Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 30 de julho de 2016

Oscar Wilde (O Notável Foguete)

O filho do rei ia casar-se. Por isto o regozijo era geral. Tinha esperado um ano inteiro pela sua noiva, que afinal chegara. Era uma princesa russa que tinha feito a viagem desde a Finlândia num trenó puxado por seis renas. O trenó tinha a forma de um grande cisne de ouro e entre as asas do cisne jazia a pequena Princesa. O seu longo manto de arminho chegava-lhe diretamente aos pés, na cabeça trazia um pequeno boné de tecido de prata e era pálida como o Palácio de Neve em que sempre tinha vivido. Era tão pálida que, ao passar pelas ruas, enchia todo o povo de admiração.

- Parece uma rosa branca! - diziam e atiravam-lhe flores do alto dos balcões.

Na porta do castelo estava o Príncipe esperando para recebê-la. Ele tinha uns sonhadores olhos cor de violeta e os seus cabelos eram como ouro fino. Quando a viu, dobrou um joelho na terra e beijou-lhe a mão.

- O vosso retrato era belo - murmurou -, mas sois mais bela que o vosso retrato.

E a Princesinha ruborizou-se.

- Há pouco parecia uma rosa branca, - disse um jovem pajem ao seu vizinho - mas agora parece uma rosa vermelha.

E toda a corte ficou extasiada.

Durante os próximos três dias, toda a gente não cessou de repetir:

- Rosa branca, rosa vermelha, rosa vermelha, rosa branca!

E o rei ordenou que se pagasse salário duplo ao Pajem. Como este não recebia salário algum, a sua posição não melhorou muito com isto, mas todos consideraram aquilo uma grande honra e o decreto real foi devidamente publicado na Gazeta da Corte.

Transcorridos aqueles três dias, celebrou-se o casamento. Foi uma cerimônia magnífica. O noivo e a noiva desfilaram, de mãos dadas, sob um dossel de veludo cor de púrpura, bordado de pequenas pérolas. Depois celebrou-se um banquete oficial, que durou cinco horas. O Príncipe e a Princesa sentaram-se na extremidade do Grande Salão, bebendo de uma taça de cristal puríssimo. Apenas amantes verdadeiros podem beber nessas taças, pois se lábios falsos tocarem-nas, as taças se tornarão cinzas, escuras e embotadas.

- É perfeitamente claro que eles se amam – disse o pajenzinho -, tão claro como o cristal. E o rei dobrou-lhe o salário mais uma vez. - Que grande honra! - exclamaram os cortesãos.

Depois do banquete houve um baile. A noiva e o noivo deviam dançar juntos a Dança das Rosas e o rei prometera tocar flauta. Tocava-a muito mal, mas ninguém se havia jamais atrevido a dizer-lhe, porque ele era o rei. A verdade é que só sabia duas peças e nunca estava certo de qual das duas estivesse a tocar, mas isso não o preocupava, pois, fizesse o que fizesse, todos exclamavam “Encantador! Encantador!”

O último número do programa consistia numa grande exibição de fogos de artifício, que devia terminar exatamente à meia-noite. A Princesinha nunca vira na sua vida fogos de artifício, por isso o rei encarregou aos Pirotécnico reais de utilizar todos os recursos da sua arte para o dia do casamento.

- Com que se parecem os fogos de artifício? - perguntou ela uma manhã ao Príncipe, enquanto passeavam no terraço

- Parecem-se com a aurora boreal - disse o rei, que sempre respondia às perguntas dirigidas às outras pessoas. - Apenas são mais naturais. Prefiro-os às estrelas, porque sabe-se sempre quando vão começar a brilhar e são, além disso, tão agradáveis como a música da minha flauta. Havereis de vê-los.

Assim, ergueram um tablado no fundo do jardim real e, logo que os Pirotécnicos Reais acabaram de preparar tudo, começaram os fogos de artifício a conversar entre si.

- O mundo é seguramente muito bonito! - exclamou um pequeno busca-pé. - Reparem naquelas tulipas amarelas. Puxa! Se fossem petardos de verdade, não poderiam ser mais bonitas. Sinto-me muito satisfeito por ter viajado. As viagens desenvolvem o espírito de uma maneira assombrosa e acabam com todos os preconceitos que se possa ter.

- O jardim do rei não é o mundo, meu tolo Busca-pé - disse uma grossa Vela Romana - o mundo é um lugar enorme e precisarias de três dias para percorrê-lo todo.

