Marcadores

Mostrando postagens com marcador resumo biográfico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resumo biográfico. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Machado de Assis (Como comportar-se no bonde)


Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

Art. I – Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: — ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

Art. II – Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

Art. III – Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

Art. IV – Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

Art. V – Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

Art. VI – Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

Art. VII – Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas à distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

Art. VIII – Das pessoas com morrinha

As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela.

Art. IX – Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.

Art. X – Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS é o maior nome da literatura brasileira e um dos principais escritores do século XIX no mundo. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ no Morro do Livramento em 1839 e faleceu nesta mesma cidade em 1908, aos 69 anos. Viveu toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro. Sua residência mais famosa foi a casa na Rua Cosme Velho, onde passou seus últimos anos ao lado da esposa, Carolina Xavier de Novaes. Filho de um pintor de paredes negro e de uma lavadeira portuguesa, superou a pobreza e a falta de estudos formais. Começou na juventude como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e depois trabalhou como revisor de textos. Atuou intensamente como cronista, folhetinista, crítico teatral e tradutor em diversos jornais da época. Ingressou no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, onde fez carreira burocrática estável até se aposentar como diretor.
Seus primeiros livros seguiram a tradição do Romantismo, com narrativas lineares focadas em tramas amorosas e ascensão social. Em 1881, inaugurou o Realismo no Brasil. Rompeu com o sentimentalismo e adotou um tom irônico, pessimista e inovador. Destacou-se pelo uso da metalinguagem (conversas com o leitor), digressões, análise profunda do psicológico humano e crítica à hipocrisia burguesa.
Foi o principal idealizador e fundador da Academia Brasileira de Letras em 1897. Eleito como o primeiro presidente da ABL (Cadeira nº 23), cargo que ocupou até a sua morte. Por isso, a instituição é carinhosamente chamada de "Casa de Machado de Assis". Não existiam grandes prêmios literários estruturados no Brasil de sua época, mas ele recebeu a Ordem da Rosa do governo imperial e o maior reconhecimento público e intelectual em vida.  
Alguns livros publicados: 
Romances Românticos: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878).
Romances Realistas: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908).
Coletâneas de Contos: Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896) — contendo obras-primas como O Alienista, A Cartomante e Missa do Galo.
Também publicou peças de teatro, críticas literárias e diversas coletâneas de poesias (como Ocidentais).
Sua importância para a literatura é devido a que suas obras tratam de dilemas morais, egoísmo, vaidade e ciúme, que permanecem atuais em qualquer época ou cultura. Antecipou técnicas do Modernismo europeu ao quebrar a linearidade do tempo e criar narradores não confiáveis. Registrou com precisão cirúrgica a transição do Brasil Império para a República, criticando a elite escravocrata de forma sutil e implacável.

Fontes: 
Publicado originalmente em Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 04.julho.1883.
Biografia = Wikipedia, Brasil Escola, Guia do Estudante Abril, Educa mais Brasil, Português, Ebiografia, Casa do Saber, Portal São Francisco, etc. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

António Lobo Antunes (Elogio do subúrbio)


Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo:

— Víííííííítor

Num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava a cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. 

Cresci junto ao castelinho das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. 

A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. 

Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferra-a-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. 

Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos (Lafaiete, Jaurés) e habitavam rés do chão de janelas ao nível da calçada onde e distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher de Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na latrina da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas.

— O pai do ruço é doutor. – no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida

— Sempre estou para ver se lhes chegas, ó ruço, que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.

O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega suntuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher de Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava "Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?", e eu escrevia versos nos intervalos do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.

Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios (já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida) o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há aviões, nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar:

— Antóóóóóóóónio!!!

