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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ferreira Gullar (Quisera ser um gato )


Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde.

Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui.

Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos.

Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama.

Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra.

E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo.

Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha.

E enquanto penso essas tolices, ela — que se chama Gatinha — se levanta, vem até mim e começa a se roçar nas minhas pernas, insistentemente. Só então me dou conta de que está pedindo que eu vá até a cozinha e ponha ração no seu prato. Ela não sabe que é mortal, mas sabe muito bem que necessita comer e que quem lhe providencia a comida sou eu.

A verdade é que vivemos os dois neste apartamento cheio de livros, quadros e móbiles (feitos por mim, não por Calder, ou seja, falsos móbiles) e nos entendemos bem. A Gatinha é diferente do Gatinho, é de outra geração, a geração do pet shop. Por isso mesmo, ela não come carne nem peixe, só come ração.

Consequentemente, ao contrário do Gatito, que subia na mesa para xeretar meu almoço, ela não está nem aí para comida de gente, só quer saber de ração. E tem mais: só pode ser aquela ração; se mudar, ela não come, cheira e vai embora.

Aliás, isso criou um problema sério, quando a ração que Adriana trouxera terminou. Como não entendia de rações, ao ver que a dela acabara, fui a um pet shop aqui perto para comprar e, como não tinha a dela, decidi comprar qualquer outra, mas fui advertido pela dona da loja de que teria que ser da mesma ração.

Fui a outra loja, bem mais longe, e lá também não tinha a tal ração. Pedi a meu neto que a comprasse num pet shop do Humaitá, bairro onde ele mora, e nada, lá também não havia. Desesperado, liguei para Adriana que, imediatamente, me fez chegar aqui em casa dois pacotes com a raríssima ração que a gatinha comia. Respirei, aliviado.

Depois aprendi que para evitar que ela morra de fome, no caso de faltar sua ração exclusiva, há que ter em casa uma ração parecida e ir misturando à sua até que se acostume. Coisas de gatos modernos, muito diferentes daqueles que, outrora, vagabundeavam aqui pelos telhados e pela rua.

Mas, se mudou a ração, não mudou a razão que me fez adotá-la como minha companheira de todas as horas, que me acorda, pontualmente, às seis horas da manhã, vindo cheirar meu rosto sob o lençol. E agora a vejo, ali, a poucos metros de mim, deitada na poltrona, livre da morte, nesta tarde de março, num determinado ponto da Via Láctea, onde moramos.
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FERREIRA GULLAR (José de Ribamar Ferreira) foi um dos maiores e mais influentes intelectuais brasileiros do século XX., que marcou a história cultural do país como poeta, crítico de arte, tradutor, ensaísta e dramaturgo. Nasceu em 1930, na cidade de São Luís/MA, e faleceu em 2016, aos 86 anos, no Rio de Janeiro/RJ, em decorrência de problemas respiratórios causados por uma pneumonia.
Trabalhou em diversas frentes da comunicação e das artes Começou na juventude como radialista na Rádio Timbira, em São Luís. Atuou como jornalista, cronista e revisor em veículos de prestígio, como o Diário de São Luís e o Jornal do Brasil. Consagrou-se internacionalmente como crítico de arte, defendendo as vanguardas plásticas no país. Foi um engajado ativista político filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que provocou sua perseguição e posterior exílio (na União Soviética, Chile e Argentina) durante a ditadura militar. A trajetória literária de Gullar foi marcada por profundas transformações estéticas. Iniciou sua poesia dentro dos moldes clássicos da geração de 1945. Na década de 1950, integrou e rompeu barreiras estéticas com a poesia concreta. Descontente com o excesso de rigidez racional do concretismo paulista, liderou e redigiu em 1959 o famoso Manifesto Neoconcreto, priorizando a subjetividade e o dinamismo da palavra. A partir dos anos 1960, uniu o rigor de suas experimentações estéticas a uma forte consciência social, voltada à realidade do povo brasileiro. 
Principais Livros Publicados: Um Pouco Acima do Chão (1949); A Luta Corporal (1954) — Poesia de vanguarda que abriu caminho para o Concretismo; Dentro da Noite Veloz (1975) — Coletânea de forte tom lírico e engajamento político; Poema Sujo (1976) — Escrito na clandestinidade em Buenos Aires, é considerado a sua obra-prima máxima; Muitas Vozes (1999) — Reflexões maduras sobre o tempo, a memória e a própria linguagem; Em Alguma Parte Alguma (2010) — Último livro de poesia lançado em vida.
Foi eleito em outubro de 2014 para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira nº 37. Recebeu também o título de Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Letras da UFRJ. Ganhou o prestigiado Prêmio Camões em 2010 (o maior reconhecimento da língua portuguesa). Conquistou também múltiplos prêmios Jabuti (incluindo Livro do Ano por Em Alguma Parte Alguma) e o Prêmio Machado de Assis concedido pela ABL. Em 2002, chegou a ser formalmente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. 
A relevância de Ferreira Gullar reside na sua capacidade única de equilibrar a inovação estética radical com a emoção humana e a denúncia social. Ele tirou a poesia do plano puramente acadêmico e a levou para as ruas, integrando-a ao debate político do país sem abrir mão do rigor técnico. O seu Poema Sujo se tornou o ápice da literatura de resistência contra a ditadura militar, traduzindo a dor coletiva do exílio e as memórias brasileiras em versos viscerais e inovadores. Gullar transformou a palavra em um organismo vivo, garantindo que o fazer poético estivesse sempre em simbiose com as transformações culturais e históricas do Brasil.

