quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 216 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Chega ao fim a serenata...
E a Lua, mesmo cansada,
recolhe as taças de prata
das mesas da madrugada!
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Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ 1915 – 2009

Descansa, coração

Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão, já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!”
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MAURO MACEDO COIMBRA
Juiz de Fora/MG

Dorme no beco e afinal
diz o ébrio, sem conforto:
– Eu também sou imortal,
não tenho onde cair morto"!
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ

A última cigarra

Todas cantaram para mim. A ouvi-las,
Purifiquei meu sonho adolescente,
Quando a vida corria doidamente
Como um regato de águas intranquilas.

Diante da luz do sol que eu tinha em frente,
Escancarei os braços e as pupilas.
Cigarras que eu amei! Para possui-las,
Sofri na vida como pouca gente.

E veio o outono... Por que veio o outono ?
Prata nos meus cabelos... Abandono...
Deserta a estrada... Quanta folha morta!

Mas, no esplendor do derradeiro poente,
Uma nova cigarra, diferente;
Como um raio de sol, bateu-me à porta.
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Trova de
MANOEL CAVALCANTE
Pau dos Ferros/RN

A brisa bateu na porta
naquela noite abatida...
Trouxe uma esperança morta
pra minha face sem vida...
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Felicidade

Às vezes, absorto em minha introspecção,
À mente me chega com facilidade
A visão tão minha de "felicidade",
Ao sabor do pulsar de meu coração.

Felicidade é de longe ser querido,
Num pacto de amor e de mútua confiança.
Felicidade é sonhar, ter esperança...
Saber que, nessa fé, sou correspondido.

Felicidade é navegar em teus poemas,
É enfronhar no sentido de tuas rimas.
É decorar e aplaudir tuas obras-primas,
Já que, com elas, me colocaste algemas.

Felicidade é amar tu'alma primeiro,
Antes de sentir ao vivo teu calor.
Encantar-me com tua beleza interior
Para depois ver teu corpo por inteiro.

Felicidade é ter o pressentimento
De que estaremos, em breve, frente a frente.
Eu espero afoito por este presente,
Uma recompensa pro meu sofrimento.
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Trova de
LUCÍDIO DE FREITAS
Teresina/PI

Ó rio de águas sonoras!
Teu pranto eu sei de onde vem,
que os lamentos que tu choras
tenho-os chorado também.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
ALDA CORRÊA MENDES MOREIRA
Niterói/RJ, 1926 – 2009

Eterna ilusão

Com a alma vestida de Poesia,
cheia de fantasia,
caminho por uma estrada enluarada
à procura apenas
de tua companhia.

Olho o espaço e me refaço;
um sonho de encantamento me invade
e me traz felicidade.

Ao contemplar os astros,
banhada de muita luz,
inundo todo o meu ser
com uma imensa ternura
que só a ti me conduz.

E nesta hora,
tomada agora
de uma total fascinação,
fitando o céu,
faço-te a minha revelação
e deixo meu corpo todo se envolver
com o doce véu
da minha eterna ilusão.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
LUCÉLIA SANTOS
Patu/RN

Céu nublado e a terra fria,
e o vento ainda dormindo,
num tom de melancolia
o dia vai prosseguindo.
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Poema de 
EUNICE ARRUDA
Santa Rita do Passa Quatro/SP, 1939 – 2017, São Paulo/SP

Em dezembro

a lenta
iluminada
agonia

retorna a
voz esquecida sob a
pele

em dezembro

águas passadas movem
moinho
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Haicai de
ANIBAL BEÇA 
Manaus/AM (1946-2009)

Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Pena de talião

"Um dia, andei contigo, ó pálida Glicera,
Num passeio ideal, entre árvores e fontes.
Tu tinhas na cabeça uma coroa d'hera,
E andávamos os dois, como uns Belerofontes...

Brilhava sobre nós uma infinita esfera.
Resplandecia o azul de um céu sem horizontes.
Tu tinhas o esquisito olor da primavera
E a graça e o frescor dos vales e dos montes...

Eu me vi tão feliz, minha volúpia d'ouro,
Correndo atrás de ti, do teu cabelo louro,
Nessa manhã de luz, sonoramente arfando,

Que até me pareceu, através do caminho,
Feito de luz e flor, de aromas e de arminho,
Que eu ia, porém, como um pássaro, avoando!"
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUIZ CARLOS ABRITTA
Cataguases/MG, 1935 – 2021, Belo Horizonte/MG

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
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Poema de 
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Constatando...

Eu, que nunca discrimino,
tratando a todos igual,
na mesma coluna assino
e uso o mesmo embornal,
fui cativa de assassino,
mas fugi, alada, afinal!
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
ANGELA TOGEIRO FERREIRA
Belo Horizonte/MG

O vento na rosa
rouba-lhe o belo e o perfume,
ao tirar-lhe as pétalas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR 1944 – 1989

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP

Meu desabafo é criar
versos sensíveis e belos,
mesmo tendo que chorar
a quebra de meus castelos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
WILSON DE OLIVEIRA JASA
São Paulo/SP

Amada Minha

Em teu corpo sensual tens o perfume,
Da mais sensível flor, rosa de amor;
Mas mesmo nos meus braços tens queixume,
Querendo para ti bem mais calor.

Voas em sonhos pra mim, qual vaga-lume,
Iluminando a noite com fulgor;
És minha doce amada com teu lume,
Que é meu nome em momento abrasador.

Inspiradora musa da poesia,
Que transporta meu ser na fantasia,
Fazendo-me viver o amor-paixão.

És tu, amada minha e companheira,
Minha mulher, e a amiga verdadeira,
Quem aquece minh’ alma e coração.
= = = = = = = = = = = = = = 

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