E um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher de Sandokan não o obrigaria nunca a comer purê de batata nem sopa de nabos durante o tormento do jantar.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor e médico psiquiatra ANTÓNIO LOBO ANTUNES é amplamente consagrado como um dos maiores e mais revolucionários nomes da literatura em língua portuguesa contemporânea. Nasceu em 1942, em Lisboa/ Portugal falecendo nesta mesma cidade em 2026 (aos 83 anos). Passou a maior parte de sua vida em Lisboa especialmente no bairro de Benfica, com exceção do período de 27 meses em que foi mobilizado para a Guerra Colonial em Angola. Pressionado pelo pai, graduou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu a profissão por muitos anos no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Entre 1971 e 1973, atuou como médico militar e tenente do exército português durante a violenta Guerra Colonial em Angola. Essa vivência clínica e o contato íntimo com o trauma da guerra moldaram profundamente sua visão sobre o sofrimento e a mente humana. Em 1985, afastou-se da medicina para dedicar-se exclusivamente à literatura.
Sua estreia oficial ocorreu em 1979 com o aclamado romance Memória de Elefante, seguido de Conhecimento do Inferno (1980). Esses primeiros livros focaram nos traumas, no absurdo e nas marcas psicológicas deixadas pela Guerra Colonial e pelo regime salazarista. A partir daí, construiu uma carreira prolífica e contínua de mais de quatro décadas, publicando dezenas de romances e coletâneas de crônicas. Membro fundador da Academia Pedro Hispano (Portugal). Embora consagrado mundialmente, Lobo Antunes optou historicamente por manter um isolamento voluntário no circuito literário tradicional, sendo as suas obras amplamente integradas e estudadas pelas maiores academias universitárias do mundo. Traduzido em dezenas de idiomas, foi por muitas décadas considerado o eterno candidato português ao Prêmio Nobel de Literatura. Entre as suas distinções mais célebres destacam-se: Prêmio Camões (2007); Prêmio Juan Rulfo / Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas (2008); Prêmio Jerusalém (2005); Prêmio Europeu de Literatura (2001); Prêmio Ovidio (2003); Prêmio José Donoso (2006).
Condecorado como Comendador das Artes e das Letras pelo governo francês e, postumamente, com o Grande Colar da Ordem de Camões em Portugal. Com uma extensa bibliografia de mais de 30 romances, como: Memória de Elefante (1979); Conhecimento do Inferno (1980); Explicação dos Pássaros (1981); Fado Alexandrino (1983); As Naus (1988); O Manual dos Inquisidores (1996); Ontem Não Te Vi Em Babilônia (2006); O Tamanho do Mundo (2022) – Seu último romance publicado em vida.
A relevância de António Lobo Antunes reside na sua profunda revolução estética e estilística. Ele rompeu completamente com a estrutura linear, tradicional e neorrealista do romance português. Sua escrita é marcada pela polifonia (múltiplas vozes que se sobrepõem) e por uma narrativa fragmentada, que mimetiza o fluxo de consciência e os labirintos da memória humana. Misturando prosa, poesia e autoficção em um estilo barroco denso, ele conseguiu colocar o tempo em suspensão — onde vivos e mortos dialogam no mesmo plano. Lobo Antunes foi crucial para dissecar as entranhas da sociedade portuguesa pós-ditadura, transformando o trauma histórico da guerra e as patologias da alma em uma literatura universal, poética e arrebatadora.

Fontes:
António Lobo Antunes. Livro de Crônicas. Lisboa/Portugal: Publ. Dom Quixote, 1998.
Biografia = Wikipedia, Wook Portugal, G1 Globo, CNN Brasil, Público Portugal, Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal, etc.

sábado, 1 de agosto de 2026

Lya Luft (O menino e sua mãe)


Faz uns trinta anos, um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio “de verdade”, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando ele passava a mão no pacote: “Parece mentira né, mãe?” Olhar sonhador.

No meio do trajeto houve então um desses diálogos inesquecíveis:

– Mãe, que igreja é essa?

– Nossa Senhora Auxiliadora.

– Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?

– É uma sim, filho, mas ela tem muitos nomes.

– E o Nosso Senhor é São Pedro, né?

– Não, é Jesus, ora. Quem casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus.

A mãe suspirou: não praticar religião em casa dava nisso.

– Ah… e por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora?

Os olhos azuis, calmos mas interrogativos, começavam a deixar a mãe inquieta.

– Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.

– Mas o José não era o pai dele?

– Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.

– Ah… Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus começava a se tornar imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

A mãe pensou por um momento, por que a gente inventou isso de falar das coisas como se fossem naturais? E, embora se considerasse uma mulher razoavelmente moderna, com uma visão saudável da vida – que estava transmitindo aos filhos num tempo em que o tema não era tão francamente abordado –, naquela hora quase duvidou de que fossem assim tão naturais. Afinal, estavam em público.

O menino a seu lado porém aguardava resposta, respostas.

– Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.

– Ué, então não foi como nas pessoas?

Agora o silêncio podia ser cortado com faca.

– Não, filho, não foi.

– Ah…

A mãe se fez de distraída, olhava pela janela, sentindo os outros passageiros aguçando o ouvido, como será que ela vai se sair dessa? O menino pensava concentrado.

– Mãe, como é que antigamente, assim beeeem antigamente, no tempo dos dinossauros por exemplo, as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se não tinham ninguém pra ensinar pra elas?

– Essas coisas a natureza ensina.

– Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente…

– Quer dizer, quando a gente cresce aprende por si.

No olhar azul transparecia uma certa pena, quem sabe a mãe não era tão inteligente assim. O menino, generoso, resolveu mudar de assunto.

– Mãe, olha, aí estava escrito rua Mozart. Será que ele mora aqui?

– Ele quem, filho?

– O MOZART, mãe, ora. Quem ia ser?

– Não, filho, ele viveu na Europa.

– Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos.

– Por que Estados Unidos?

A mãe começava a se divertir, aliviada com aquele diálogo menos perigoso.

– Ué, porque é lá que moram pessoas importantes, o presidente Kennedy e o Cyborg.

– Ah…

Finalmente desembarcaram; ainda segurando o pacote, o menino retomou seu ar sonhador.

– Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

Mas aí pensou melhor, espiou de relance com arzinho maroto a mãe que levantava, sorrindo, um dedo em riste, e emendou bem depressa:

– E mãe também, claro…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LYA FETT LUFT foi uma das mais importantes escritoras, tradutoras e intelectuais da literatura brasileira contemporânea. Nasceu em 1938, em Santa Cruz do Sul/RS e faleceu aos 83 anos em 2021, em Porto Alegre/RS. Passou a infância em sua cidade natal,  (cidade de forte colonização alemã). Na juventude, mudou-se para Porto Alegre. Teve também uma breve passagem pelo Rio de Janeiro na década de 1980, mas viveu a maior parte de sua vida falecendo na capital gaúcha. Atuou como professora universitária de Linguística na [Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e foi uma das maiores tradutoras do país. Verteu para o português mais de cem livros de grandes autores alemães e ingleses, incluindo Virginia Woolf, Thomas Mann, Hermann Hesse e Günter Grass. Também foi colunista da Revista Veja por muitos anos. Graduou-se em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela PUC-RS, com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada.
Iniciou na literatura escrevendo poemas na década de 1960. Publicou 31 livros ao longo da vida, destacando-se na poesia, no romance e no ensaio filosófico/memorialista. Alguns Livros Publicados: Poesia: Canções do Limiar (1964) e Flauta Doce (1972); Romances de Destaque: As Parceiras (1980 — sua consagração na prosa), A Asa Esquerda do Anjo (1981), Reunião de Família (1982), O Quarto Fechado (1984) e O Tigre na Sombra (2012) 
Embora não tenha ingressado na Academia Brasileira de Letras (ABL) nacional, recebeu grandes honrarias de instituições oficiais e foi condecorada como a "Escritora do Ano" pela Academia Rio-Grandense de Letras. Prêmio APCA (1996) da Associação Paulista de Críticos de Arte por “O Rio do Meio”; Prêmio União Latina (2001) de Melhor Tradução Técnica e Científica; Prêmio de Ficção (2014) da Academia Brasileira de Letras pelo romance “O Tigre na Sombra”. Diploma Bertha Lutz (2016) outorgado pelo Senado Federal.
A importância de Lya Luft reside na sua coragem de romper os estereótipos sociais e expor a condição feminina sem idealizações. Sua escrita mergulha profundamente nas inquietudes da alma humana, nas crises familiares e nas relações sufocantes do ambiente patriarcal. Em vez de focar em narrativas externas, ela revolucionou ao retratar o isolamento, a busca pela liberdade de pensamento e as transformações da maturidade. Sua obra uniu o rigor técnico de uma refinada tradutora a uma linguagem universal e acessível, que conectou milhões de leitores a reflexões existenciais profundas.

Fontes:
Lya Luft. Pensar é transgredir. Publicado originalmente em 2004
Biografia = PUCRS Online Academia Rio-Grandense de Letras, Revista Veja (04.06.2024), Portal G1 Globo (30.12.2021) Wikipédia, InfoEscola, etc.

Mônica Suditu (Querida senhora)


É domingo à noite. Com os olhos grudados na TV, uma cena me faz pular da cama de tanto rir. Uma mulher mal-humorada, com uma saia plissada que arrasta no chão, joga um casaco grosso e velho, de estampa tradicional, no encosto de uma cadeira engordurada. Ela olha de soslaio para um homem sentado à mesa, com barba branca e desgrenhada, rosto enrugado e queimado de sol, e grandes calos nas têmporas. Sai de seus lábios finos, como duas canas afiadas:

"Eu costurei para você. Vai durar mais do que você."

Ele se vira rapidamente nos calcanhares e vai embora.

O homem cospe num copo de boca larga, como uma bacia estrangulada pelo fundo.

Enxugo os olhos e olho para baixo, grudada no piso de madeira, procurando um guardanapo e um mata-moscas para dar um tapa na boca daquele ignorante. Estou pendurada no piso com um cobertor puxado atrás de mim, e dou uma boa risada.

Este filme é da época em que a vovó era uma moça adulta. Eu gosto. Ela tinha traços de vovó ou de adulta? Ela está me fazendo rir de novo.

Faz tempo que não recebo um abraço, não quero dizer quanto tempo. Nas férias, dois tapinhas nas costas, dois segundos, um beijo no ar na bochecha e tchau, como um pedaço de pão seco, engolido inteiro, que deveria durar uma semana. Coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha. Devagar. Gostaria de outro abraço. Uma onda de calor se espalha pelo meu peito. Desce até o meu estômago. Procura por dois braços. Ainda quentes. Uma voz surge, doce, com um resquício de atrevimento entre os dentes:

 Um abraço, minha querida, faz tempo que você não recebe um. Você está envergonhando a sua própria espécie. É isso mesmo: você não quer um abraço de qualquer um. E se você tem alguma pretensão de ser sincera, então espere pacientemente.

