quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Arthur Thomaz (A temperamental fonte dos desejos)


Em uma grande e decadente propriedade em um bairro afastado de um pequeno vilarejo, situado no Sul do país. No jardim havia uma diminuta fonte formada por águas que provinham de uma mina situada no sopé de um morro nas cercanias da área.

Lilian, descendente de uma família outrora muito abastada, mas cujos negócios ruíram com as sucessivas guerras pelas quais o país atravessara, herdou-a, porque todos os outros parentes não a quiseram pelo gasto que teriam em reconstruí-la.

Desde pequenina, cuidava da mina d’água, limpando e cuidando da pequena mata ciliar. Havia saído de casa apenas para concluir os estudos, mas sempre lembrava com carinho daquela pequena fonte de cristalinas águas, nem sempre cuidada com esmero pelos familiares em sua ausência.

Ainda na juventude, em inúmeras noites, sempre acompanhada de seu violão, cantava românticas canções e notava um alvoroço das águas, que pareciam dançar os diferentes ritmos que tocava.

Anos depois, ao retornar dos estudos em outro continente, já com a posse definitiva do local, observou que, ao passar pela fonte, as águas se agitaram, como um convite para que ela se aproximasse.

Assim o fez, desejando em pensamento, que seus pés parassem de doer pela extenuante caminhada que empreendera desde a rodoviária. Ao tocar nas límpidas águas, notou um intenso alívio das dores que sentira. Imputou o fato à uma mera coincidência, talvez pelo frescor da água.

Nesta noite, após jantar e contar aos familiares detalhes de sua temporada de estudos, afinou seu velho violão e foi até o jardim. Cantou com a emoção que a saudade imprimiu em sua alma, acompanhada por um suave rumorejar das águas.

Desejou ter uma linda voz, e sem perceber, passou a cantar maravilhosamente, sendo acompanhada em segunda voz pelo murmúrio emanado da fonte. Cantaram em coro por horas, ainda sem conscientizar-se do que estava ocorrendo.

Acariciando levemente a superfície das águas, despediu- -se, prometendo retornar na noite seguinte. Ouviu um “até breve” vindo das serenas águas.

Na outra noite, enquanto entoava um magnífico dueto, uma soturna tia aproximou-se sorrateiramente e repreendeu a moça por estar falando com a fonte. Frisou que isso era comportamento de gente maluca.

Ato contínuo, as águas agitaram-se e borrifaram muitas gotas no rosto da velha, que, assustada, saio correndo.

Lilian, nesse momento, tomou consciência do que estava acontecendo, mostrando-se ainda temerosa da verdade. Talvez para testar o que julgava estar acontecendo, desejou em seu íntimo, reformar a casa, mesmo sabendo que não possuía economias para tal.

No dia seguinte, foi surpreendida com a visita da secretária de Cultura da prefeitura, que fez uma proposta para tornar a propriedade patrimônio histórico, em troca de uma reforma, transformando-a em biblioteca pública e construindo uma confortável residência ao lado, para moradia da família.

Seu desejo seguinte foi aproveitar as terras para plantações, cujas safras fossem destinadas às famílias carentes da região. Alguns dias depois, o secretário de Agricultura sugeriu a seguinte oferta: explorar meio a meio as terras da propriedade, com o intuito de abastecer o restaurante popular da cidade.

Desejava também que houvesse um local adequado para o desenvolvimento das artes, principalmente da música e do canto.

Com o dinheiro arrecadado, construiu um local apropriado e equipado para tal finalidade. Em pouco tempo, tornou-se um centro de referência, sendo formada uma orquestra filarmônica e um coral que a acompanhava nas apresentações.

Mesmo tendo todos os desejos atendidos, Lilian ia todas as noites até a fonte, onde entoava canções acompanhada pelo murmúrio das águas, local em que se sentia realmente feliz.

Entretida no canto, Lilian não notou o surgimento de um homem que se aproximava com intenções de abordá-la. Rapidamente, as águas encresparam-se e atingiram com violência seu rosto, repelindo a pérfida tentativa.

Seguiram-se anos em que a prosperidade e a serenidade imperaram na propriedade. Conheceu um músico da orquestra, enamorou-se e levou-o para apreciação de sua amiga e confidente fonte. As águas realizaram uma dança alegre de aprovação e todos cantaram juntos até a madrugada.

A criança, fruto desta união, foi batizada na fonte, recebendo o nome de Désirée, em justa homenagem. Nessa hora foram lançadas ao ar miríades de gotas d’água em forma de pequenos e coloridos balões, em uma saudação à pequena menina.

A lua não querendo ficar alijada dessa felicidade, enviou sua branca luz até a superfície da água, que retribuiu, formando com os raios, um largo sorriso, refletindo e iluminando o negror da noite.
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

(Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor)

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