sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Renato Benvindo Frata (O 'Vazio' de Clarice)


Sentado no sofá, costas amparadas pelo encosto, pernas descansadas no macio, cotovelos apoiados em seus braços e com Clarice aberta entre dedos, encuquei. Ao falar de vazio, ela escreveu: "Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno."

Mastiguei o cérebro, ruminei a frase e por não a ter assimilado de primeira, li-a novamente e mais uma vez, até conseguir saborear a majestade do seu pensar: a poetisa quis dizer justamente aquilo que entendemos por contrassenso, algo à primeira vista ilógico, absurdo, eis que vazio quer dizer 'o que nada contém' (ou que contém apenas ar), ou 'quase nada', e 'pleno', pelo contrário, é o cheio, o completo, o repleto, o inteiro, o perfeito.

Meu olhar perdido nessa questão conquistou um espaço em meio aos pontos de interrogação em quase caos, após ter ficado à mercê dessa dúvida, me perguntei: como compreender como correto o que não tem nada, portanto, vazio, comparando-o ao que tudo tem, no caso, o pleno?

E aí veio a luz baseada na dinâmica da vida que cria vazios ao tempo que os elimina, os enchendo. Sim, porque vivemos a encher vazios.

Se comemos, enchemos o vazio do estômago, se entramos no carro, enchemos aquele canto do veículo ocupando o espaço que até ali se mantinha vazio. É o que diz a lei de Newton sobre a impenetrabilidade da matéria, em que dois corpos nunca ocupam o mesmo espaço.

Agora sim, fiquei satisfeito: o 'pleno' por ela apontado, se referiu ao 'todo' vazio de sua alma enquanto tomado por imensa tristeza, melancolia, insatisfação, considerando que significado de 'vazio' trata da consequência da falta de contato com algo que proporciona prazer, o que nos leva a imaginar que ao redigir a frase, Clarice não estava nos seus melhores dias.

Pois dessa forma, a saudade (o que ela sentia) - tenho comigo, é uma boa fabricante de vazios - grandes ou pequenos a quem chamo de monstros; e tanto os fabrica que acaba por alojá-los bem no centro do nosso coração e que, por sua vez, os recebe e cuida acumulando-os, deixando-os dispostos como em prateleiras de depósito.

Nesse sentido ao longo da vida, vamos acumulando vazios: vazios deixados por pessoas amigas que se foram, por acontecimentos especiais que se perderam, de carinhos trocados e que se transformaram em leves pegadas no tempo e que foram tão importantes que permaneceram pulsantes, independentemente do tempo em que se deram.

O 'pleno' dito pela Clarice, acho, se dava nos momentos em que ela fugia de si própria correndo para longe da tristeza, da angústia, do medo e da solidão insistentemente nela alojadas. Ali ela se virava, mexia, chacoalhava-se, mas tudo de infrutífera solução.

Os seus vazios de alma eram tão intensos e tão influentes no seu modo de ser que deram à sua escrita a sublimidade da poesia em um contexto. 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Jornal Cultural Farol da Poesia. Fascículo 4. Agosto de 2026. Enviado pelo autor. ) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Solicito que coloque o seu nome após o comentário, para que o mesmo seja publicado. Somente serão aceitos comentários relativo às publicações, outros que sejam políticos, pessoais, chulos, etc. serão excluídos. Veja política de conteúdo na página inicial. Outros assuntos relativos a postagens, use o formulário de contato na coluna à direita ou envie para o email gralha1954@gmail.com
Não coloque nos comentários telefones, emails, dados pessoais para não cair em golpes de terceiros.