- Todo lugar que amamos é para nós o mundo - exclamou a pensativa Roda Catarina, que, na sua infância, estivera ligada a um velho caixote de pinho e se orgulhava do seu coração destroçado. - Mas o amor não está em moda, os poetas mataram-no. Tanto escreveram sobre ele que ninguém lhes dá crédito, o que não me surpreende. O verdadeiro amor sofre e cala. Lembro-me de que eu mesma uma vez... Mas não se trata disto agora. O romantismo é coisa do passado.

- Bobagem! - exclamou a Vela Romana. - O romantismo nunca morre. É como a lua, que vive eternamente. A noiva e o noivo, por exemplo, amam-se muito ternamente. Inteirei-me de tudo quanto se refere a eles esta manhã, pela boca de um cartucho de papel escuro que estava na mesma gaveta que eu e que sabe as últimas notícias da corte.

Mas a Roda Catarina abanou a cabeça.

- O romantismo morreu, o romantismo morreu, o romantismo morreu! - murmurou. Era uma dessas pessoas que pensam que, repetindo uma coisa certo número de vezes, acabaria por se tornar realidade.

De repente, ouviu-se uma tosse forte e seca e todos olharam em redor.

Era um foguete de altivo porte, amarrado à ponta de uma comprida vara. Tossia sempre antes de fazer qualquer observação, como para chamar a atenção.

- Aham! Aham! - disse ele, e todos se dispuseram a ouvi-lo, exceto a pobre Roda Catarina, que continuava a abanar a cabeça e a murmurar: "O romantismo está morto".

- Ordem, ordem - gritou um Petardo. Tinha algo de um político e sempre tomara parte importante nas eleições locais, de modo que conhecia as frases empregadas no Parlamento.

- Completamente morto - murmurou a Roda Catarina, que voltou a dormir.

Tão logo se obteve completo silêncio, o Foguete tossiu uma terceira vez e começou. Falava com voz clara e muito lenta, como se estivesse ditando as suas memórias, e olhava sempre por cima do ombro às pessoas a quem se dirigia. Tinha na verdade modos muito polidos.

- Quão feliz é o filho do rei - observou - por casar-se no mesmo dia em que serei lançado. Na verdade, nem preparando-o previamente, poderia resultar melhor para ele. Mas o Príncipe têm muita sorte.

- Ah! Sim? - disse o pequeno Busca-pé. - Pensei que fosse precisamente o contrário e que iríamos ser lançados em honra do Príncipe.

- Talvez seja este o seu caso - respondeu ele. - De fato, não tenho dúvida de que seja, mas comigo é diferente. Sou um foguete notável e filho de pais notáveis. A minha mãe foi a Roda Catarina mais famosa do seu tempo, célebre pela graça da sua dança. Quando fez a sua grande aparição em público, deu dezenove voltas antes de apagar-se, lançando em cada volta sete estrelas vermelhas no ar. Tinha três pés e meio de diâmetro e estava fabricada com pólvora da melhor qualidade. O meu pai era foguete como eu e de procedência francesa. Voava tão alto, que o povo temia que não voltasse a descer. Descia, contudo, porque era de excelente constituição e realizou uma queda brilhante, em forma de chuva dourada. Os jornais escreveram, em termos muito lisonjeadores a respeito da sua façanha. Na verdade, a Gazeta da Corte chamou-o de "um triunfo da arte pilotécnica".

- Pirotécnica, pirotécnica, é o que quereis dizer! - disse um Fogo-de-Bengala. - Sei que é "pirotécnico", porque vi isso escrito no meu próprio tubo.

- Bem, mas eu digo pirotécnico - respondeu o Foguete, num severo tom de voz, e o Fogo-deBengala ficou tão diminuído que começou a ameaçar os pequenos Busca-pés
para demonstrar que ele também era uma pessoa de bastante importância.

- Eu estava a dizer - continuou o Foguete -, eu estava a dizer... Que estava eu a dizer?

- O senhor estava a falar a respeito de si mesmo - replicou a Vela Romana.

- Naturalmente. Sabia que estava a discutir algum assunto interessante, quando fui tão grosseiramente interrompido. Detesto as grosserias e os maus modos de toda espécie, porque sou extremamente sensível. Não há ninguém no mundo tão sensível como eu, estou perfeitamente seguro disto.

- Que é uma pessoa sensível? - perguntou o Petardo à Vela Romana.

