sábado, 1 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 208 *

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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Num devaneio, a velhinha
volta aos tempos de criança
e brinca, sorri, caminha ...
pelas ruas da esperança.
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Soneto de
ERIGUTEMBERG MENESES
Blumenau/SC

Máquina de costura

Máquina de costura relegada,
Sem uso por não ter manutenção,
Ganhou de um mecânico a atenção
E teve a engrenagem reparada.

Passando novamente a ser cuidada,
Recuperou depressa a tração
E de quem dela entende a função
Ganhou uma agulha calibrada.

A agulha nova entrando na fissura
Dos dentes, ao dar pontos à costura,
Deixava a costureira satisfeita.

Moral da história: sendo bem mexida,
Até máquina velha esquecida,
No ponto atrás e à frente, é perfeita.
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Sonhos

Tenho os
sonhos
pichados no muro,
que sorri ensolarado
sua própria miséria
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Soneto de
LUCIANO DÍDIMO
Fortaleza/CE

Coração branco

Receberia de Deus, com prazer,
Um coração com a paz de criança
Que confiante, no colo, descansa,
Tendo por certo que o sol vai se erguer. 

Um coração a pulsar no meu ser,
Dilacerando aflições feito lança,
Embora frágil, intrépido em dança,
Inquebrantável, com luz de poder. 

Um coração infantil, com efeito,
Que seja puro, inocente, sem tranca,
Nos alforria do mal que atravanca. 

Eu gostaria de ter em meu peito,
Para que um dia, no céu, seja aceito,
Um coração que tivesse a cor branca.
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Trova de
FABIANO FECHINE TORRES CLEMENTE 
Natal / RN

Ao olhar pela janela,
raiando a primeira hora,
sinto a esperança que nela
o bem renasça na aurora.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Penitência

Os lívidos despojos desgarrados
do sopro infecto, negro, pestilento,
sinistro mausoléu, são monumento
aos sonhos pelo tempo aniquilados.

Entregam-se ao prazer do acerbo vento,
num coração sem luz ergastulados,
escombros de desejos malogrados,
retrato do final definhamento.

Trilhado seu percurso derradeiro,
guardando passos jaz o caminheiro.
Emudecidos, dormem seus clamores...

Um rosto descorado, sem fulgência,
exprime a vergastante penitência
que cumprem neste plano os sonhadores.
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Trova de
MARIA HELENA URURAHY CAMPOS
Angra dos Reis/RJ

E procurando ensinar,
a minha vida passei,
pra no final constatar:
– Aprendi mais que ensinei.
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Soneto de
ELVIRA GLÓRIA DRUMMOND
Fortaleza/CE

… E a vida? 

A vida? Simplesmente uma passagem… 
em âmbito terreno, o nosso espaço 
de experiências — rol de aprendizagem — 
que ajunto dando o norte do que faço. 

A vida? Pura e bela jardinagem…
em que a mãe-terra serve de regaço 
para acolher sementes de coragem
florindo a comunhão que anseio e abraço.

A vida? Segue a bússola da ação, 
em que o retorno vem, na contramão, 
com flores que colheu no entardecer…

E o tempo — nosso grande grão-vizir — 
diz: —  quem não vive para, aqui, servir, 
enfim, não serve para, aqui, viver…
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Mesmo ao teu lado eu estando,
é sensação dolorida
ver a saudade chegando,
antes da tua partida.
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Soneto de
FERNANDO ANTONIO BELINO
Sete Lagoas/MG

A vida

Tal punhado de areia, a vida humana 
Esvai-se, fatalmente, grão em grão.
Deter o tempo é sempre esforço vão;
Contra a morte voraz, a luta é insana!

A vida é sopro apenas, e se engana
Quem crê na vida além, pura ilusão,
Pois, ao negar a própria condição,
Caminha para o abismo em caravana.

A eternidade é a grande fantasia
Que a humanidade em desespero cria,
Tentando resistir à triste sorte.

