domingo, 9 de agosto de 2026

José Feldman (Confusões de Totozinho)


O sol brilhava forte sobre o resort Águas Celestiais, e o ar cheirava a cloro, coco e um toque de suco de laranja gelado. Carlos tinha conseguido finalmente uns dias de descanso e não pensou duas vezes: levou consigo o seu maior orgulho e também a sua maior dor de cabeça — Totozinho, um São Bernardo de quase setenta quilos, com cara de anjo e energia de um furacão em dia de folga.
 
— Olha só que lugar lindo, Totozinho! — disse Carlos, acariciando a cabeça maciça do cachorro enquanto caminhavam pela beira da piscina. 

— Água azul, sol quente, ninguém para nos incomodar... vamos aproveitar, hein, meu grandão?
 
Totozinho abanou o rabo com tanta força que o vento chegou a bagunçar o cabelo de um senhor que passava por perto. Carlos arrumou uma espreguiçadeira perto da borda, estendeu a toalha e prendeu a coleira do cachorro numa corrente de aço que ficava fixa no chão, pensando: “Assim ele fica seguro e não sai por aí atropelando ninguém”. 

Mal sabia ele que a corrente era forte, mas a paciência de Totozinho era fraca, e o seu plano de paz estava prestes a virar uma tragédia cômica.
 
— Fica aqui quietinho, tá? — pediu Carlos, dando um tapinha no pescoço do animal. — Vou só molhar os pés e já volto.
 
Mal ele tinha dado três passos, Totozinho eriçou as orelhas. Seus olhos se fixaram em algo do outro lado da área de lazer: uma bola de borracha colorida que um menino tinha deixado rolar, e que parecia, para ele, o objeto mais fascinante do universo. O cachorro soltou um latido baixo, ansioso, e começou a puxar a corrente com força.
 
— Ei, ei! Calma, Totozinho! Não é nada! — gritou Carlos, voltando rapidamente para segurá-lo pela coleira. — Que é isso, meu filho, não precisa ficar todo agitado! É só uma bola, não vai comer ninguém!
 
Mas Totozinho não queria saber de explicações. Ele puxou mais forte, com todo o peso do corpo, e Carlos, tentando se equilibrar e ao mesmo tempo acalmar o bicho, acabou cometendo um erro fatal: enroscou a ponta da própria calça na argola da corrente. Quando o cachorro deu um salto decisivo, o tecido se enrolou, e em um piscar de olhos, Carlos estava preso — amarrado à coleira, com as mãos agarradas nela e o corpo sendo arrastado sem dó.
 
— AI, MINHA NOSSA! Espera, Totozinho! Espera, seu doido! — berrou ele, sendo arrastado pelo chão de pedra. — Não corre assim! Vou cair! Vou... AI MEUS PÉS!
 
A confusão começou na hora. Totozinho disparou como um foguete, e Carlos ia atrás, escorregando, pulando sem querer e gritando como um louco. A primeira vítima foi Dona Marlene, que estava sentada relaxando com um chapéu de palha gigante e um copo de suco na mão.
 
— Mas que... — não teve tempo de terminar. Com uma cotovelada involuntária de Carlos, ela foi empurrada direto para dentro da piscina, chapéu e tudo, fazendo um SPLASH tão grande que molhou todos os que estavam nas redondezas.
 
— PERDÃO, DONA! NÃO FOI DE PROPÓSITO! — gritou Carlos, mas não conseguia nem olhar para trás, tamanha a força de paquiderme.
 
O cachorro não parou. Seguiu em frente e acertou em cheio uma mesa com bebidas e lanches, que virou de lado num instante: copos, pratos, fatias de melão e garrafas voaram para todos os lados. Um garçom que vinha com uma bandeja cheia de água de coco ficou boquiaberto e, antes que pudesse se mover, foi atingido pela cauda do cachorro, caindo junto com tudo o que carregava.
 
