domingo, 16 de agosto de 2026

Mia Couto (A velha e a aranha)


Deu-se em época onde o tempo nunca chegou. Está-se escrevendo, ainda por mostrar a redigida verdade. O tudo que foi, será que aconteceu? Começo na velha, sua enrugada caligrafia. Oculta de face, ela entretinha seus silêncios numa casinha tão pequena, tão mínima que se ouviam as paredes roçarem, umas de encontro às outras. O antigamente ali se arrumava. A poeira, madrugadora, competia com o cacimbo. A mulher só morava em seu assento, sem desperdiçar nem um gesto. Em ocasiões poucas, ela sacudia as moscas que lhe cobiçavam as feridas das pernas. Sentada, imóvel, a mulher presenciava-se a sonhar. Naquela inteira solidão, ela via seu filho regressando. Ele se dera às tropas, serviço de tiros.

- Esta noite chega Antoninho. Vem todo de farda.

Para receber António ela aprontava o vestido mais a jeito de ser roupa. Azul-azulinho. O vestido saía da caixa para compor sua fantasia. Depois, em triste suspiro, a roupa da ilusão voltava aos guardos.

- Apressa-te, Antoninho, a minha vida está à te esperar.

Mas era mais as esperas do que as horas. E o cansaço era sua única carícia.

Ela adormecia, um leve sorriso meninando-lhe o rosto. E assim por diante. Desconhece-se a data, talvez nem tenha havido, mas num dos seus olhares demorados, a velha encontrou um brilho cintilando num canto do teto. Era uma teia de aranha. Ali onde apenas o escuro fazia esquina, havia agora a alma de uma luz, flor em fundo de cinza. A velha levantou-se para olhar o achado. Não era a curiosidade que lhe puxava o movimento. Assustava-lhe a sua transparência demasiada. E, de logo, lhe surgiu a pergunta que luz tecera aquele bordado? Não podia ser obra de bicho. Não. Aquilo era trabalho para ser feito por espírito, criaturamente. A teia podia só ser um sinal, uma prova de promessa. Decidiu-se então a velha surpreender o autor da maravilha. 

A partir dessa tarde, seus olhos emboscaram o tempo, no degrau de cada minuto.
Esquecida do sono e do sustento, não houve nunca sentinela mais atenta. Até que, certa vez, , se escutou um rumor quase arrependido, desses feitos para ser ouvido apenas pelos bichos caçadores. Por uma breve fresta penetrava pela janela uma aranha. Era de um verde pequenino, quase singelo. Com vagaroso gesto a velha foi tirando o vestido do caixote. Usava os mais lentos gestos, para o bicho não levar susto.

- Qualquer coisa vai acontecer!

Era suspeita que ela bem sabia. Confirmou-se quando as duas, mulher e aranha, se olharam de frente. E se entregaram em fundo entendimento, trocando muda conversa de mães. 

A velha sentiu o bicho pedia-lhe que ficasse quieta, tão quieta que talvez qualquer coisa pudesse acontecer. Então ela se fez exata, intranseunte. As moscas, no sobrevoo das feridas, estranharam nem serem sacudidas. Foi quando passos de bota lhe entraram na escuta. Antoninho! 

A velha esmerava-se na sua imobilidade para que o regresso se completasse, fosse o avesso de um nascer. E lhe vieram as dores, iguais, as mesmas com que ele se havia arrancado da sua carne. Encontraram a velha em estado de retrato, ao dispor da poeira. Em todo o seu redor, envolvente, uma espessa teia. Era como um cacimbo, a memória de uma fumaragem. E a seu lado, sem que ninguém vislumbrasse entendimento, estava um par de botas negras, lustradas, sem gota de poeira.
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ANTÓNIO EMÍLIO LEITE COUTO (71), mundialmente conhecido pelo pseudônimo de MIA COUTO, é o escritor moçambicano mais traduzido e celebrado internacionalmente. O autor é amplamente reconhecido por sua prosa poética e por reinventar a língua portuguesa com o uso de neologismos inovadores. Nasceu em 1955, na cidade da Beira/ Moçambique. Filho de imigrantes portugueses, cresceu em sua cidade natal. Em 1971, mudou-se para a capital, Lourenço Marques (atual Maputo), para estudar, onde reside e trabalha . Na juventude, juntou-se à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) na luta anticolonial. Abandonou o curso inicial de Medicina para se dedicar ao jornalismo pós-independência. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista Tempo e do jornal Notícias. Em 1985, deixou o jornalismo para se formar em Biologia, especializando-se em Ecologia. Trabalhou na gestão de zonas costeiras, lecionou na universidade e fundou uma empresa de impactos ambientais.
Estreou na escrita aos 14 anos com poemas publicados na imprensa local. Adotou o pseudônimo "Mia" devido à sua paixão de infância por gatos e ao fato de seu irmão não conseguir pronunciar seu nome. Sua literatura transita de forma única entre a tradição oral africana (mitos e lendas locais) e a escrita formal herdada do colonialismo. O autor é mestre em fundir realismo e fantasia, criando palavras novas (neologismos) para expressar a identidade de Moçambique. Pertence à Academia Brasileira de Letras, em 1998 como Sócio Correspondente. Foi o primeiro moçambicano e o segundo escritor de todo o continente africano a integrar a academia.
Prêmio Camões (2013), O mais prestigiado prêmio da literatura em língua portuguesa, concedido pelo conjunto de sua obra; Neustadt International Prize for Literature (2014): Conhecido como o "Nobel Americano"; Prêmio Vergílio Ferreira (1999): Atribuído em Portugal pelo conjunto de sua obra; Prêmio Nacional de Ficção (1995): Concedido pela Associação dos Escritores Moçambicanos por “Terra Sonâmbula”.
Alguns Livros Publicados: Raiz de Orvalho (1983) – Poesia (sua estreia em livro); Vozes Anoitecidas (1986) – Contos; Cada Homem é uma Raça (1990) – Contos; Cronicando (1991) – Crônicas; Terra Sonâmbula (1992) – Romance (considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX); Antes de Nascer o Mundo (2009) – Romance; Trilogia As Areias do Imperador (Mulheres de Cinza, A Espada e a Azagaia e O Bebedor de Horizontes – 2015 a 2017) – Romances históricos, etc.
Mia Couto revolucionou as letras lusófonas ao provar que a língua portuguesa não pertence apenas a Portugal ou ao Brasil. Ele "moçambicanizou" o português, moldando a gramática e o vocabulário europeu ao ritmo das línguas locais e da cosmovisão africana. Suas obras foram fundamentais para cicatrizar as feridas sociais da violenta Guerra Civil Moçambicana, usando a poesia da ficção para tratar de traumas históricos brutais. Colocou a literatura contemporânea de Moçambique no mapa-múndi da alta literatura, influenciando novas gerações de escritores em todo o planeta. 

Fontes:
Mia Couto. Cronicando. Moçambique, 1991. Publicado originalmente em 1988, no jornal Notícias, em Maputo/Moçambique.
Biografia: Tag Livros, Ebiografia, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Mundo Educação, Brasil Escola, Portal da Literatura, etc.

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