 Você não quer um homem, você quer o homem?

Estou irritada com o que ouço. Não estou a fim de fazer seu raio-X à meia-noite. Não reajo, então eles não me pegam ouvindo. Dizem que estou vidrada na TV. Mas estou mesmo.

O homem estica-se sobre a mesa, agarra o valioso copo de estanho com três dedos grossos, vira o vinho sobre a cabeça e arrota. Eu permaneço atenta no térreo, coberta pelo cobertor e pelo tapete.

"Eu tinha uma esposa assim", ele murmura, com um sorriso irônico. "E ela me amava loucamente. Agora ela se foi."

Ele inclina-se para trás para agarrar a cintura, um tornozelo saindo do sapato da mulher que acabara de deixá-lo.

Uma garota mal-humorada e um homem sujo, que combinação! Algo assim... Deus me livre, penso comigo mesmo.

Essa voz não me deixa em paz.

“Mantenha a calma, você não está lá. Você interpretou mal as pretensões de diva e está cercada por ar frio. Você está sentada com este cobertor sobre os joelhos em uma noite de domingo, em vez de ser abraçada pela cintura e aconchegada no hálito quente de um homem. Onde você estaria esta noite se tivesse aceitado o convite para sair? Sim, é sensato, apresentável. Eu vi bem de cima. Por que você diz "não" e obrigada?”

O sangue se acumula em minhas bochechas. O ar esquenta ao meu redor. O cobertor me queima. Ele sai de mim:

“Deixe-me em paz com sua análise. Não sinto nada, o que você quer? Ficar sentada como uma múmia bocejando? Olhar secretamente para o relógio, fervendo de impaciência para ir embora? O que você tem? É fim de semana. Estou com quem eu quiser. E se existe um "não" dentro de mim, um "sim" definitivamente não sai da minha boca. Eu tentei primeiro. Ouvi o que ele disse. É definitivamente aquela comida simples, sem sal. Você come quando está com fome, se quer algo no estômago. Posso ficar com fome. Chega, quero paz lá em cima.”

Dou ordens com autoridade, do térreo, com o traseiro dormente na madeira de carvalho. O sangue decide migrar para áreas desfavorecidas.

A mulherzinha de olhar penetrante retorna. O homem se endireita na cadeira, levanta-se e faz uma reverência.

— Obrigada, querida senhora.

A mulher, segurando uma bandeja cheia de copos e vinho derramado, dá um passo para trás. Seu lenço branco, amassado nas bordas, cai. Ela olha com espanto e solta um pequeno sussurro:

— Com amor.

Então ele desaparece na multidão.

No pub, a fumaça sobe até as vigas de madeira. Clientes animados brindam. Eles querem comida, música e bebidas. As mulheres servem às mesas, deslizando entre os clientes e as cantoras, com bandejas ovais cheias erguidas acima da cabeça, encostadas em um canto.

Essa criaturinha mal-humorada passa com uma panela vermelha, fumegante e pesada debaixo da mãozinha. O homem que a seguiu pega a bandeja dela num só movimento e a coloca sob a palma da mão suja, pesada e peluda.

"Depois da senhora, senhorita. Eu fico com ele. Onde fica a mesa?"

A mulher não fala. Parece confusa. Ela enfia as mãos nos shorts por cima da saia longa, levanta o queixo na direção do homem corpulento e permite-se um pequeno sorriso e um olhar de vergonha. Ela avança rapidamente, as dobras da saia roçando em cadeiras e lajotas.

Se eu fosse aquela mulher, será que eu olharia para um homem assim? Eu me cubro com o cobertor. Deus me livre, será que ele não consegue ver a higiene? E os modos? E como ele está todo molhado? Eu fico repetindo para mim mesma.

A voz suave não me enfraquece:

“Pare, mulher. Entre no passado delas, permaneça naqueles tempos, porque você também não teria sido uma flor. Você teria jogado fora sete saias e algumas peças íntimas. Acha que teria sido mais alegre?”

Analiso atentamente as roupas no filme. A voz está certa. E se eu acrescentar alguns espartilhos, então fica claro. Com o trabalho, os bares, a comida e as camadas de tecido, não restam vestígios de chanel. Cheira a couro quente, a trabalho, a sol, poeira, suor.

Aquela mulher que você julgou como amarga, talvez esteja cansada de algumas pessoas tentando cercá-la e ir embora assobiando. Você se esqueceu de como se comportar na rua e como reagir a fofocas?

Um arrepio percorre minha espinha. Estou com frio por causa do calor. Às vezes, de manhã, quando saio para o trabalho, sou recebida por um olhar rançoso, como uma mancha de óleo em uma gola branca. Olho uma vez e viro a cabeça como se não existisse. Sigo em frente. Não existe.

