sábado, 1 de agosto de 2026

Lya Luft (O menino e sua mãe)


Faz uns trinta anos, um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio “de verdade”, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando ele passava a mão no pacote: “Parece mentira né, mãe?” Olhar sonhador.

No meio do trajeto houve então um desses diálogos inesquecíveis:

– Mãe, que igreja é essa?

– Nossa Senhora Auxiliadora.

– Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?

– É uma sim, filho, mas ela tem muitos nomes.

– E o Nosso Senhor é São Pedro, né?

– Não, é Jesus, ora. Quem casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus.

A mãe suspirou: não praticar religião em casa dava nisso.

– Ah… e por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora?

Os olhos azuis, calmos mas interrogativos, começavam a deixar a mãe inquieta.

– Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.

– Mas o José não era o pai dele?

– Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.

– Ah… Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus começava a se tornar imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

A mãe pensou por um momento, por que a gente inventou isso de falar das coisas como se fossem naturais? E, embora se considerasse uma mulher razoavelmente moderna, com uma visão saudável da vida – que estava transmitindo aos filhos num tempo em que o tema não era tão francamente abordado –, naquela hora quase duvidou de que fossem assim tão naturais. Afinal, estavam em público.

O menino a seu lado porém aguardava resposta, respostas.

– Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.

– Ué, então não foi como nas pessoas?

Agora o silêncio podia ser cortado com faca.

– Não, filho, não foi.

– Ah…

A mãe se fez de distraída, olhava pela janela, sentindo os outros passageiros aguçando o ouvido, como será que ela vai se sair dessa? O menino pensava concentrado.

– Mãe, como é que antigamente, assim beeeem antigamente, no tempo dos dinossauros por exemplo, as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se não tinham ninguém pra ensinar pra elas?

– Essas coisas a natureza ensina.

– Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente…

– Quer dizer, quando a gente cresce aprende por si.

No olhar azul transparecia uma certa pena, quem sabe a mãe não era tão inteligente assim. O menino, generoso, resolveu mudar de assunto.

– Mãe, olha, aí estava escrito rua Mozart. Será que ele mora aqui?

– Ele quem, filho?

– O MOZART, mãe, ora. Quem ia ser?

– Não, filho, ele viveu na Europa.

– Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos.

– Por que Estados Unidos?

A mãe começava a se divertir, aliviada com aquele diálogo menos perigoso.

– Ué, porque é lá que moram pessoas importantes, o presidente Kennedy e o Cyborg.

– Ah…

Finalmente desembarcaram; ainda segurando o pacote, o menino retomou seu ar sonhador.

– Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

Mas aí pensou melhor, espiou de relance com arzinho maroto a mãe que levantava, sorrindo, um dedo em riste, e emendou bem depressa:

– E mãe também, claro…
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LYA FETT LUFT foi uma das mais importantes escritoras, tradutoras e intelectuais da literatura brasileira contemporânea. Nasceu em 1938, em Santa Cruz do Sul/RS e faleceu aos 83 anos em 2021, em Porto Alegre/RS. Passou a infância em sua cidade natal,  (cidade de forte colonização alemã). Na juventude, mudou-se para Porto Alegre. Teve também uma breve passagem pelo Rio de Janeiro na década de 1980, mas viveu a maior parte de sua vida falecendo na capital gaúcha. Atuou como professora universitária de Linguística na [Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e foi uma das maiores tradutoras do país. Verteu para o português mais de cem livros de grandes autores alemães e ingleses, incluindo Virginia Woolf, Thomas Mann, Hermann Hesse e Günter Grass. Também foi colunista da Revista Veja por muitos anos. Graduou-se em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela PUC-RS, com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada.
Iniciou na literatura escrevendo poemas na década de 1960. Publicou 31 livros ao longo da vida, destacando-se na poesia, no romance e no ensaio filosófico/memorialista. Alguns Livros Publicados: Poesia: Canções do Limiar (1964) e Flauta Doce (1972); Romances de Destaque: As Parceiras (1980 — sua consagração na prosa), A Asa Esquerda do Anjo (1981), Reunião de Família (1982), O Quarto Fechado (1984) e O Tigre na Sombra (2012) 
Embora não tenha ingressado na Academia Brasileira de Letras (ABL) nacional, recebeu grandes honrarias de instituições oficiais e foi condecorada como a "Escritora do Ano" pela Academia Rio-Grandense de Letras. Prêmio APCA (1996) da Associação Paulista de Críticos de Arte por “O Rio do Meio”; Prêmio União Latina (2001) de Melhor Tradução Técnica e Científica; Prêmio de Ficção (2014) da Academia Brasileira de Letras pelo romance “O Tigre na Sombra”. Diploma Bertha Lutz (2016) outorgado pelo Senado Federal.
A importância de Lya Luft reside na sua coragem de romper os estereótipos sociais e expor a condição feminina sem idealizações. Sua escrita mergulha profundamente nas inquietudes da alma humana, nas crises familiares e nas relações sufocantes do ambiente patriarcal. Em vez de focar em narrativas externas, ela revolucionou ao retratar o isolamento, a busca pela liberdade de pensamento e as transformações da maturidade. Sua obra uniu o rigor técnico de uma refinada tradutora a uma linguagem universal e acessível, que conectou milhões de leitores a reflexões existenciais profundas.

Fontes:
Lya Luft. Pensar é transgredir. Publicado originalmente em 2004
Biografia = PUCRS Online Academia Rio-Grandense de Letras, Revista Veja (04.06.2024), Portal G1 Globo (30.12.2021) Wikipédia, InfoEscola, etc.

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