Fontes:
Crônica = Folha de São Paulo. 9 de março de 2014.
Biografia = Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Colégio Recanto, Ebiografia, Universidade Federal do Paraná (acervo digital), Brasil Escola, etc.

José Feldman (Cartão-Postal de Segunda)


A segunda-feira já começou com aquele mau humor clássico de quem esqueceu de desativar o alarme do celular no domingo. O café queimou, o trânsito lá fora parecia um estacionamento a céu aberto e a perspectiva de encarar a semana era deprimente. Mas tudo mudou quando ouvi o barulho seco, quase metálico, na caixa de correio. Não tinha o formato de um boleto. Não era um panfleto de supermercado. Era um pedaço de papel rígido, brilhante e colorido. Um legítimo cartão-postal.

Em pleno ano de graças virtuais, receber um postal é quase um milagre arqueológico. Olhei a imagem na frente: uma praia paradisíaca, coqueiros perfeitamente alinhados, areia branca e um mar tão absurdamente azul que chegava a arder nos olhos. No verso, a caligrafia tremida, mas inconfundível, da minha tia-avó Clotilde. Aquela letra desenhada à caneta esferográfica azul, que imediatamente me fez cheirar bolo de fubá quentinho e naftalina de armário antigo.

Sorri sozinho no portão, tomado por uma onda instantânea de saudade. Que sensibilidade a dela! No meio de suas merecidas férias em Maceió, aquela senhora de setenta e oito anos se deu ao trabalho de caminhar até uma banca de revistas, escolher uma imagem bonita, procurar uma agência dos Correios, comprar um selo e me enviar uma lembrança física. Fiquei genuinamente emocionado. A saudade é mesmo um bicho bonito que encurta distâncias através do papel, pensei, quase lacrimejando de puro lirismo matinal.

Aproximei o cartão dos olhos para ler a mensagem manuscrita. Dizia exatamente assim:

"Querido sobrinho, as coisas por aqui estão divinas. O sol está radiante e o mar é uma pintura. Uma pena que o seu primo Carlinhos não veio. Pensamos muito em você ontem à noite, quando o pneu do carro furou na estrada deserta e fomos assaltados por dois rapazes numa moto. Levaram as malas, o estepe e o relógio de ouro do seu tio. Reze por nós. Beijos afetuosos, Tia Clotilde."