- Uma pessoa que, porque tem calos, pisa sempre os pés dos outros - respondeu a Vela Romana, bem baixinho, e o Petardo quase explodiu a rir.

- Perdão! De que vos ris? - perguntou o Foguete. - Eu não estou a rir.

- Estou a rir porque sou feliz - replicou o Petardo.

- É esta uma razão muito egoísta - disse o Foguete, com raiva -, que direito tendes de ser feliz? Deveríeis pensar nos outros. Na verdade, deveríeis pensar em mim. Penso sempre em mim e espero que todos façam a mesma coisa. Isto é o que se chama simpatia. É uma bela virtude e eu possuo-a em alto grau. Suponhamos, por exemplo, que alguma coisa me acontece esta noite. Que desgraça para todo o mundo! O Príncipe e a Princesa não voltariam mais a ser felizes, toda a sua vida matrimonial ficaria estragada. Quanto ao rei sei que não poderia suportar isso. Na verdade, quando começo a refletir na importância da minha posição, comove-me até quase chorar.

- Se quereis agradar aos demais - exclamou a Vela Romana -, faríeis melhor mantendo-vos seco.

- Certamente - exclamou o Fogo-de-Bengala, que se achava agora em melhor disposição. – Isto é simplesmente o senso comum.

- Senso comum, ora essa! - disse o Foguete, indignado. - Esqueceis que não tenho nada de comum e que sou muito notável. Ora, toda a gente pode ter senso comum, conquanto careça de imaginação. Mas eu tenho imaginação, pois nunca penso nas coisas como são realmente, vejo-as sempre muito diferentes do que são. Quanto a isto de manter-me seco, é que não há aqui, com toda a segurança, ninguém que saiba apreciar a fundo um temperamento emotivo. Felizmente para mim, não me importo com isto. A única coisa que nos sustenta na vida é a convicção da imensa inferioridade dos nossos semelhantes e este é um sentimento que tenho sempre cultivado. Mas nenhum de vós tem coração. Gritais e regozijais-vos, como se o Príncipe e a Princesa não estivessem celebrando as suas bodas.

- Bem, de fato - exclamou um pequeno Balão-de-fogo -, por que não? É uma ocasião bastante alegre e quando eu estalar no ar, pretendo contar tudo às estrelas lá em cima. Vereis como brilharão, quando eu lhes falar a respeito da linda noiva.

- Oh! Que conceito vulgaríssimo da vida! - disse o Foguete. - Não esperava outra coisa. Não há nada em vós. Sois oco e vazio. Ora, talvez o Príncipe e a Princesa possam ir viver num país em que haja um rio profundo, talvez tenham só um filho, um menininho de cabelo louro e de olhos de violeta como o próprio Príncipe. Talvez algum dia saia ele a passear com a sua ama. Talvez a ama adormeça debaixo de um grande sabugueiro; talvez o menino caia no rio profundo e se afogue. Que desgraça terrível! Coitados! Perderem o único filho! É na verdade demasiado terrível! Jamais poderei suportar tal coisa!

- Mas eles não perderam o seu único filho - disse a Vela Romana. - Não lhes sucedeu nenhuma desgraça absolutamente.

- Não disse que lhes sucedeu - replicou o Foguete. - Disse que poderia suceder-lhes. Se tivessem perdido o seu único filho, seria inútil dizer alguma coisa a respeito do sucedido. Detesto as pessoas que choram por causa do leite derramado. Mas quando penso que possam perder o seu único filho, sinto-me verdadeiramente muitíssimo afetado.

- Está-se a ver! - exclamou o Fogo-de-Bengala. - De fato sois a pessoa mais afetada que já vi na minha vida.

- Vós sois a pessoa mais grosseira que já conheci - disse o Foguete -, e não podeis compreender a minha amizade pelo Príncipe.

- Ora! Vós nem sequer o conheceis - resmungou a Vela Romana.

- Eu nunca disse que o conhecia - respondeu o Foguete. - Atrevo-me a dizer que se o
conhecesse, não seria nunca amigo dele. É coisa muito perigosa conhecer-se os amigos.

- Melhor faríeis se vós vos mantivesseis seco - disse o Balão-de-fogo. - Isso é que importa.

- É o que muito importa para vós, não tenho dúvida - replicou o Foguete -, mas chorarei, se me der vontade de chorar.

E realmente rebentou em lágrimas, que correram pela sua vareta como gotas de chuva e quase afogaram dois pequenos besouros que pensavam precisamente em fundar uma família e procuravam um bonito lugar seco para nele instalar-se.