E, assim, desperdiçando o dom da vida,
Na busca de uma terra prometida, 
Encontra, simplesmente, a fria morte.
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Trova de
LUCÍLIA A.T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Para mais elo entre os seres,
e estenderem horizontes,
atentos aos seus deveres
os homens construíram pontes,
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Funesto

Amar, amar, 
amar, amar, eternamente;
amar até os nossos corações, 
descompassados,
fora de si e extasiados,
a se sentirem  cansados; 
“por tudo que nos deixou  cegos de amor 
num amar tresloucadamente envolvente...”
E, logo depois, logo depois, de novo, 
de novo, amar, amar, amar,
e deixar que eles parem de bater 
do nada, num “de repente”,
levados pelas loucuras insanas 
desse nosso gostar, 
desse nosso gostar inconsequente...
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Trova de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

A palavra é como a flecha,
atravessa o coração;
a ferida nunca fecha,
sangra lágrima-canção!
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Mensagem na Garrafa 203 = A casa

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AUTOR ANÔNIMO

Um velho pedreiro que construía casas estava pronto para se aposentar. Ele informou ao chefe o seu desejo de sair da indústria de construção e passar mais tempo com sua família. Ele ainda disse que sentiria falta do salário, mas realmente queria se aposentar.

A empresa não seria muito afetada pela saída do pedreiro, mas o chefe ficou triste ao ver um bom funcionário partindo. Assim, pediu ao pedreiro para trabalhar em mais um projeto, como um favor. 

O pedreiro não gostou, mas acabou concordando. Foi fácil ver que ele não estava entusiasmado com a ideia. Assim, prosseguiu fazendo um trabalho de segunda qualidade e usando materiais inadequados. Foi uma maneira negativa de ele terminar sua carreira.

Quando o pedreiro acabou, seu chefe veio fazer a inspeção da construção. Depois, deu-lhe a chave da casa e disse: "Essa casa é sua. Ela é o meu presente para você."

O pedreiro ficou muito surpreso. Que pena! Se soubesse que estava construindo sua própria casa, teria feito tudo diferente.

* * * * * * * * * * *
O mesmo acontece conosco. Nós construímos nossa vida, um dia de cada vez e, muitas vezes, fazemos menos que o possível na construção. Depois, com surpresa, descobrimos que precisamos viver na casa que nós mesmos construímos. Se pudéssemos fazer tudo de novo, faríamos diferente, não é? Só que... não podemos voltar atrás.

Você é o pedreiro. Todo dia você martela pregos, ajusta tábuas e constrói paredes. E como a vida é um projeto que você mesmo edifica, as suas atitudes e escolhas de hoje estarão determinando o tipo de "casa" em que você vai morar amanhã.

Revista Crestomatia de Trovas nº 5 – agosto de 2026 (faça o download gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 45 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

*Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Criança.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz 120 trovas do trovador paulistano, radicado no Paraná, José Feldman.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo sobre “Trovas Circunstanciais”, de Aparício Fernandes.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem ao talento do inesquecível trovador Aparício Fernandes.

PARTICIPE da revista. Envie suas trovas neste email.

Link para ler ou baixar no computador 

José Feldman
(Floresta/PR)

Lya Luft (O menino e sua mãe)


Faz uns trinta anos, um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio “de verdade”, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando ele passava a mão no pacote: “Parece mentira né, mãe?” Olhar sonhador.

No meio do trajeto houve então um desses diálogos inesquecíveis:

– Mãe, que igreja é essa?

– Nossa Senhora Auxiliadora.

– Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?

– É uma sim, filho, mas ela tem muitos nomes.

– E o Nosso Senhor é São Pedro, né?

– Não, é Jesus, ora. Quem casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus.

A mãe suspirou: não praticar religião em casa dava nisso.

– Ah… e por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora?

Os olhos azuis, calmos mas interrogativos, começavam a deixar a mãe inquieta.

– Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.

– Mas o José não era o pai dele?

– Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.

– Ah… Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus começava a se tornar imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

A mãe pensou por um momento, por que a gente inventou isso de falar das coisas como se fossem naturais? E, embora se considerasse uma mulher razoavelmente moderna, com uma visão saudável da vida – que estava transmitindo aos filhos num tempo em que o tema não era tão francamente abordado –, naquela hora quase duvidou de que fossem assim tão naturais. Afinal, estavam em público.

O menino a seu lado porém aguardava resposta, respostas.

– Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.

– Ué, então não foi como nas pessoas?

Agora o silêncio podia ser cortado com faca.

– Não, filho, não foi.

– Ah…

A mãe se fez de distraída, olhava pela janela, sentindo os outros passageiros aguçando o ouvido, como será que ela vai se sair dessa? O menino pensava concentrado.

– Mãe, como é que antigamente, assim beeeem antigamente, no tempo dos dinossauros por exemplo, as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se não tinham ninguém pra ensinar pra elas?

– Essas coisas a natureza ensina.

– Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente…

– Quer dizer, quando a gente cresce aprende por si.

No olhar azul transparecia uma certa pena, quem sabe a mãe não era tão inteligente assim. O menino, generoso, resolveu mudar de assunto.

– Mãe, olha, aí estava escrito rua Mozart. Será que ele mora aqui?

– Ele quem, filho?

– O MOZART, mãe, ora. Quem ia ser?

– Não, filho, ele viveu na Europa.

– Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos.

– Por que Estados Unidos?

A mãe começava a se divertir, aliviada com aquele diálogo menos perigoso.

– Ué, porque é lá que moram pessoas importantes, o presidente Kennedy e o Cyborg.

– Ah…

Finalmente desembarcaram; ainda segurando o pacote, o menino retomou seu ar sonhador.

– Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

Mas aí pensou melhor, espiou de relance com arzinho maroto a mãe que levantava, sorrindo, um dedo em riste, e emendou bem depressa:

– E mãe também, claro…
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LYA FETT LUFT foi uma das mais importantes escritoras, tradutoras e intelectuais da literatura brasileira contemporânea. Nasceu em 1938, em Santa Cruz do Sul/RS e faleceu aos 83 anos em 2021, em Porto Alegre/RS. Passou a infância em sua cidade natal,  (cidade de forte colonização alemã). Na juventude, mudou-se para Porto Alegre. Teve também uma breve passagem pelo Rio de Janeiro na década de 1980, mas viveu a maior parte de sua vida falecendo na capital gaúcha. Atuou como professora universitária de Linguística na [Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e foi uma das maiores tradutoras do país. Verteu para o português mais de cem livros de grandes autores alemães e ingleses, incluindo Virginia Woolf, Thomas Mann, Hermann Hesse e Günter Grass. Também foi colunista da Revista Veja por muitos anos. Graduou-se em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela PUC-RS, com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada.
Iniciou na literatura escrevendo poemas na década de 1960. Publicou 31 livros ao longo da vida, destacando-se na poesia, no romance e no ensaio filosófico/memorialista. Alguns Livros Publicados: Poesia: Canções do Limiar (1964) e Flauta Doce (1972); Romances de Destaque: As Parceiras (1980 — sua consagração na prosa), A Asa Esquerda do Anjo (1981), Reunião de Família (1982), O Quarto Fechado (1984) e O Tigre na Sombra (2012) 
Embora não tenha ingressado na Academia Brasileira de Letras (ABL) nacional, recebeu grandes honrarias de instituições oficiais e foi condecorada como a "Escritora do Ano" pela Academia Rio-Grandense de Letras. Prêmio APCA (1996) da Associação Paulista de Críticos de Arte por “O Rio do Meio”; Prêmio União Latina (2001) de Melhor Tradução Técnica e Científica; Prêmio de Ficção (2014) da Academia Brasileira de Letras pelo romance “O Tigre na Sombra”. Diploma Bertha Lutz (2016) outorgado pelo Senado Federal.
A importância de Lya Luft reside na sua coragem de romper os estereótipos sociais e expor a condição feminina sem idealizações. Sua escrita mergulha profundamente nas inquietudes da alma humana, nas crises familiares e nas relações sufocantes do ambiente patriarcal. Em vez de focar em narrativas externas, ela revolucionou ao retratar o isolamento, a busca pela liberdade de pensamento e as transformações da maturidade. Sua obra uniu o rigor técnico de uma refinada tradutora a uma linguagem universal e acessível, que conectou milhões de leitores a reflexões existenciais profundas.