Pisquei duas vezes. Afastei o cartão. Aproximei de novo. Olhei para a praia paradisíaca na frente. Olhei para o texto no verso. O contraste entre a calmaria daquela areia dourada da foto e o drama do assalto à mão armada relatado no texto era uma verdadeira obra de arte do surrealismo brasileiro.

A sensibilidade da tia Clotilde opera em frequências magnéticas que a lógica humana desconhece. Ela conseguiu resumir uma tragédia familiar de proporções épicas com a mesma leveza de quem comenta sobre o preço do quilo do tomate no mercado. "Levaram as nossas roupas, estamos sem dignidade, mas olha que lindo este coqueiro da foto!".

O pânico começou a se instalar. O grande problema das cartas e postais é que eles viajam no tempo em uma velocidade muito própria. Qual era a data daquilo? Não dava para entender o carimbo dos Correios, que parecia um borrão de graxa. Minha cabeça virou um turbilhão de mal-entendidos e teorias conspiratórias. Eles foram assaltados ontem? Estavam perdidos na estrada? Sem dinheiro para o hotel? Passando fome em Maceió?

Larguei a mochila no chão e liguei desesperado para a minha mãe, a central oficial de fofocas e boletins médicos da família.

— Mãe! Pelo amor de Deus! A tia Clotilde foi assaltada em Maceió! Mandou um postal dizendo que levaram tudo! Eles estão bem? Estão em algum cativeiro? Precisamos mandar dinheiro?

Do outro lado da linha, ouvi um silêncio de três segundos, seguido por uma gargalhada estrondosa que quase estourou o alto-falante do meu celular. Minha mãe chorava de rir.

— Ah, meu filho, você recebeu o postal hoje? Menino, esse assalto aconteceu na primeira semana da viagem! Eles já voltaram para casa faz mais de um mês! O seguro do carro já pagou o prejuízo e o seu tio até comprou um relógio novo no shopping ontem.

— Mas mãe... por que ela mandou isso então? — perguntei, ainda processando o Alerta Vermelho desnecessário.

— Ora, porque ela é a sua tia! Ela escreveu o postal na noite do assalto para desabafar, mas esqueceu de postar. Aí, no dia de ir embora, ela achou o cartão na bolsa e pensou: "Não vou desperdiçar o selo que já paguei". Ela só esqueceu de avisar no texto que tudo já tinha se resolvido!

Desliguei o telefone, olhando para o postal na minha mesa de trabalho. A saudade romântica e a preocupação apocalíptica que me dominaram minutos antes se transformaram em uma crise sincera de riso terapêutico.

Colei o cartão com um ímã na porta da geladeira, bem ao lado do panfleto da pizzaria do bairro. Toda vez que esta ou as próximas segundas-feiras começarem pesadas, cansativas ou cheias de problemas, vou fixar meus olhos bem no meio daquela praia linda de Maceió. Vou respirar fundo e lembrar que, não importa o quão ruim esteja o meu dia no escritório, pelo menos eu não estou parado em uma estrada deserta, esperando o guincho, sem cuecas na mala e sem o relógio de ouro, enquanto minha tia-avó procura um selo postal para registrar o momento. 

Obrigado pela perspectiva de vida e pelo teste cardíaco, tia Clotilde.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
FELDMAN, José. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2016.
biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

Plínio Marcos (O aniversário)