Meus ombros se contraem à minha frente. Meus joelhos se juntam. Meus dedos dos pés se agarram ao cobertor. Eu me encosto no sofá. Que vida eles tiveram que suportar. Não me é permitido reclamar. Quero dizer alguma coisa, fazer com que a voz dentro de mim se manifeste, mas a verdade é que não consigo encontrar nada.

O filme está se desenrolando. Estou olhando para os shorts brancos, para as mãos pequenas e trabalhadoras e para as mãos grossas e masculinas. Combinam. Como não percebi isso? Mas onde está o romance?

 "O romantismo está na sua cabeça ", responde a voz. " Você acha que pombas voam com renda e doces? Você não vê isso hoje, muito menos naquela época. O que há de errado com você?"

Começa o comercial. Estou no filme. Que romântico, penso comigo mesma. Respiro aliviada sem saber porquê.

"Finalmente, você caiu em si ", comenta a voz ao fundo.

O que eu teria feito se estivesse no lugar dela?

Nada de diferente, digo a mim mesma. Eu teria reagido da mesma forma. Mas e se agora, nos meus dias, eu fosse surpreendida por tanta atenção? Será que eu ainda ficaria tímida, com as mãos escondidas dentro da saia?

Seja honesto, não minta para si mesmo, respire fundo e me diga. Coragem. Eu sei que você a tem.

Penso por um instante, para ter certeza de que não estou mentindo. Manteria o queixo ereto e o olhar fixo, direto nos olhos dele. Eu não seria tola, digo a mim mesma. Então, com um pensamento mais contido: isso na superfície, para que ele veja.

Por dentro, eu seria exatamente como ela. Ouço em um sussurro:

“Você não me decepcionou.”

 Eu sorrio.

Nem eu.

Eu me levanto, arrumo as coisas no escuro, iluminada apenas pela luz da tela. O quarteirão inteiro está dormindo. Penso em duas pessoas que nem existem mais, mas que estão tão vivas. No caminho para o quarto, ele sussurra de novo:

“Você gostaria de ter vivido naquela época?”

Respondo sem pensar.

“Se eu fosse feliz, sim.”

Apalpo no escuro e me deito na cama. Um grilo canta do lado de fora da janela.

Aliso meu travesseiro com a mão.

Eu também aliso a que está ao meu lado.

De minha parte, eu adormeço.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
MONICA SUDITU é uma autora romena contemporânea em ascensão, conhecida principalmente por sua atuação na ficção ultracurta (flash fiction). Diferente de autores clássicos ou de longa carreira que possuem volumosas enciclopédias biográficas, os registros sobre a vida pessoal e acadêmica de Monica Suditu são restritos, pois sua inserção no cenário literário de destaque é recente, impulsionada por revistas culturais digitais e coletivos literários da Romênia. Reside e atua na Romênia, concentrando suas interações culturais na capital, Bucareste, e em plataformas literárias nacionais. Atua de forma independente no cenário cultural e educacional romeno.
Sua produção é focada na prosa curta contemporânea e na flash fiction. Ela ganhou espaço permanente na influente revista cultural romena Literomania, onde publica microcontos ficcionais regularmente. Seus textos também já foram destacados na prestigiada revista România literară, o principal periódico da União dos Escritores da Romênia. Não pertence a academias de letras formais (como a Academia Romena) e não possui prêmios literários de grande porte em seu histórico público. Sua relevância atual advém do reconhecimento de críticos em antologias e portais de curadoria de novos autores.
Entre suas produções mais lidas e celebradas na imprensa literária romena destacam-se: "A Névoa em Mim"; "Um Aperto de Mão"; "Defeito Não Declarado"; "Pratos Dois"; "Querida Senhora".
A importância de Monica Suditu reside em sua capacidade de modernizar e popularizar a prosa curta contemporânea na Romênia. A crítica literária destaca que seus textos trazem uma voz feminina, confessional e reflexiva. Ela consegue traduzir dilemas modernos da mulher sob uma perspectiva intimista. Suas narrativas são fortemente ancoradas no sensorial. Ela combina a observação psicológica da realidade imediata com o uso de um humor autoirônico refinado e grande tensão interior. Ao lado de coletivos de novos escritores, ela ajuda a consolidar o microconto e a ficção rápida como gêneros de alto valor estético na Romênia, provando que narrativas profundas podem ser construídas em pouquíssimas linhas.

Fontes:
Revista Literomania. N° 410-411. 21.07.2026. Contos relâmpago. (Tradução do romeno, por José Feldman)
Disponível em https://www.litero-mania.com/domnita-draga/
Biografia  = Literomania, Romania Literara

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Marcelo Henrique Marques de Souza (A gangorra)


Depois de velho, visitava a velha cidade da infância. Digladiava-se em silêncio. Por um lado, tudo tão diferente, o progresso passando a perna nas lembranças; por outro, o contraste que algumas ruas de terra batida resistentes produziam com a distância estrangeira a que se submetera, ao escolher a cidade grande, há mais de três décadas.

