domingo, 23 de agosto de 2026

Renato Benvindo Frata (Um não com sabor de sim)


O amigo Davi se apaixonou pela colega de trabalho. Uma sansei de cílios longos, olhos amendoados e lábios vermelho-tomate. Seus cabelos lisos floriam na espátula, e as mãos de unhas rosadas, macias e de brandura de menina instigavam nele, paixão.

No quarto ao lado do meu na república de jovens, ele se trancava a mascar o amor não correspondido. Não poucas vezes, trocava o mascar pelo sorver - no bico do litro. Fernet, conhaque, vinho, cachaça. Qualquer líquido que desse corda à paixão que sentia. Como se dá linha ao papagaio posto ao vento. 

E deixá-la voar no amplo céu de seu ardor. 

Essa atitude virou piada. Estávamos na idade do não comprometimento, razão que levava a não nos preocupar com o verbo amar, mas com os pegar, ficar, comparecer e um monte de outros terminados em ar, er, ir, or, ur, menos aquele.

No expediente de trabalho e com ela na mesa ao lado, ele se mantinha sóbrio como charuto apagado. Cuidava tão somente das tarefas, aliás, que dividia com ela no setor de faturamento. Isso o levava a se aproximar dela com observações funcionais. Outras, a criar essa condição para sentir seu perfume.

Davi a amava. Derretia-se e se amargurava. Curtia sua presença nas oito horas de trabalho e lamuriava sua ausência nas outras doze. Até que lhe demos um prazo para se declarar. Ou nós o faríamos.

Munido de vodca e campari, trancou-se no quarto resolvido a lhe escrever uma carta. Faria o pedido por escrito, com receio de não suportar o “não” que ela lhe enfiaria goela abaixo. E, na manhã seguinte, mostrou-me um pedaço de papel. Não havia carta, mas dois versos, que li:

No copo vazio,
A ausência e a presença.
Sua e a da tristeza.
Não se sabe quem sai, ou fica.

Sorvo um líquido entintado.
Ele me tinge a boca, os lábios, escorre...
Dá-me sensação ácida de não.
Depois, um saboroso sabor de sim:
Do beijo-prazer, o do ficar!

Paro, ou continuo?

Às seis, logo na saída, os vimos de mãos dadas.
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(Texto enviado pelo autor)

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