Fontes:
Lya Luft. Pensar é transgredir. Publicado originalmente em 2004
Biografia = PUCRS Online Academia Rio-Grandense de Letras, Revista Veja (04.06.2024), Portal G1 Globo (30.12.2021) Wikipédia, InfoEscola, etc.

Interlúdio * 13 *


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OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO é um renomado jornalista e poeta mineiro, amplamente reconhecido no meio cultural como um dos grandes nomes da trova no Brasil. Nasceu 1940, na cidade de Ubá/MG Passou a infância e a juventude em sua cidade natal. Em 1962, mudou-se para Belo Horizonte, capital mineira, onde fixou residência e se radicou. Formou-se em Jornalismo em 1965. Iniciou imediatamente sua carreira na imprensa e na comunicação. Atuou em importantes jornais mineiros da época, incluindo a edição estadual do Última Hora, o Folha de Minas e o Jornal de Minas.
Descobriu sua vocação poética muito cedo e começou a compor trovas em 1958, aos 18 anos de idade. Durante a adolescência e juventude, manteve intensa correspondência literária com os grandes pioneiros do movimento trovadoresco e criadores dos Jogos Florais no Brasil, como Luiz Otávio, J. G. de Araújo Jorge, Aparício Fernandes. É membro histórico e ativo da seção de Belo Horizonte (UBT/BH), integrou a diretoria oficial exercendo o cargo de Vice-Presidente de Cultura e Relações Públicas. Ao longo de suas décadas de dedicação à poesia, conquistou diversas classificações e premiações em concursos nacionais e internacionais, como
Prêmios em certames oficiais de trovas no Brasil e em Portugal ainda na juventude, Destaques e Menções Honrosas em renomados Jogos Florais e concursos da UBT por todo o país, como em Ribeirão Preto, Nova Friburgo, Santos, Taubaté, Bandeirantes, Caicó, Cambuci e Natal. Eleito para o seleto grupo de Mestres Trovadores da Literatura.
Livros Publicados: Festival de Trovas (1966); Um Punhado de Trovas e outros Escritos (2015).
A relevância de Olympio Coutinho reside no fato de ele ser considerado um remanescente da "era de ouro" da trova no Brasil. Ele atuou diretamente como uma ponte viva entre a geração que fundou o movimento no século XX e os novos poetas contemporâneos. Sua dedicação em preservar a trova e sua liderança cultural ajudam a manter viva uma das manifestações poéticas mais tradicionais e populares da Língua Portuguesa.

Nelson Rodrigues (Coices e relinchos triunfais)


Amigos, o meu personagem da semana é o cronista patrício que foi à Inglaterra. Pois bem: — saiu daqui bípede e voltou quadrúpede. Desembarcou no Galeão soltando, em todas as direções, os seus coices triunfais. Por aí se vê que o subdesenvolvido não pode viajar, e repito: — Não pode nem ultrapassar o Méier. A partir de Vigário Geral, baixa, em nós, uma súbita e incontrolável burrice.

Não há, nas palavras acima, nenhuma piada. Faço uma casta e singela constatação. Ponham um inglês na Lua. E na árida paisagem lunar, ele continuará mais inglês do que nunca. Sua primeira providência será anexar a própria Lua ao Império Britânico. Mas o subdesenvolvido faz um imperialismo às avessas. Vai ao estrangeiro e, em vez de conquistá-lo, ele se entrega e se declara colônia.