O Zé Mané levava uma vida de lascar. Nem de leve pegava maré mansa. Seu trampo era pesado paca. Das oito da matina às seis da tarde debaixo de sacaria. Uma puxeta de entortar qualquer patuá. E o salário, claro que era o mínimo. Daí, já viu. Com a vida custando os olhos da cara, o Zé Mané mal podia pegar uma gororoba. Pagava oitenta jiripocas por uma vaga num quarto com mais três parceiros para ter onde encostar 0 cadáver. E o que sobrava era pra comer. Mas sobrava tão pouco. Na verdade, o Zé Mané só rangava todos os dias porque o Seu Joaquim Portuga, dono do boteco do pedaço, era um chapa ponta-firme e fiava o sortido pra curriola a perigo. E essa era a sorte selada do Zé Mané. Uma zorra sentida. Apesar de ter nascido com o urubu plantado no seu destino, o Zé Mané, quando fazia aniversário, gostava de se embandeirar, comemorar de se esbaldar e os cambaus. Sempre fora assim. Desde pequeno, considerava o dia do seu aniversário um dia sagrado. Não trabalhava nesse dia, nem nada. Só enchia a caveira de cachaça. E, quando fez trinta anos, não deu outra coisa. O Zé Mané já amanheceu ligado. Logo cedo, deu um alô pros companheiros de quarto:

— Tou fazendo anos hoje.

A turma fez a milonga:

— Boa! Parabéns!

— Quer dizer que hoje tu paga as manguaças?

— Tem que pagar. Afinal, o Zé não faz anos todo dia.

E o Zé Mané não escamou:

— Hoje é comigo mesmo. Nem vou pro batente.

Os parceiros não duvidaram. Mas quiseram saber da situação. O Ditinho Preto, mais chegado ao Zé, tomou a liberdade:

— Tu tá com grana pra garantir, Zé?

Naturalmente, o aniversariante não tinha um tostão no bolso. Mas nem se tocou. Confiando no Seu Joaquim Portuga, tirou de letra:

– Eu sei de mim. E, se mando ver, é porque garanto. Ô meu, tou fazendo trinta anos. Não sou nenhum moleque!

Encabulado, o Ditinho se desculpou:

— Não, eu sei. Mas é que nós, quando se dana a beber, bebe mesmo.

Todos riram. E o Zé Mané fez o apontamento:

— Sete e pouco tamos lá no boteco do Seu Quim.

Cheios de esperança na farra, os companheiros do Zé Mané se arrancaram pro trabalho. 0 aniversariante ficou na cama. No seu grande dia, ele não tinha hora pra acordar. Mas, pro encontro combinado, ele não se atrasou. Às sete em ponto piou no boteco do Seu Quim. Não teve que esperar muito pelos amigos. Eles logo baixaram na parada. E chegaram fazendo zoada. Pique-pique, parabéns pra você, hip-hurra e os cambaus. A patota toda presente ficou por dentro do assunto. Todo mundo abraçou o Zé Mané e ele espumou de alegria. Não maneirou. Convidou todos pra beber. A moçada não fez cerimônia com 0 otário. Se serviram. De saída, Seu Joaquim abriu duas dúzias de cerveja. E teve muito pilantra que ainda pediu pinga pra quebrar o gelo da cerveja. Sem conferir, o Zé Mané autorizava. Quando o dono do boteco vacilava, o loque berrava:

— Hoje é festa, Seu Quim. Bota aí, que não tem chabu. Tou fazendo trinta anos.

Com essas e outras, toda a gangue se empapuçou. Já tinha nego cercando frango quando um gaiato resolveu tirar sarro com a fuça do dono do boteco. Sabendo que o homem era bronqueado com anedota de português, o pilantroso atacou na ferida:

— Escuta aqui, Zé Mané. Tu sabe que falaram pra um cutruco que ele tinha que pagar Imposto de Renda na fonte e o labrego acabou morrendo afogado?

A curriola estourou de rir. E conversa puxa conversa. Cada um sacou um esculacho em português. O Seu Joaquim azedou. Como não era homem de comer enrolado e não queria briga, resolveu acabar com a festa. E deu o aviso:

— Bom, já é tarde. Eu vou fechar 0 bar. Não sirvo mais nada, que já tão todos de pé queimado. Seu Zé Mané, o senhor que é o dono da conta, me faz favor de acertar e ir contar piada de português em outro canto. Aqui não quero isso.