— O que está acontecendo aqui?! — gritou o gerente, saindo correndo de dentro do bar com a toalha na mão.
 
— É O MEU CACHORRO! E EU TAMBÉM! ESTOU PRESO! — respondeu Carlos, que agora ia com a camisa toda suja de areia e suco de fruta.
 
Mais adiante, um grupo de amigos fazia um brinde na beira da piscina. Num segundo pensaram que era uma brincadeira, no seguinte viram a dupla furiosa chegar. Totozinho passou por baixo de uma das mesas de plástico, que subiu no ar e girou como um pião, enquanto todos que estavam ali se jogavam para um lado e para o outro, ou acabavam caindo na água aos gritos e sustos.
 
— SEGURA ELE! ALGUÉM SEGURA O TOTOZINHO! — tentou pedir Carlos, mas a voz saiu arrastada e falhada.
 
— TOTOZINHO! — chamou uma criança, achando a maior graça da bagunça. — QUE CACHORRO FORTE!
 
— FORTE É POUCO! ELE É UM TREM! — respondeu Carlos, quase engolindo areia.
 
O passeio destruiu também um guarda-sol que estava bem fincado, que saiu voando e abriu-se no meio do caminho como um para-quedas, atrapalhando ainda mais a visão. Totozinho, ainda obcecado pela tal bola, não dava folga. Passou por cima de uma esteira, derrubou um balde de gelo e arrastou o dono direto para a área onde estavam as espreguiçadeiras mais caras, fazendo uma fila inteira delas tombar uma após a outra como peças de dominó.
 
— SOCORRO! A MINHA CALÇA VAI RASGAR! — gritou Carlos, desesperado. — MEU DEUS DO CÉU, QUE IDEIA MALUCA FOI A MINHA DE TRAZER VOCÊ! PRECISO ANALISAR MINHA CABEÇA!
 
Quando todos já estavam de pé, uns molhados, outros cobertos de areia e frutas, mesas viradas e pessoas rindo alto sem conseguir acreditar no que viam, Totozinho finalmente parou. Parou exatamente na frente daquela bola que tanto o tinha atraído, cheirou-a com carinho, pegou-a na boca e sentou-se calmamente, abanando o rabo como se nada tivesse acontecido.
 
Carlos, todo amassado, com a camisa rasgada, joelhos ralados e ainda preso na corrente, ficou ali estirado no chão por uns minutos, respirando ofegante. O silêncio durou só um segundo — depois explodiu uma gargalhada geral, de todos os lados. Dona Marlene, que tinha saído da piscina toda molhada, limpou o rosto e disse rindo:
 
— Meu filho, que cachorro danado! Mas você também, hein? Que jeito é esse de passear? Parece que foi atropelado por um rebanho!
 
— Eu juro que não foi minha intenção — respondeu Carlos, soltando uma risada fraca e tentando se soltar da corrente. — Ele viu a bola, ficou doido, eu me enrolei... e olha no que deu!
 
O garçom, que já começava a recolher os cacos, sorriu e disse:
 
— Não se preocupe, senhor! Há muito tempo não víamos uma animação tão boa por aqui. 
 
Totozinho, com a bola na boca, olhou para todos com uma cara de quem não fez nada de mais, e soltou um latido feliz, fazendo todo mundo rir. Carlos, finalmente livre da corrente, levantou-se, sacudiu a poeira e passou a mão na cabeça do seu grandão.
 
— Pois é, Totozinho — murmurou ele, sorrindo e balançando a cabeça —, com você, nem um dia de descanso é sossegado.
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final do século XX. Residiu em cidades como São Paulo, Taboão da Serra, Curitiba e Ubiratã e finalmente em Maringá (PR) desde 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante Supremo do Saber, em Timisoara/Romênia; Mérito Cultural “Euclides da Cunha” na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural; Mérito Cultural da Academia Brasileira de Trova, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pergola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Confraria Brasileira de Letras, Bonde; Francisco Pessoa, UFRJ, etc.

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