É o que está acontecendo nas nossas barbas estarrecidas. O cronista que foi à Inglaterra (salvo raríssimas exceções) quer apenas isto: — fazer do futebol brasileiro uma miserável colônia do futebol inglês. Insisto no problema da viagem. O brasileiro que vai a Vigário Geral volta com sotaque, mas pergunto aos paralelepípedos de Boca do Mato: — tínhamos alguma coisa que aprender com o inglês?

Sim. Tínhamos. Por exemplo: — aprendemos como ganhar no apito. E, realmente, fomos caçados com a conivência deslavada dos juízes, dos juízes que a Inglaterra manipulava. Aí está o Canal 100. É o cinema, com uma ampliação miguelangesca, mostrando o nosso massacre. Nada descreve e nada se compara ao cinismo com que se exterminou Pelé. Tal cinismo foi, talvez, a maior lição que recebemos da Copa.

A melhor lição e não a única. Aprendemos também que um império se faz pulando o muro e saqueando o vizinho. E só uma coisa não precisávamos aprender: — futebol. Vocês viram a sorte do escrete russo no Brasil. É uma das melhores equipes do mundo. Só não foi finalista, no lugar da Alemanha, porque jogou a semifinal com nove elementos. E, aqui, a Rússia perdeu até em Maringá.

Mas há pior: — O mesmíssimo escrete russo tomou um banho de bola e de gols, sabem onde? Em Moscou. Aqui, o escrete inglês levou uma de cinco. Vejam bem: — de cinco. E só concedemos ao adversário um único e compassivo gol. Pois bem. Vai o cronista à Inglaterra e lá tem todo o comportamento do subdesenvolvido, de várias encarnações. O futebol inglês, ou alemão, ou russo é de uma clara, taxativa, ululante mediocridade.

Trata-se de um retrocesso evidentíssimo. A grossura, a truculência, a deslealdade ou, numa palavra, o coice nunca foi moderno. É um futebol que se devia jogar de quatro, aos relinchos, aos mugidos; e que também se devia assistir de quatro, com os mesmos relinchos e os mesmos mugidos. Muito bem: — e que faz o cronista? Quer que o jogador brasileiro, o melhor do mundo, também se transforme num centauro — um centauro que fosse metade cavalo e a outra metade também.

E não sei se vocês viram a página mais negra da nossa crônica. Vários colegas escalaram o escrete da Copa. Não há um único e escasso brasileiro. O leitor há de perguntar: — “Nem Pelé?” Nem Pelé. O cronista patrício está de tal forma fascinado com o futebol débil mental que varreu do mapa o divino crioulo. Dirá alguém que Pelé só jogou contra a Bulgária e foi assassinado no jogo Brasil x Portugal.

Mas nenhum jogador europeu fez, jamais, nada que se parecesse com as jogadas de Pelé na estreia brasileira. E mesmo de maca, mesmo de rabecão, ele teria que entrar em qualquer seleção da Copa. E Gilmar? E Paulo Henrique? E Altair etc. etc. Saímos da burrice da comissão técnica e vamos cair na burrice de certa crônica. Uma conseguiu destruir o escrete, a outra quer destruir o próprio futebol brasileiro.

Graças a Deus, há duas pessoas inteligentes em nosso futebol: — o craque e o torcedor. Os dois não estão de quatro. O craque tem uma qualidade que não se deixou cretinizar pela viagem. E a torcida sabe que a finalíssima foi a festa da mediocridade chapada.