Teve estrilo. Quás-quás-quás grosso. Porém, como era mais de meia-noite, o Zé Mané deu uma pá de cal na festa. Olhou no relógio e acalmou os ânimos:

— Acabou a festa. Meu aniversário foi ontem.

A patota se conformou. Já iam se mandando quando o Seu Joaquim deu o arrocho:

— E a conta? Quem paga?

O Zé Mané não balançou pra responder:

— Pendura.

Não prestou. O Seu Joaquim virou bicho. Já estava invocado com as piadas. Com o devo do Zé Mané, então, se picou de raiva. E deu a prensa:

— Não tem papo. Vai pagar já.

Pro Zé, que não tinha dinheiro, a novidade valeu por uma paulada. E deu a volta em tom bravo:

— Pendura, já falei. Sempre pendurou, por que vai fazer onda agora?

Teve início um bate-boca:

— Pendurei os sortidos.

— E eu sempre paguei.

— Mas bebida eu não vendo fiado.

— Agora que tu avisa?

— Tu já devia saber que não vendo bebida fiado pra vagabundo nenhum.

— Vagabundo é a mãe.

Xingar a mãe é sempre início de confusão. 0 português passou a mão num cacete, pulou o balcão e cobriu o Zé Mané de pancada. Ninguém se meteu. O Zé, bebum, mal podia com ele mesmo e apanhou coisa que preste. Ficou estatelado no chão quase morto. E só com muito custo impediram o português de mandar o Zé falar com Deus. O Ditinho Preto e os outros companheiros de quarto guindaram o Zé Mané. E a bagunça acabou aí.

No dia seguinte, Seu Joaquim estava firme no boteco, atendendo a freguesia, quando o Ditinho Preto se apresentou falando macio:

— Seu Joaquim, o Zé Mané tá com vergonha do que aconteceu ontem e pediu pro senhor ir ali na esquina, que ele quer acertar as contas com o senhor.

O português entrou no grupo. Até bochichou:

— O Zé é bom rapaz. Ontem ele estava bebido. Hoje ele acerta e fica tudo por isso mesmo. Vamos lá.

Na esquina, o português encontrou o Zé Mané. Mal viu o loque e manjou qual era o acerto. Quis correr, mas não deu. O Zé Mané meteu uma lapa de faca que não tinha mais tamanho na barriga do Seu Joaquim. O homem ficou embarcado. Mas, antes de morrer, ainda escutou o recado do Zé:

— Assim tu aprende a respeitar um pinta que faz aniversário.
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PLÍNIO MARCOS foi um dos mais viscerais e provocadores dramaturgos e escritores brasileiros do século XX. Conhecido como o "poeta maldito", ele se destacou por dar voz aos submundos urbanos e às classes marginalizadas, enfrentando ferozmente a censura e a repressão. Nasceu em 1935, na cidade de Santos/SP e faleceu em 1999, aos 64 anos, na cidade de São Paulo, em decorrência de uma falência múltipla de órgãos após sofrer um derrame e uma infecção pulmonar. 
Com uma trajetória de vida multifacetada e fortemente ligada às classes populares, Plínio Marcos exerceu diversas profissões antes e durante sua consolidação artística. Iniciou sua carreira na adolescência como palhaço de circo (sob o codinome de Palhaço Frajola). Trabalhou como funileiro, camelô e jogador de futebol pela Portuguesa Santista. Atuou como ator, diretor de teatro e humorista de rádio. Foi um ativo jornalista e cronista, escrevendo para jornais e revistas como Folha de São Paulo, Última Hora, O Pasquim e Veja. Nos seus últimos anos, devido aos constantes boicotes de suas peças, vendia seus próprios livros diretamente ao público nas portas dos teatros e praças.
Plínio Marcos teve uma formação autodidata (estudou apenas até a 4ª série do ensino primário), mas construiu uma literatura de forte realismo social e linguagem crua e coloquial. Sua estreia na dramaturgia ocorreu em 1957 com a peça Barrela, baseada em um caso real de estupro em uma prisão santista. Durante a ditadura militar, tornou-se o autor mais censurado do país, tendo quase todas as suas peças proibidas em algum momento. Em vez de recuar, Plínio utilizou a prosa (contos e romances) e as crônicas jornalísticas como uma válvula de escape para continuar produzindo. 
Alguns Livros e Peças Publicadas: Barrela (1957 - Teatro); Dois Perdidos numa Noite Suja (1966 - Teatro) — Clássico sobre a sobrevivência de dois subproletários; Navalha na Carne (1967 - Teatro) — Obra-prima claustrofóbica encenada em um bordel decadente; Histórias das quebradas do mundaréu (1973 - Contos) — Incursão ficcional sobre as periferias urbanas; Querô: Uma Reportagem Maldita (1976 - Romance) — Livro impactante focado na vida de um jovem interno da Febem; Abajur Lilás (1976 - Teatro) — Forte crítica social censurada por anos pelo regime militar.
Devido ao seu perfil transgressor e sua postura assumidamente marginal, Plínio Marcos nunca pertenceu a academias tradicionais de letras, como a ABL. Ele regeu sua carreira totalmente à margem do academicismo institucional. Recebeu em vida o prestigiado Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 1976. Postumamente, em 2012, foi agraciado com a insígnia da Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural do governo brasileiro. Em sua homenagem, a prefeitura de Santos e movimentos teatrais criaram o Prêmio Plínio Marcos para estimular a cultura regional.
A relevância de Plínio Marcos reside no pioneirismo de introduzir na literatura de alta voltagem os indivíduos invisibilizados pela sociedade burguesa: prostitutas, malandros, travestis, operários explorados e menores abandonados. Ele não escrevia sobre a marginalidade sob uma ótica de piedade ou julgamento moral, mas sim de dentro dela, utilizando a fala real das ruas (gírias, palavrões e dialetos populares). Ao fundar o chamado Teatro de Emergência, Plínio despiu o palco de cenários luxuosos para focar na crueldade das relações humanas sob a opressão social. Sua escrita corajosa despiu a hipocrisia do Brasil urbano e provou que a linguagem dita "vulgar" poderia alcançar o status de poesia trágica, influenciando gerações de dramaturgos, cineastas e a literatura marginal contemporânea.

Fontes:
Plínio Marcos. Histórias das quebradas do mundaréu. Publicado originalmente em 1973.
Biografia: Wolf Maya, Prefeitura de Santos, Educação. uol, Jornal da Orla, Wikipedia, Site Plinio Marcos, UNESP (repositório), Folha de São Paulo, etc.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Eduardo Martínez (A linda mulher no cavalo branco)


Ataliba não conseguia se esquecer daquela mulher maravilhosa que conheceu há tempos. Não sabia exatamente se ela era real ou, então, fora simplesmente um sonho que havia sonhado em mais um momento durante a hora de almoço no trabalho. Na verdade, pelo que se lembrava, ela surgiu montada em um lindo cavalo branco, bem lá naquelas colinas. Todos ficaram boquiabertos com aquela figura tão esplendorosa, que poderia muito bem ter saído de uma tela de cinema. Talvez tenha sido isso mesmo, já que Ataliba amava os clássicos hollywoodianos dos anos 1950.

Decidido a decifrar tal enigma, remexeu a ampla estante repleta de vídeos antigos. Espanou o velho videocassete. A poeira lhe causou uma tosse quase instantânea. Recomposto, conectou os fios à televisão. Passou todo o final de semana numa busca frenética por aquela mulher. Nada!!! Não havia Grace Kelly, Ingrid Bergman, Sophia Loren nem Elizabeth Taylor que pudesse substituí-la.  

Na segunda-feira, as olheiras o acompanharam até o trabalho, e com ele permaneceram até sexta. Mal conseguiu prestar atenção ao serviço. Todavia, ninguém pareceu notar, pois todos estavam entretidos com suas tarefas. Talvez apenas Heloísa, a moça da copa, tenha percebido, já que Ataliba mal tocou nos inúmeros cafezinhos deixados em sua mesa. 
 
