segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Arthur Thomaz (Oscar, o espantalho)


Na solidão do milharal, o espantalho cumpria a sua função, chacoalhando ao sabor do vento, assustando os pássaros que vinham assolar a plantação. A exceção ficava por conta do casal, Corvolinda e Corvolino, que depois de devorarem algumas espigas, vinham sentar-se nos ombros do espantalho e ficavam horas conversando com ele.

Certo dia, lá no alto de uma montanha, em seu castelo assombrado, a feiticeira Luana ensinava a sua neta Polidora a fazer feitiços utilizando uma varinha mágica.

Sem querer, a menina virou a varinha em direção ao sopé da montanha, e atingiu o espantalho, que imediatamente tornou-se humano.

Atônito, sem saber o que fazer, dirigiu-se à cidade mais próxima. Com sua roupa esfarrapada, descalço, na esperança de conseguir uma roupa em algum lugar, chegando em uma loja encontrou uma menina rica, fazendo compras com a mãe. Ela, na inocência, olhou para ele e disse:

– Mamãe, olhe que homem feio. Parece o tio Itamar.

E continuou:

– Mamãe, vamos comprar uma roupa para ele, porque ele está vestindo farrapos.

A mãe, envergonhada, pediu ao dono da loja uma peça de roupa para o rapaz feio.

E foram embora.

Mas quando a mãe e a filha saíram da loja, o dono tomou a roupa nova, e deu-lhe uma usada, uma velha sandália e expulsou-o da loja.

Oscar, assim mesmo, agradeceu, despiu-se dos farrapos, colocou a roupa que lhe fora dada e perambulou pela cidade, procurando um trabalho qualquer, que lhe desse condições de comprar comida. Era rejeitado em todas as casas pelo seu aspecto.

Quase chegando a noite, viu um grupo de pessoas embaixo de um viaduto, em torno de uma pequena fogueira. Eles acenaram para ele, pensando que era mais um deles.

Eram moradores de rua e estavam cozinhando algo em uma grande panela. Oscar aproximou-se e foi muito bem acolhido.

Nada lhe perguntaram, e ele também nada indagou sobre o fato de estarem ali. Alimentou-se e a noite dividiu com eles os papelões que serviam de colchão, e cobriu-se com jornal para enfrentar o frio da madrugada. Em pouco tempo, ambientou-se ao grupo heterogêneo.

Ouviu as histórias, cada uma mais triste que a outra, das razões que os levaram à condição de vida nas ruas. Sentiu-se como em uma família.

Em grupos, andavam pelas ruas, pedindo esmolas, ou oferecendo-se para fazer pequenos trabalhos, como capinar, carregar ou descarregar caminhões e outros, a fim de conseguirem um pouco de dinheiro para comprarem a refeição da noite.

Em determinada manhã, agentes públicos chegaram ao local onde estavam, com uma ordem judicial para removê-los. Foram empurrados e alguns levaram golpes de cassetete ao reagirem.

Queimaram todos os pertences que ali haviam. Sem opções, todos foram para as ruas em busca de outro local que os abrigasse. Rechaçados em todos os lugares onde foram, dormiram ao relento, sem terem sequer o papelão para deitarem em cima.

Oscar, perante tudo isso, percebeu que a vida aqui era muito pior do que a solidão do milharal. Despediu-se de todos, agradeceu a hospitalidade e o carinho, e foi até o morro onde ficava o castelo da feiticeira.

Gritou lá de baixo, solicitando que desfizessem o feitiço que o tornara humano. A feiticeira perguntou se era isso que realmente ele desejava. Diante da confirmação, desfez todo o feitiço que a sua neta havia feito sem querer.

Hoje, Oscar, o espantalho, vive feliz e tranquilo no meio do milharal, mantendo longas conversas com Corvolinda e Corvolino, bem afastado dos seres humanos.
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Conto: (Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.)

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