- Deve ele ter um temperamento verdadeiramente romântico - disse a Roda Catarina -, pois chora, quando não há motivo para chorar.

E lançando um profundo suspiro, pôs-se a pensar nna caixa de pinho.

Mas a Vela Romana e o Fogo-de-Bengala estavam indignadíssimos e continuavam a dizer: "Charlatão, charlatão!", a plenos pulmões. Eram muito práticos e, quando se opunham a alguma coisa, gritavam: Charlatão.

Então apareceu a lua como um maravilhoso escudo de prata e as estrelas começaram a brilhar e chegaram do palácio os sons de uma música.

O Príncipe e a Princesa dirigiam o baile. Dançavam tão bem, que os altos lírios brancos espreitavam pela janela e os contemplavam e as grandes papoulas vermelhas abanavam as suas cabeças, marcando o compasso. Naquele momento o relógio bateu as dez horas, e depois as onze, e por fim as doze, e à derradeira batida da meia-noite, todos saíram para o terraço e o rei mandou chamar o Pirotécnico Real.

- Começai a queimar os fogos de artifício - disse o rei.

E o Pirotécnico Real curvou-se numa profunda reverência e encaminhou-se para o fundo do jardim. Tinha seis ajudantes, cada um dos quais levava uma tocha acesa na ponta de uma longa vara. Foi realmente uma soberba exibição.

- Whizz! Whizz!- começou a Roda Catarina, à medida que girava.

- Bum! Bum! Bum! - começou a Vela Romana.

Depois os Busca-pés dançaram por todo lado e os Fogos-de-Bengala tornaram tudo de uma cor escarlate.

- Adeus - gritou o Balão-de-fogo, à medida que se elevava, fazendo chover pequenas faíscas azuis.

- Pum! Pum! - responderam os Petardos, que achavam tudo aquilo muito divertido.

Todos conseguiram um grande êxito, exceto o Notável Foguete. Estava tão úmido por ter chorado, que não pôde pegar fogo. O melhor que havia nele era a pólvora, mas esta estava tão molhada pelas lágrimas que não pôde ser lançado de forma alguma. Toda a sua parentela pobre, à qual não se dignava falar sem um sorriso desdenhoso, produziu grande alvoroço no céu, como se fossem maravilhosas flores de ouro, florescendo em fogo.

- Bravo! Bravo! - gritava a corte.

E a Princesinha ria de prazer.

- Creio que me estão a reservar para alguma grande ocasião - disse o Foguete. - É
indubitavelmente isso.

E olhava em redor com um ar mais orgulhoso do que nunca.

No dia seguinte chegaram os operários para colocar tudo de novo no seu lugar.

- Evidentemente é uma comissão - disse o Foguete. - Recebê-la-ei com tranqüila dignidade.

Assim ergueu o nariz para o ar e começou a franzir o cenho com severidade, como se estivesse a pensar num assunto importantíssimo. Mas os homens não lhe deram absolutamente atenção, até deixá-lo para trás. Então um deles avistou-o.

- Oh! - gritou ele. - Que foguete imprestável!

E atirou-o por cima de um muro para dentro do fosso.

- Foguete imprestável? Foguete imprestável? - disse ele, enquanto girava no ar. - impossível! Foguete notável, foi isto o que o homem disse. Imprestável e notável soam muito parecidos. Na verdade, muitas vezes são a mesma coisa.

E caiu dentro da lama.

- Não é confortável aqui - observou -, mas sem dúvida é uma estação de águas elegante e mandaram-me para cá, a fim de que recupere a minha saúde. Os meus nervos estão decerto bastante desgastados e necessito de descanso.

Então uma pequena Rã, de olhos brilhantes como joias e de pele mosqueada de verde, nadou para perto dele.

- Estou a ver que é um recém-chegado! - disse a Rã. - Bem, afinal não há nada como a lama. Dêem-me tempo chuvoso e um fosso e sinto-me completamente feliz. Acreditais que a tarde será úmida? Assim o espero, embora o céu esteja todo azul e sem nuvens. Que pena!

- Aham! Aham! - disse o Foguete, começando a tossir.

- Que deliciosa voz tendes! - exclamou a Rã. - Na verdade parece o coaxar de uma Rã e o coaxo é, sem dúvida, o som mais musical que existe no mundo. Ouvireis o nosso coral esta noite. Sentar-nos-emos no antigo tanque dos patos junto da casa do fazendeiro e assim que a lua se erguer, começaremos. É tão arrebatador que todos ficam acordados para ouvir-nos. De fato, ontem mesmo, ouvi a mulher do fazendeiro dizer à sua mãe que não podia pregar olho de noite por nossa causa. É coisa muito agradável saber-se que se é assim tão popular.