Eu quero terminar dizendo: — quando, após a partida anteontem, o capitão inglês ergueu em ambas as mãos a Jules Rimet, o urubu de Edgard Allan Poe declarava aos jornalistas credenciados: — “Nunca mais, nunca mais!” E, de fato, como as outras Copas vão ser disputadas em terreno neutro, nunca mais a Inglaterra vai conseguir impor o seu futebol sem imaginação, sem arte, sem originalidade. E o cronista que foi nos dois pés e voltou de quatro que se cuide. O mesmo urubu de Edgard Poe diria que não se levantará nunca mais, nunca mais, nunca mais.
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NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. Pátria de chuteiras. 1994. Publicado originalmente em 01.08.1966 no Jornal O Globo, na Coluna do Autor.
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, etc.

Mônica Suditu (Querida senhora)


É domingo à noite. Com os olhos grudados na TV, uma cena me faz pular da cama de tanto rir. Uma mulher mal-humorada, com uma saia plissada que arrasta no chão, joga um casaco grosso e velho, de estampa tradicional, no encosto de uma cadeira engordurada. Ela olha de soslaio para um homem sentado à mesa, com barba branca e desgrenhada, rosto enrugado e queimado de sol, e grandes calos nas têmporas. Sai de seus lábios finos, como duas canas afiadas:

"Eu costurei para você. Vai durar mais do que você."

Ele se vira rapidamente nos calcanhares e vai embora.

O homem cospe num copo de boca larga, como uma bacia estrangulada pelo fundo.

Enxugo os olhos e olho para baixo, grudada no piso de madeira, procurando um guardanapo e um mata-moscas para dar um tapa na boca daquele ignorante. Estou pendurada no piso com um cobertor puxado atrás de mim, e dou uma boa risada.

Este filme é da época em que a vovó era uma moça adulta. Eu gosto. Ela tinha traços de vovó ou de adulta? Ela está me fazendo rir de novo.

Faz tempo que não recebo um abraço, não quero dizer quanto tempo. Nas férias, dois tapinhas nas costas, dois segundos, um beijo no ar na bochecha e tchau, como um pedaço de pão seco, engolido inteiro, que deveria durar uma semana. Coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha. Devagar. Gostaria de outro abraço. Uma onda de calor se espalha pelo meu peito. Desce até o meu estômago. Procura por dois braços. Ainda quentes. Uma voz surge, doce, com um resquício de atrevimento entre os dentes:

 Um abraço, minha querida, faz tempo que você não recebe um. Você está envergonhando a sua própria espécie. É isso mesmo: você não quer um abraço de qualquer um. E se você tem alguma pretensão de ser sincera, então espere pacientemente.

 Você não quer um homem, você quer o homem?

Estou irritada com o que ouço. Não estou a fim de fazer seu raio-X à meia-noite. Não reajo, então eles não me pegam ouvindo. Dizem que estou vidrada na TV. Mas estou mesmo.

O homem estica-se sobre a mesa, agarra o valioso copo de estanho com três dedos grossos, vira o vinho sobre a cabeça e arrota. Eu permaneço atenta no térreo, coberta pelo cobertor e pelo tapete.

"Eu tinha uma esposa assim", ele murmura, com um sorriso irônico. "E ela me amava loucamente. Agora ela se foi."

Ele inclina-se para trás para agarrar a cintura, um tornozelo saindo do sapato da mulher que acabara de deixá-lo.

Uma garota mal-humorada e um homem sujo, que combinação! Algo assim... Deus me livre, penso comigo mesmo.

Essa voz não me deixa em paz.

“Mantenha a calma, você não está lá. Você interpretou mal as pretensões de diva e está cercada por ar frio. Você está sentada com este cobertor sobre os joelhos em uma noite de domingo, em vez de ser abraçada pela cintura e aconchegada no hálito quente de um homem. Onde você estaria esta noite se tivesse aceitado o convite para sair? Sim, é sensato, apresentável. Eu vi bem de cima. Por que você diz "não" e obrigada?”

