terça-feira, 18 de agosto de 2026

A. A. de Assis (Aí deu errado...)

Plantou-se uma semente programada para transformar-se em figo, outra para transformar-se em trigo, outra para transformar-se em milho, outra para transformar-se em rosa. E todas se transformaram no que previsto estava.

Uniram-se duas sementes programadas para transformar-se em garças, outras duas para transformar-se em ovelhas, outras duas para transformar-se em vaga-lumes, outras duas para transformar-se em estrelas-do-mar. E todas se transformaram conforme programado estava.

Casaram-se então duas sementes programadas para transformar-se em homens e mulheres, os quais, por sua vez, estavam programados para cuidar e desfrutar de tudo o que as demais sementes produzissem.

Na mesa estava o banquete. Juntassem-se os homens e as mulheres e seus descendentes para à vontade se servirem. 

Porém a partir daí se complicaram as coisas. No que passou a depender dos homens e das mulheres, o plano começou a não dar certo. Ele e ela fizeram tudo diferente do que estava programado. E em vez de se amar, brigaram.

Agora está difícil desapartar a briga. 

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos e deram início à crescente produção de lanças, porretes, bodoques, tacapes, facas, espadas,  espingardas, fuzis, metralhadoras, canhões, torpedos, drones, mísseis, megabombas... 

Mas você pode dizer que a maioria da humanidade é formada por gente pacata e boa. E é sim. Não conheço nenhuma estatística sobre isso, mas acredito que mais de 80 por cento são pessoas do bem e da paz, gente que trabalha, estuda, toma uma cervejinha no final da semana e não faz mal a ninguém.

O problema é que os outros 20 por cento ou vivem brigando, matando, roubando, xingando, gritando, atropelando, ou botando mais lenha nas fogueiras, com isso tirando o sossego e o sono dos demais.

O que fazer então? Sei não. Acho que podemos pelo menos pedir aos céus que amansem esses encrenqueiros todos, antes que eles completem o estrago.
==================  
(Crônica publicada o Jornal do Povo – Maringá – 13.8.2026)
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
    ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Solicito que coloque o seu nome após o comentário, para que o mesmo seja publicado. Somente serão aceitos comentários relativo às publicações, outros que sejam políticos, pessoais, chulos, etc. serão excluídos. Veja política de conteúdo na página inicial. Outros assuntos relativos a postagens, use o formulário de contato na coluna à direita ou envie para o email gralha1954@gmail.com
Não coloque nos comentários telefones, emails, dados pessoais para não cair em golpes de terceiros.