sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Renato Benvindo Frata (Briga Infinda)


Não sei qual é o grau de intimidade entre Hypnos, o deus do sono, com Eos, a deusa da manhã, a que abre a noite para que o sol apareça assumindo o dia. Mas pelo pouco do sono de que desfruto, ou ela perdeu a relação com o tempo da noite, ou alguém está bêbado nessa história.
E não sou eu.

Disso sobra para mim que de olhos arregalados em plena madrugada, conto carneirinhos, quando não os carneio e asso na brasa viva da raiva com carvões de xingamentos e espetos.

O fato é que entre meu sono e as ordens de Hypnos para que eu durma, há um dissenso. Grave, incontrolável, eis que me tira o sono do horário em que deveria dormir e o põe à tarde, exatamente quando a obrigação do trabalho e da vida exigem que me mantenha sóbrio, de olhos bem abertos e com toda atenção às tarefas afins. É mole? 

Convivemos há tanto juntos, a nossa amizade é tão antiga que não deveria ser assim, afinal, se coloco o pijama e me deito numa cama limpa e macia com lençol e cobertas próprias para cada estação, a minha parte da relação entre o horário e o sono é cumprida como regem as normas e os costumes nesta parte do mundo. Portanto, se invariavelmente lá pelas tantas, abro os olhos para brigar com a lentidão do relógio, a culpa deve ser daquele que deveria, por ofício, zelar do meu descanso. Afinal, ele é um deus e, como tal, tem por obrigação cuidar para que suas ordens sejam acatadas.

Chama-me à atenção nessa introspecção de efeitos limitados ao sono atrasado, que só depois de milhares de horas não dormidas, de bolhas roxas sob os olhos, quilos de remela sistematicamente retirados, é que percebo que poderia, se previdente fosse, ter puxado com ele uma conversa de apaziguamento ou, ao menos, tentado uma solução para que acabe essa antipatia gratuita que o leva a vencer todas as pelejas noturnas me deixando abilolado.

É tão matreiro nesse vaivém entre vir e o não ficar, que parece fazer parceria com Mnemósine, a dama princesa das lembranças (das más e boas), que todas as noites insiste em trazer para minha cama um monte delas pondo-as frente aos meus olhos com a imagem de uma pena de escrita e um tinteiro de viscosa tinta para, com elas, registrar no meu livro da vida, com caligrafia mal acabada, coisas que já se encontravam sujeitas á deterioração no cofre do esquecimento.

Com a meiguice das princesas, pois, ela as ressuscita uma a uma com o fim de infernizar e criar momentos difíceis pela inconveniência porque essa machuca em dobro, age como torquês a picotar partes do coração e morsas a espremê-lo e, ao fazê-lo, arrancam-me gemidos sem que possa, nesse torpor, identificar seus porquês. Macera e esmigalha sentimentos quando não age como dona de uma verdade em que para a certeza, a incerteza não existe, e com essa gana, fica em minha mente até que o sol se intrometa vazando pelos vãos e se esparrame pelo lodo a clarear o quarto, afastando de vez o sono.

Quando, porém, essa princesa escreve as boas lembranças a me abarcarem, as noites não dormidas se transformam em alicerces da reconstrução da vida emocional saudável, um suporte a me encorajar para o enfrentamento de angústias, incertezas e segurança, nos muitos momentos tristes de peito cravejado de vazio.

Aí, aos poucos, ressono com os lábios espichados, lânguidos, sensíveis, e ouso dizer que, mesmo perdida a peleja nessa intrincada relação com Hypnos, ficar acordado nessa condição vale a pena.

Por isso, sinto que até sorrio... e faço do quase sono um lindo sonhar.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais. Paranavaí/PR: EGPACK Embalagens, 2024. enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

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