O sangue se acumula em minhas bochechas. O ar esquenta ao meu redor. O cobertor me queima. Ele sai de mim:

“Deixe-me em paz com sua análise. Não sinto nada, o que você quer? Ficar sentada como uma múmia bocejando? Olhar secretamente para o relógio, fervendo de impaciência para ir embora? O que você tem? É fim de semana. Estou com quem eu quiser. E se existe um "não" dentro de mim, um "sim" definitivamente não sai da minha boca. Eu tentei primeiro. Ouvi o que ele disse. É definitivamente aquela comida simples, sem sal. Você come quando está com fome, se quer algo no estômago. Posso ficar com fome. Chega, quero paz lá em cima.”

Dou ordens com autoridade, do térreo, com o traseiro dormente na madeira de carvalho. O sangue decide migrar para áreas desfavorecidas.

A mulherzinha de olhar penetrante retorna. O homem se endireita na cadeira, levanta-se e faz uma reverência.

— Obrigada, querida senhora.

A mulher, segurando uma bandeja cheia de copos e vinho derramado, dá um passo para trás. Seu lenço branco, amassado nas bordas, cai. Ela olha com espanto e solta um pequeno sussurro:

— Com amor.

Então ele desaparece na multidão.

No pub, a fumaça sobe até as vigas de madeira. Clientes animados brindam. Eles querem comida, música e bebidas. As mulheres servem às mesas, deslizando entre os clientes e as cantoras, com bandejas ovais cheias erguidas acima da cabeça, encostadas em um canto.

Essa criaturinha mal-humorada passa com uma panela vermelha, fumegante e pesada debaixo da mãozinha. O homem que a seguiu pega a bandeja dela num só movimento e a coloca sob a palma da mão suja, pesada e peluda.

"Depois da senhora, senhorita. Eu fico com ele. Onde fica a mesa?"

A mulher não fala. Parece confusa. Ela enfia as mãos nos shorts por cima da saia longa, levanta o queixo na direção do homem corpulento e permite-se um pequeno sorriso e um olhar de vergonha. Ela avança rapidamente, as dobras da saia roçando em cadeiras e lajotas.

Se eu fosse aquela mulher, será que eu olharia para um homem assim? Eu me cubro com o cobertor. Deus me livre, será que ele não consegue ver a higiene? E os modos? E como ele está todo molhado? Eu fico repetindo para mim mesma.

A voz suave não me enfraquece:

“Pare, mulher. Entre no passado delas, permaneça naqueles tempos, porque você também não teria sido uma flor. Você teria jogado fora sete saias e algumas peças íntimas. Acha que teria sido mais alegre?”

Analiso atentamente as roupas no filme. A voz está certa. E se eu acrescentar alguns espartilhos, então fica claro. Com o trabalho, os bares, a comida e as camadas de tecido, não restam vestígios de chanel. Cheira a couro quente, a trabalho, a sol, poeira, suor.

Aquela mulher que você julgou como amarga, talvez esteja cansada de algumas pessoas tentando cercá-la e ir embora assobiando. Você se esqueceu de como se comportar na rua e como reagir a fofocas?

Um arrepio percorre minha espinha. Estou com frio por causa do calor. Às vezes, de manhã, quando saio para o trabalho, sou recebida por um olhar rançoso, como uma mancha de óleo em uma gola branca. Olho uma vez e viro a cabeça como se não existisse. Sigo em frente. Não existe.

Meus ombros se contraem à minha frente. Meus joelhos se juntam. Meus dedos dos pés se agarram ao cobertor. Eu me encosto no sofá. Que vida eles tiveram que suportar. Não me é permitido reclamar. Quero dizer alguma coisa, fazer com que a voz dentro de mim se manifeste, mas a verdade é que não consigo encontrar nada.

O filme está se desenrolando. Estou olhando para os shorts brancos, para as mãos pequenas e trabalhadoras e para as mãos grossas e masculinas. Combinam. Como não percebi isso? Mas onde está o romance?

 "O romantismo está na sua cabeça ", responde a voz. " Você acha que pombas voam com renda e doces? Você não vê isso hoje, muito menos naquela época. O que há de errado com você?"