-Aham! Aham! - emitiu o Foguete, com raiva. Estava muito aborrecido porque não podia sair do seu mutismo.

- Uma voz deliciosa, deveras - continuou a Rã. - Espero que ireis ao tanque dos patos. Vou dar uma olhada nas minhas filhas. Tenho seis lindas filhas e receio que o Lúcio possa encontrá-las. Ele é um verdadeiro monstro e não hesitaria em almoçá-las todas. Bem, adeus. Gostei da sua conversa, acreditai-me.

- E chamais a isto conversa? - disse o Foguete. - A senhora falou o tempo todo. Isto não é conversa.

- Alguém tem de escutar - respondeu a Rã -, e eu gosto de falar o tempo todo de mim mesmo. Isto poupa tempo e evita discussões.

- Pois eu gosto de discussões - disse o Foguete.

- Não o creio - replicou a Rã, complacentemente. - As discussões são extremamente vulgares, porque na boa sociedade toda a gente tem exatamente as mesmas opiniões. Adeus pela segunda vez. Estou a ver as minhas filhas ali adiante.

E a pequena Rã afastou-se nadando.

- A senhora é uma criatura muito irritante - disse o Foguete -, e muito mal educada. Detesto pessoas que falam de si mesmas, como a senhora, quando alguém quer falar a seu respeito, como eu. Isto é que eu chamo de egoísmo e o egoísmo é uma coisa detestabilíssima, especialmente para alguém com o meu temperamento, pois sou bem conhecido pelo meu caráter simpático. Na verdade, a senhora deveria tomar-me como exemplo, não poderia ter melhor modelo. Agora que tem essa oportunidade, aproveite-a sem demora, porque vou voltar para a corte imediatamente. Sou um grande favorito na corte. De fato, o Príncipe e a Princesa casaram-se ontem em minha honra. Sem dúvida, a senhora nada sabe desses assuntos, pois é uma provinciana.

- Não se dê ao trabalho de falar-lhe - disse uma Libélula, que estava pousada no alto de um grande junco pardo. - Ela já se foi embora.

- Bem, a perda é dela e não minha - respondeu o Foguete. - Não vou deixar de falar-lhe, somente porque não me presta ela atenção. Gosto de ouvir-me falar. É um dos meus maiores prazeres. Mantenho frequentemente longas conversas comigo mesmo e mostro-me tão inteligente por vezes que não compreendo uma só palavra do que estou a dizer.

- Então deveis ser professor de filosofia - disse a Libélula, e abrindo as suas lindas asas de gaze ergueu-se para o céu.

- Como foi tola não querendo ficar aqui - disse o Foguete. - Estou certo de que não tem tantas vezes uma oportunidade igual de cultivar o espírito. Contudo não me importo nem um pouquinho. Um gênio como o meu tenho certeza de que será apreciado algum dia. E mergulhou um pouco mais profundamente na lama.

Depois de algum tempo uma grande Pata Branca nadou para o lado dele. Tinha as patas amarelas, pés em forma de palmas, sendo considerada uma grande beleza por causa do seu bamboleio.

- Quá, quá, quá - disse ela. - Que forma curiosa tem o senhor. Posso perguntar-lhe se o senhor nasceu assim, ou é isto resultado de algum acidente?

- É completamente evidente que a senhora viveu sempre no campo - respondeu o Foguete -, de outro modo saberia quem eu sou. Contudo, desculpo a sua ignorância. Seria fora de propósito querer que os outros fossem tão extraordinários como a gente é. Sem dúvida ficará a senhora surpreendida ao saber que posso voar para o céu e descer numa chuva dourada.

- Não acho isto grande coisa - disse a Pata -, uma vez que não posso ver nisso utilidade alguma, mas, se o senhor pudesse arar os campos como o boi, ou puxar uma carroça como o cavalo, ou vigiar os carneiros como o cão pastor, isso, sim, seria alguma coisa.

- Minha boa criatura - exclamou o Foguete, num tom de voz bastante altivo -, vejo que a senhora pertence à classe baixa. As pessoas da minha posição nunca servem para nada. Temos um encanto especial e isso é mais do que suficiente. Eu mesmo não sinto a menor inclinação por trabalho algum e menos ainda por esta espécie de trabalho que a senhora recomenda. De fato, sempre fui de opinião que o trabalho rude é simplesmente o refúgio de quem não tem outra coisa que fazer na vida.