Ao contrário do que geralmente acontece, foi ele a abandonar a cidade natal e não os filhos. Plantou as sementes e cortou as raízes. Voou, folha de outono, a trair as cercas de casa.

Abandonou o ritmo compassado do pequeno lugarejo, para aportar no mar de ilhas nômades da selva urbana. Trocou o povoado solitário pela solidão compartilhada da terra das multidões.

Queria, entretanto, visitar o neto. Recebera-o em casa, quando ainda de colo, mas desejava vê-lo andar com as próprias pernas, tropeçar nos próprios impasses, sem o abrigo excessivo de todos aqueles colos.

O neto devolveu-lhe o abraço com um sorriso tímido e um silêncio respeitoso, desses de quem passa pela ponte de um rio imenso. E então o velho sentenciou, Vais com o vô, dar uma volta na praça. O menino, de lá de baixo dos seus seis anos, olhou para a mãe, à espera do sinal verde. – Voltem para o almoço...

A praça tinha traços do passado e do presente. O coreto permanecia, mas com outra pintura. A velha estátua do poeta ainda servia de palanque ao sarau dos pequenos pássaros. Enquanto que os velhos brinquedos, gangorras, balanços e cubos labirintos, agora dividiam espaço com uma espécie de horto, separado do resto por uma grade comprida, porém espaçada.

Depois de passear um pouco, avô e neto decidiram, em silêncio, pela gangorra. Uma forma de conciliarem o afã do menino com o cansaço do velho.

Nas grades do horto, insinuava-se uma comprida trepadeira, natureza que insiste, apesar de todo o espaçoso mundo humano. O menino fitou-a com a escada dos olhos, enquanto descia no suave balé da gangorra.

Os olhos do velho buscavam o nó que ancorava o encontro. A esperança de que o neto crescesse livre dos tropeços do destino. Sentimento que nutria mais por obrigação do que por experiência. Sabia que o destino não admite delírios retilíneos. Que a vida acaricia, mas também agride.

Conduzia a gangorra com cautela, distância segura dos extremos. O neto ainda perdia os olhos nas curvas da estranha corda vertical.

Na cordilheira dos instantes, o sol abraçava o ambiente inteiro. O dia corava e corria, pincel de pequenos plágios. O baralho dos velhos, as mães e as proles, coração da vida que pulsa.

Somos todos analfabetos de futuro. E, entretanto, como somos também algo reféns do passado, deliramos o presente, a exigir redundâncias em excesso. O avô desenhando, dedos de Narciso, o asfalto do porvir do neto. Ao mesmo tempo em que sabia que no mapa do tempo não há estrada sem neblina, buracos ou encruzilhadas febris.

Vô, essa corda cresce até o céu?, o menino interrogava, sem desgrudar os olhos do topo do horto. Uma dessas perguntas que foge do script. Teatro sem roteiro. Esse voo da infância, que desconhece a gaiola da gravidade.

Eu nunca vi nenhuma chegar ao céu. Mas quem sabe?... Essa um dia vai chegar...

Nesse instante, um avião cortou os céus. Como se sonho da trepadeira a enfeitiçar a cena. Gritava a sua pressa, ignorando a mesma gravidade que um dia desceria o menino da sua liberdade sem mapas. A mesma gravidade que agora cambaleava da estrada firme do avô, que vacilava entre a planta e a aeronave.

Um pequeno tranco trouxe o velho de volta. O neto caído, subitamente. O corpo pesou para frente, tombando expatriado na gangorra. Solavanco violento no pequeno coração. Era grave. Todos os projetos pleonásticos perdiam agora o sentido. Era preciso correr. Antes que a trepadeira chegasse ao seu destino cedo demais.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA é um escritor, ensaísta, poeta, pesquisador e professor brasileiro, cuja trajetória ganhou repercussão pública não apenas por sua produção intelectual, mas também por sua comovente história de superação pessoal contra a depressão severa. Nascido em 1975 reside e atua profissionalmente na cidade do Rio de Janeiro, com fortes vínculos na Zona Norte (bairro da Tijuca). Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Candido Mendes em 2006. Concluiu o mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atuou fortemente na educação básica e no ensino superior como professor de Filosofia, Literatura, Redação e Teoria em faculdades de pedagogia e colégios particulares no Rio de Janeiro. Diagnósticos de depressão profunda iniciados em 2007 culminaram na perda de seus empregos. Entre 2018 e 2019, o professor enfrentou uma crise financeira extrema e passou a viver temporariamente em situação de rua na Avenida Maracanã (Tijuca), carregando consigo apenas seus livros e referências filosóficas. A repercussão do caso gerou correntes de solidariedade para sua reinserção social e médica. 
Sua escrita transita principalmente pelo ensaio acadêmico, crônicas, contos e pela poesia reflexiva. É autor de pelo menos oito livros publicados ao longo de sua carreira, podendo-se destacar: "A viralatice brasileira: transformática para o Quarto Império": Importante dissertação e ensaio publicado via Repositório Institucional da UFJF, onde analisa criticamente o "complexo de vira-lata" sob a ótica da identidade nacional; Textos e contos avulsos como "No fundo da estante". Embora seja um autor prolífico com múltiplos livros editados e reconhecido no meio universitário da comunicação/letras, Marcelo construiu sua carreira de forma majoritariamente independente e acadêmica, não figurando nos registros tradicionais das grandes academias jurídicas ou imortais de letras, nem com premiações comerciais de grande porte.
A real relevância de Marcelo reside na intersecção entre a erudição clássica e a vulnerabilidade humana. Mesmo nos momentos mais difíceis de sua condição psicossocial, ele manteve a produção e a defesa do livro como ferramenta de dignidade. Sua pesquisa sobre a comunicação e a "viralatice" no Brasil ajuda a compreender as dores da cultura e da política nacional. Na esfera social, sua história tornou-se um símbolo contemporâneo urgente sobre a necessidade de suporte à saúde mental de professores e intelectuais no país.