Voltou para casa o mais rápido possível. Caminhou sem se dar conta de que havia esbarrado em pelo menos duas pessoas durante o trajeto. Uma o xingou, é verdade. Não se sabe se percebeu que tal injúria era para ele ou, então, simplesmente a ignorou, pois tinha uma missão a cumprir. Descobrir quem era aquela mulher havia se tornado uma obsessão. 

Dezenas de filmes mais. Nada!!! Nenhuma imagem da sua amada. Sim, Ataliba agora tinha certeza de que amava aquela mulher. A paixão era o único sentimento que o impulsionava nessa busca incessante. E foi assim pelos próximos meses. A mesma rotina.

Ataliba havia perdido alguns quilos. Mal sentia o gosto da comida, às vezes até se esquecia de se alimentar. Já nem se preocupava em fazer a barba, pentear os cabelos. A roupa amarrotada, a mesma que havia lhe feito companhia na última sexta-feira, lhe conferia o aspecto de desleixado. As olheiras completavam o cenário, que agora parecia de pura frustração.

O homem adormeceu. A encantadora mulher, montada no lindo cavalo branco, finalmente surgiu bem diante dos seus olhos. Ela abriu o mais belo sorriso que Ataliba havia visto. Que emoção!!! O seu coração acelerou como nunca. Parou! Seu corpo só foi encontrado depois de quase uma semana. Os vizinhos começaram a reclamar do fedor vindo do apartamento daquele homem solitário.
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O escritor Eduardo Martínez (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 30.01.2023
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2023/01/a-linda-mulher-no-cavalo-branco.html
Referências da Biografia = Cultura SC; Jornal Cultural Rol; Notibras; Radar Digital Brasília; Casa Brasileira de Livros; Portal UFRRJ, etc.

Luís Fernando Veríssimo (O Homem Trocado)

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.

– Eu estava com medo desta operação…

– Por quê? Não havia risco nenhum.

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… 

E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.

– Seu nome não é Lírio?

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

– O senhor não faz chamadas interurbanas?

– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?

– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.

– É. A operação era para tirar o apêndice.

– Não era para trocar de sexo?
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LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fontes:
Luís Fernando Veríssimo. Comédias da vida privada. Publicado originalmente em 1994.
Biografia = Wikipedia; Diplomatique; Ebiografia; Revista Cândido; Academia Brasileira de Letras; Brasil Escola; Estadão; Itaú Cultural, etc.

Clarice Lispector (Os Bonecos de Barro)


O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro — o que ninguém lhe ensinara. Trabalhava numa pequena calçada de cimento em sombra, junto à última janela do porão. Quando queria com muita força ia pela estrada até ao rio. Numa de suas margens, escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia desejar: branco, maleável, pastoso, frio. Só em pegá-lo, em sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles pedaços timidamente vivos, o coração da pessoa se enternecia úmido quase ridículo. 

Virgínia cavava com os dedos aquela terra pálida e lavada — na lata presa à cintura iam se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os pés descalços e ela mexia os dedos úmidos com excitação e clareza. As mãos livres, ela então cuidadosamente galgava a margem até a extensão plana . No pequeno pátio de cimento depunha a sua riqueza. Misturava o barro à água, as pálpebras frementes de atenção — concentrada, o corpo à escuta, ela podia obter uma porção exata de barro e de água numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matéria clara. e tenra de onde se poderia modelar um mundo.

Como, como explicar o milagre… Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa.

Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina.

Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo… de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.

Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando… Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, m:to eram nada…Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!…

Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. 

Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. 

No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.

Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.

— Bonito… bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce.

Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível.

As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.