- Bem, bem -, disse a Pata, que era de temperamento pacífico e não discutia nunca com ninguém -, cada qual tem gostos diferentes. De qualquer modo, desejo que o senhor venha estabelecer aqui a sua residência.

- Oh! nada disso - exclamou o Foguete. - Sou um mero visitante, um visitante distinto. O fato é que acho este lugar bastante tedioso. Não há aqui nem sociedade nem privacidade. Na verdade, é essencialmente suburbano. Voltarei provavelmente à corte, pois sei que estou destinado a causar sensação no mundo.

- Eu também pensei em entrar na vida pública - observou a Pata. - Há muitas coisas que precisam ser reformadas. Cheguei mesmo a presidir a um comício, faz algum tempo, quando votamos resoluções condenando tudo quanto não nos agradava. Não obstante, não produziram elas grande efeito. Agora ocupo-me de coisas domésticas e cuido da minha família.

- Nasci para a vida pública e nela figuram todos os meus parentes - disse o Foguete -, até mesmo os mais humildes. Quando aparecemos, excitamos grandemente a atenção. Desta vez não apareci pessoalmente; mas, quando o faço, o resultado é um espetáculo magnífico. Quanto às coisas domésticas, envelhecem-nos rapidamente e apartam o espírito de coisas mais altas.

- Ah! Como são belas as coisas altas da vida! - disse a Pata. - Isso lembra-me que estou com muita fome.

E desceu nadando a corrente, dizendo: quá, quá, quá.

- Volte! Volte! - gritou o Foguete. - Tenho muita coisa para dizer-lhe.

Mas a Pata não lhe deu atenção.

"- Fiquei satisfeito por ela ter ido embora" - disse a si mesmo, "não resta dúvida que o seu espírito é medíocre". E mergulhou um pouco mais profundamente na lama e começou a pensar na solidão do gênio, quando, de repente, dois meninos de blusas brancas desceram a correr a margem, com uma chaleira e alguns gravetos.

- Deve ser uma delegação - disse o Foguete, tentando mostrar-se muito respeitável.

- Oh! - gritou um dos meninos. - Olha aquela vareta estragada. É estranho que tenha vindo parar aqui.

E tirou o Foguete de dentro do fosso.

- Vareta estragada! - disse o Foguete - Impossível! Vareta dourada, foi o que ele disse. Vareta dourada é muito lisonjeiro. De fato, ele toma-me por um personagem da corte!

- Vamos pô-la no fogo! - disse o outro menino. - Ajudará a ferver a chaleira.

De modo que empilharam os gravetos e puseram o Foguete por cima e acenderam o fogo.

- Isto é magnífico! - exclamou o Foguete. - Vão soltar-me em plena luz do dia, de modo que todos possam ver-me.

- Iremos dormir agora - disseram eles -, e quando acordarmos, a chaleira já terá fervido.

E, deitando-se sobre a relva, fecharam os olhos.

O Foguete estava muito úmido, de modo que levou muito tempo para incendiar-se, afinal, porém, o fogo pegou.

- Agora vou partir! - gritou ele, e estirou-se e empertigou-se todo. - Sei que irei subir mais alto que as estrelas, mais alto do que a lua, mais alto do que o sol. De fato, subirei tão alto que...

Fizz! Fizz! Fizz! e ele subiu direto no ar.

- Delicioso! - exclamou - Continuarei a subir assim para sempre. Que triunfo eu sou!

Mas ninguém o viu.

Então começou a sentir uma estranha sensação de formigamento.

- Agora vou explodir - gritou. - Incendiarei o mundo inteiro e farei tal barulho que ninguém falará a respeito de qualquer outra coisa durante um ano inteiro.

E, ele explodiu com certeza.

Bang! Bang! Bang! fez a pólvora. Disso não resta a menor dúvida.

Mas ninguém o escutou, nem sequer os dois meninos que dormiam profundamente.

Então nada mais restou do Foguete senão a vareta e esta caiu nas costas de uma Gansa que estava dando um passeio ao lado do fosso.

- Céus! - exclamou a Gansa. - Está a chover varetas! E correu para dentro d'água.

- Eu sabia que haveria de causar grande sensação - arquejou o Foguete e expirou.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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