Fonte:
Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (org.). Coletânea de contos & crônicas.. Vitória : EDUFES, 2015. (Coleção II Prêmio UFES de Literatura)
Biografia: Escavador, Portal R7, II Prêmio UFES,  O Globo.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Raquel Pivetta (A família do século XXI)


A sociedade mudou. As famílias que eram tradicionalmente formadas pelo modelo nuclear (casal com filhos) estão ganhando novas configurações. É casal que não quer ter filho, é filho que não quer casar, é casal sem filhos que adota um animal de estimação, é família monoparental, é família reconstituída, é casal de pessoas do mesmo sexo, e assim são formadas as famílias modernas.

Atrelada a essa variedade de arranjos, uma realidade inevitável: famílias cada vez mais enxutas. Segundo o Censo do IBGE de 2022, a família brasileira encolheu, em média, para menos de três pessoas por domicílio.

Diante desse novo cenário de diversidade e flexibilidade, não dá para continuar com a mesma mentalidade de décadas atrás. Já deu para perceber que a sociedade está em constante movimento. É dinâmica. Muda em virtude de uma interação complexa de fatores econômicos, sociais, políticos, tecnológicos. É a mulher conquistando o mercado de trabalho, é o aumento do custo de vida, é a mudança nas normas e nas legislações de família, é a facilidade de acesso a informações.

Então, é preciso estar atento e adaptável às mudanças de tempo, às marés de transformação que movimentam a sociedade. É preciso compreender e aceitar esses fenômenos, sob pena de ser arrastado pelas ondas enquanto está mergulhado na inércia; ou, o que é pior, enquanto espera na fila do orelhão, impaciente, como este sujeito aí:

— Mas que canseira… — murmura seu Constantino. — Essa fila que não anda!

O tempo não para, o tempo corre, o tempo muda, o sol ressurge, e o seu Constantino se mantém estático na fila do orelhão, esperando a sua vez.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

RAQUEL MACHADO PIVETTA é uma cronista, revisora de textos e analista de sistemas contemporânea. Diferente de nomes canônicos e históricos do Modernismo (como Cecília Meireles), ela representa uma vertente de autores independentes que conciliam com maestria carreiras na área de tecnologia e exatas com a sensibilidade da escrita literária e o amor pela língua portuguesa. Vive e atua em Brasília. Graduou-se em Análise de Sistemas pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Especializou-se em Sistemas Orientados a Objetos pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Possui ampla experiência prática na área técnica, trabalhando com ferramentas de Business Intelligence (BI), Data Studio e Power BI. Unindo a lógica da tecnologia à paixão pela linguagem, buscou formação especializada e concluiu pós-graduação em Revisão de Texto também pelo UniCEUB. É a idealizadora e fundadora do portal e perfil intelectual Viva Gramática. O espaço nasceu do desejo de criar um ambiente digital leve para discutir a norma culta, compartilhar artigos, dicas de português e crônicas autorais fora dos moldes rígidos das gramáticas tradicionais.
Dedica-se predominantemente à crônica e a contos curtos. Sua escrita é marcada pelo tom confidencial, pelo uso de ironias finas e pela observação minuciosa do cotidiano, abordando a maturidade, as relações humanas e dilemas modernos. É vinculada ao ecossistema da Plataforma de Escritores iniciativa ligada ao programa Formação de Escritores e Oficinas de Escrita Criativa). Por ser uma autora contemporânea focada em publicações digitais, jornalísticas e independentes, Raquel não pertence às academias tradicionais de letras (como a ABL) e não possui registros de prêmios literários institucionais de grande porte históricos. Sua validação ocorre diretamente por meio de leitores digitais e coletividades literárias modernas.
É autora da obra Crônicas agudas, café sem açúcar e outras ironias, coletânea que sintetiza seu estilo literário focado em extrair humor e verdades das rotinas cotidianas; Crônicas Notórias: Entre seus textos amplamente divulgados em seu portal e redes estão: "A sina de Sara" (uma releitura contemporânea do clássico conto "Um homem célebre", de Machado de Assis); "Fogacho coletivo" (uma reflexão bem-humorada sobre a chegada aos cinquenta anos e a quebra de tabus femininos); "Ele tem suas virtudes"; "Só se for...".
A relevância de Raquel Pivetta reside em mostrar que as barreiras entre a lógica da computação e a sensibilidade da escrita criativa são perfeitamente transponíveis. Ela representa a nova geração de produtores de conteúdo que utiliza plataformas digitais para democratizar o acesso à boa literatura e ao uso correto da língua. Sua contribuição literária se dá na preservação da crônica — um gênero tipicamente brasileiro — adaptado aos tempos de redes sociais, provando que reflexões profundas e humor inteligente ainda encontram espaço em meio ao imediatismo da internet.

