dever seria cuidar de sua esposa doente.

A partir deste momento a garota sentiu como se todos os seus problemas terminassem, mas o pior deles ainda estava por vir.

Não muito tempo depois, Hatschihime havia se tornado empregada da patroa doente, fazendo todo tipo de trabalho doméstico na casa. Por esse tempo, o filho mais velho da casa voltou de Kyoto, onde estava estudando. Ele estava cansado dos esplendores da cidade e seus prazeres, e alegrou-se o suficiente para estar de volta na terra verde, entre os pêssegos-flor e flores doces.

Um dia, passeando no início da manhã, ele avistou a garota com o capacete de madeira em sua cabeça. Curioso, imediatamente foi até sua mãe para perguntar quem era a jovem, de onde veio, e por que ela usava aquela coisa estranha sobre seu rosto. Sua mãe respondeu-lhe que era um capricho da menina, e ninguém conseguia convencê-la a colocá-lo de lado; o jovem riu, mas manteve seus pensamentos para si mesmo.

No entanto, em um dia quente, ele voltava para casa quando avistou a empregada de sua mãe em um pequeno riacho que corria pelo jardim, distraída, espirrava um pouco de água sobre seu rosto. O capacete foi empurrado de lado, e como o jovem ficou observando por trás de uma árvore, ele teve um vislumbre da grande beleza da moça. Deslumbrado com tamanho encanto determinou que, além daquela jovem, ninguém mais deveria ser sua esposa.

Mas quando ele contou a sua rica família sobre sua intenção de casar com a garota, ficaram todos muito irritados, fazendo todo tipo de maus comentários sobre ela. “Eu tenho apenas que permanecer firme”, pensou ele. “E eles terão que ceder”.

Porém, não ocorreu a ninguém que ela recusaria o jovem, mas assim foi. Apesar de corresponder aos sentimentos do belo rapaz, não seria certo, ela sentiu, provocar uma desavença na casa, e, embora em segredo, chorou amargamente por um longo tempo, nada a faria mudar de ideia.

Por fim, uma noite sua mãe lhe apareceu em sonho e ordenou-lhe que se casasse com o jovem. Então, da próxima vez que ele pediu a sua mão em casamento – como ele fazia quase todos os dias – para sua surpresa e alegria, a menina consentiu.

Os pais do jovem, em seguida, vendo que não restava nada a fazer, começaram a fazer os grandes preparativos adequados à ocasião. É claro que os vizinhos, contrariados com a ideia de ver um nobre que poderia desposar suas filhas, casar-se com uma miserável, disseram muita coisa ruim sobre a jovem de capacete de madeira, mas o noivo estava feliz demais para prestar atenção, e apenas riu deles.

Quando tudo estava pronto para a festa, e a noiva estava vestida com o mais belo vestido bordado encontrado no Japão, faltava retirar o capacete de madeira para arrumar-lhe os cabelos. Mas o capacete não saiu, e quanto mais eles puxavam, mais forte ele parecia prender, até que a pobre moça gritou de dor. Ao ouvir os gritos, o noivo correu e a acalmou, declarando que, já que ele não saia, ela deveria se casar com o capacete.

Em seguida, a cerimônia começou, e o casal de noivos juntos se sentou, e o copo de vinho lhes foi trazido, a partir da qual eles tinham que juntos beber. E quando eles tinham bebido tudo, e o copo estava vazio, uma coisa maravilhosa aconteceu.

O capacete, de repente, com um ruído alto se partiu e caiu em pedaços no chão, e como todos se viraram para olhar, eles encontraram o chão coberto com pedras preciosas que tinham caído dele. Mas os convidados estavam menos espantados com o brilho dos diamantes do que com a beleza da noiva, que foi além de qualquer coisa que já tinham visto ou ouvido falar. Seu rosto resplandecia à beleza e alegria.

A noite foi passada em meio a muita música e dança, e, em seguida, a noiva e o noivo foram para sua própria casa, onde viveram felizes até sua morte. Não antes de terem muitos filhos, que eram famosos por todo o Japão por sua bondade e beleza.

Fonte:
Adaptação do Livro: Japanese Fairy Tales unit. Story: The Violet Fairy Book by Andrew Lang and illustrated by H. J. Ford (1901), in Caçadores de Lendas

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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