E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranquila.
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CLARICE LISPECTOR (Chaya Pinkhasivna Lispector) foi uma das escritoras mais importantes, originais e influentes da história da literatura em língua portuguesa. Associada à Terceira Geração do Modernismo Brasileiro (Geração de 45), ela revolucionou a ficção nacional ao trocar as narrativas focadas em fatos externos por mergulhos profundos e psicológicos na alma humana. Nasceu em 1920, na aldeia de Chechelnyk, na Ucrânia. Sua família, de origem judaica, fugia dos horrores da Guerra Civil Russa e da perseguição antissemita. Ela chegou ao Brasil ainda bebê, com poucos meses de vida. Clarice sempre se declarou profundamente brasileira e pernambucana. Faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.
Embora tenha se formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1943, Clarice nunca exerceu a advocacia. Trabalhou como redatora e repórter em veículos como a Agência Nacional, Diário da Noite e Correio da Manhã. Sob os pseudônimos de Helen Palmer e Ilka Soares, escreveu crônicas e conselhos de beleza, moda e comportamento para o público feminino em jornais da época. Dominando vários idiomas, traduziu grandes autores internacionais para o português, incluindo Agatha Christie, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Ao se casar com o diplomata Maury Gurgel Valente, viveu quase duas décadas no exterior (Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra), dedicando-se à escrita e aos deveres sociais da função do marido.
A estreia de Clarice na literatura foi um verdadeiro terremoto cultural. Ao longo de sua carreira, construiu uma obra vasta que abrangeu romances, contos, crônicas e literatura infantil. Em 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. A obra recebeu aclamação imediata da crítica pelo estilo inovador, que rompia com o regionalismo realista que dominava a época. Seus textos ficaram marcados pelo conceito de "epifania" — momentos em que ações banais do dia a dia (como olhar para um cego mascando chiclete ou quebrar um ovo) disparam crises existenciais profundas em seus personagens. Consagrou-se com livros fundamentais como Laços de Família (1960 - contos), A Paixão segundo G.H. (1964 - romance) e Água Viva (1973). Seu último livro publicado em vida foi A Hora da Estrela (1977). A obra narra a comovente e trágica história de Macabéa, uma datilógrafa nordestina invisível na metrópole do Rio de Janeiro.
A relevância de Clarice Lispector para a literatura mundial é monumental por redefinir a própria forma de contar histórias:
Foi pioneira no Brasil ao utilizar de forma radical o fluxo de consciência e o monólogo interior. A trama física importa pouco em seus livros; o verdadeiro cenário da ação é o pensamento caótico e subjetivo dos personagens; Muito antes dos debates contemporâneos, ela expôs o sufocamento da mulher burguesa presa aos papéis tradicionais de esposa e mãe (como visto nos contos de Laços de Família), revelando a angústia oculta atrás da normalidade doméstica; Clarice não usava as palavras apenas para descrever coisas, mas para criar sensações físicas e filosóficas. Sua escrita é poética, enigmática e quebra a lógica gramatical tradicional para tentar traduzir o que é "inexpressável".

Fontes:
Clarice Lispector. O Lustre. Publicado originalmente em 1946.
Biografia = Revista Pernambuco; Brasil Escola; Casa do Saber; Jornal de Letras; Mundo Vestibular, Itaú Cultural, UNICAMP, Correio Braziliense, FFLCH USP, Revista Rascunho, etc.

domingo, 21 de junho de 2026

Fernando Sabino (Empregadas )


DESAVENÇA

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.

Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

– Então isso não pode causar um incêndio?

FALAR DIFÍCIL

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.

Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

OS SIMPLES DE CORAÇÃO

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

– Gente, tá na hora de murçá.

– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O TAL DA TELEVISÃO

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

– Telefonou um moço para o senhor.

– Deixou o nome?

– Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…

No dia seguinte, a mesma coisa:

– O tal da televisão tornou a telefonar.

– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.

Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:

– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.

Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

COME E DORME

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

SÓ UMA VEZ

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.

Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

– O padeiro.

– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

– Deus quis…
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. Livro Aberto. Publicado originalmente em 2001.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.