Fontes:
Viva Gramática. 09.12.2023
https://vivagramatica.com.br/a-familia-do-seculo-xxi/
Biografia: Viva Gramática, Plataforma de Escritores, Escrita Criativa, etc.

Cecília Meireles (A quinhentos metros)


A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa – e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.

Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.

É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?

Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.

A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… – É assim em quinhentos metros!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.

Fontes:
Cecília Meireles, Rubem Braga, Fernando Sabino e Manuel Bandeira. Quadrante 1. Editora do Autor, 1962.
Biografia = Prefeitura Municipal de Caraguatatuba, de São Paulo, Brasil Escola, Wikipedia, Toda Materia, Grupo Ediotorial Global, Ebiografia, Museu da Educação, etc.

domingo, 26 de julho de 2026

Miriane Willers (Domingos de Inverno)


Acordar mais tarde nas manhãs de domingo, especialmente no inverno, é um prazer que me permito, após a intensidade da semana. Depois do amor, o banho quente e o sol no rosto. Explico: pela manhã, o sol entra pela janela do banheiro e se derrama em pura luminosidade, deixando sensação revigorante no corpo e na alma. O cheiro de café me invade e sinto-me viva, plena e tranquila.

Lareira acesa, crepitar da lenha. Esquento as mãos com a xícara fumegante. Meu cachorro apoia a cabeça em meu colo. Sensações incomparáveis, que se inscrevem na memória. Há quem reclama do frio e se encolhe. Na vida, tem gente assim em todas as estações. Prefiro aproveitar o que de bom cada passagem do tempo tem a oferecer. No inverno, tão gostoso é estar junto, perto, abraçados, aconchegados aos nossos amores.

Tem domingos que prefiro ler, horas e horas. Outros, conversar. E ainda, alguns que gosto de permanecer em silêncio, sem a obrigação da palavra, sem precisar dizer e nem fazer nada. É o dia da semana em que o chimarrão tem gosto de afeto. O almoço, o churrasco, sabor de família. A taça de vinho é apreciada com serenidade. Respirar o ar puro, admirar a roseira que floriu ontem. Abraçar minha mãe, que desafia o tempo e me agracia com sua presença forte e inspiradora. Ouvir música, caminhar no parque. Fazer uma oração na igrejinha do bairro. Meditar, agradecer. Absoluta tranquilidade e simplicidade.

Os domingos de inverno, com sol, neblina, geada ou chuva, têm peculiar poesia. São uma pausa nas atribulações da vida. Uma pausa para respirar, sem as pressões do trabalho. Folga dos prazos, dos compromissos, das leituras técnicas, das reuniões, tarefas e mais tarefas cotidianas. É tanta correria que quase esqueço quem sou, o que quero, meus sonhos, e vou me perdendo no caos da semana. Tantas fatias de tempo destinadas a coisas desimportantes. É urgente viver mais e consumir menos!

São os domingos de inverno que propiciam um intervalo para sentir a vida em todas as suas dimensões. Fechar os olhos. Respirar fundo. Deixar de lado, mesmo que momentaneamente, os acontecimentos corriqueiros: aumento do gás, oscilação no preço da gasolina, violência, acidentes no trânsito, cassação de um político, feminicídios, fraudes, corrupção, preconceito, desigualdades e tantas outras mazelas dessa sociedade doente e entorpecida. Mas é somente uma pausa. Não significa omissão e braços cruzados.

É parênteses para acalmar o coração, refletir, esquecer uma velha saudade, energizar o pensamento. Esquecer todas as coisas materiais, o ter. Apenas ser... mulher, humana, bruxa das palavras. E desacelerar os sentimentos. Nos domingos de inverno só quero sossego. São essas pausas que me permitem manter a sanidade e a alegria de estar viva, nelas eu me permito

No dia seguinte, tudo acelera de novo, enquanto o próximo domingo não chega.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.

Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Inverno. Publicado em 21 de junho de 2023 pela Editora Metamorfose. https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeinverno
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.