Começa o comercial. Estou no filme. Que romântico, penso comigo mesma. Respiro aliviada sem saber porquê.

"Finalmente, você caiu em si ", comenta a voz ao fundo.

O que eu teria feito se estivesse no lugar dela?

Nada de diferente, digo a mim mesma. Eu teria reagido da mesma forma. Mas e se agora, nos meus dias, eu fosse surpreendida por tanta atenção? Será que eu ainda ficaria tímida, com as mãos escondidas dentro da saia?

Seja honesto, não minta para si mesmo, respire fundo e me diga. Coragem. Eu sei que você a tem.

Penso por um instante, para ter certeza de que não estou mentindo. Manteria o queixo ereto e o olhar fixo, direto nos olhos dele. Eu não seria tola, digo a mim mesma. Então, com um pensamento mais contido: isso na superfície, para que ele veja.

Por dentro, eu seria exatamente como ela. Ouço em um sussurro:

“Você não me decepcionou.”

 Eu sorrio.

Nem eu.

Eu me levanto, arrumo as coisas no escuro, iluminada apenas pela luz da tela. O quarteirão inteiro está dormindo. Penso em duas pessoas que nem existem mais, mas que estão tão vivas. No caminho para o quarto, ele sussurra de novo:

“Você gostaria de ter vivido naquela época?”

Respondo sem pensar.

“Se eu fosse feliz, sim.”

Apalpo no escuro e me deito na cama. Um grilo canta do lado de fora da janela.

Aliso meu travesseiro com a mão.

Eu também aliso a que está ao meu lado.

De minha parte, eu adormeço.
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MONICA SUDITU é uma autora romena contemporânea em ascensão, conhecida principalmente por sua atuação na ficção ultracurta (flash fiction). Diferente de autores clássicos ou de longa carreira que possuem volumosas enciclopédias biográficas, os registros sobre a vida pessoal e acadêmica de Monica Suditu são restritos, pois sua inserção no cenário literário de destaque é recente, impulsionada por revistas culturais digitais e coletivos literários da Romênia. Reside e atua na Romênia, concentrando suas interações culturais na capital, Bucareste, e em plataformas literárias nacionais. Atua de forma independente no cenário cultural e educacional romeno.
Sua produção é focada na prosa curta contemporânea e na flash fiction. Ela ganhou espaço permanente na influente revista cultural romena Literomania, onde publica microcontos ficcionais regularmente. Seus textos também já foram destacados na prestigiada revista România literară, o principal periódico da União dos Escritores da Romênia. Não pertence a academias de letras formais (como a Academia Romena) e não possui prêmios literários de grande porte em seu histórico público. Sua relevância atual advém do reconhecimento de críticos em antologias e portais de curadoria de novos autores.
Entre suas produções mais lidas e celebradas na imprensa literária romena destacam-se: "A Névoa em Mim"; "Um Aperto de Mão"; "Defeito Não Declarado"; "Pratos Dois"; "Querida Senhora".
A importância de Monica Suditu reside em sua capacidade de modernizar e popularizar a prosa curta contemporânea na Romênia. A crítica literária destaca que seus textos trazem uma voz feminina, confessional e reflexiva. Ela consegue traduzir dilemas modernos da mulher sob uma perspectiva intimista. Suas narrativas são fortemente ancoradas no sensorial. Ela combina a observação psicológica da realidade imediata com o uso de um humor autoirônico refinado e grande tensão interior. Ao lado de coletivos de novos escritores, ela ajuda a consolidar o microconto e a ficção rápida como gêneros de alto valor estético na Romênia, provando que narrativas profundas podem ser construídas em pouquíssimas linhas.

Fontes:
Revista Literomania. N° 410-411. 21.07.2026. Contos relâmpago. (Tradução do romeno, por José Feldman)
Disponível em https://www.litero-mania.com/domnita-draga/
Biografia  = Literomania, Romania Literara