Ficha Técnica Completa
Autor original Edmond Rostand (França, 1897)
Direção Flávio Rangel
Protagonista: Antônio Fagundes — Cyrano de Bergerac
Elenco destaque: Bruna Lombardi (Roxane), Lenine Tavares (Christian), Sérgio Ajzenberg (De Guiche), Marga Jacoby, Sérgio Mamberti (Ragueneau)
Companhia CER — Companhia Estável de Repertório (criada por Antônio Fagundes)
Ano de estreia 1985
Prêmios Prêmio Molière 1985 — Melhor Ator (Antônio Fagundes); Prêmio APCA
Direção de arte/cenário José Cláudio Serpa
Duração em cartaz Mais de 300 apresentações, percorrendo capitais brasileiras
Resumo do Texto — Enredo e Estrutura
A peça original de Edmond Rostand é uma tragédia romântica em cinco atos, em versos, ambientada na França de 1640. O protagonista é Cyrano, poeta, espadachim, músico e gascão de temperamento feroz — mas atormentado por um nariz imensamente grande, que ele acredita torná-lo indigno de amor.
Resumo Detalhado da Obra
ATO I — O Teatro do Hôtel de Bourgogne
Cyrano interrompe uma peça, expulsa o ator Montfleury (que ele proibiu de atuar), desafia todos os ofensores e, num dos momentos mais famosos, improvisa um duelo de espadas versificando ao mesmo tempo: "Que vos coupe a rima, e o estro e o braço!" Revela-se corajoso, brilhante e orgulhoso — mas também profundamente inseguro quanto à aparência .
ATO II — A Confissão
Cyrano confessa ao amigo Le Bret que ama Roxane, sua prima bela e culta. Mas não ousa declarar-se: "Eu amo… mas amo em silêncio… amo… mas sou feio!". Roxane o encontra e pede que ele proteja Christian de Neuvillette, um jovem cadete bonito por quem se apaixonou. Cyrano aceita — e descobre que Christian é belo, mas totalmente desprovido de palavras.
ATO III — A Noite do Balcão
A cena mais icônica. Christian deve falar com Roxane, mas trava. Cyrano, nas sombras, dita-lhe as falas, subindo numa caixa para ser ouvido. Debaixo do balcão, ele fala com a alma, e Roxane se rende àquela voz apaixonada. Christian recebe o beijo — mas é a poesia de Cyrano que a conquistou. Os dois se casam em segredo.
ATO IV — O Cerco de Arras : Guerra, Fome e Cartas
O Conde de Guiche, rejeitado por Roxane, envia o regimento de Cyrano e Christian para a guerra — ao cerco de Arras, onde passam fome e frio. Todos os dias, Cyrano escreve uma carta de amor em nome de Christian, enviando-a a Roxane. Ela, comovida, vai até o front. Ao saber que Roxane o amaria mesmo feio, Christian quer revelar a verdade — mas cai, morto por um tiro, antes de poder fazê-lo. Cyrano cala-se e assume o segredo.
ATO V — A Última Carta — 15 Anos Depois
Roxane entra num convento. Cyrano a visita todas as semanas — sempre pobre, sempre orgulhoso, sempre fiel. Sofre um atentado: uma pedra cai em sua cabeça. Mortalmente ferido, vai pela última vez ao encontro dela. Lê em voz alta a última carta — aquela que ele mesmo escreveu. Roxane percebe que a voz, o espírito, a alma que amou sempre foram dele. "Foi você!" — ela grita. Ele morre nos braços dela, com uma frase que se tornou imortal:
"Mas há uma coisa que se leva sem mancha — e pura!… E é… o meu PANACHE!"
Concepção do Espetáculo
A ideia nasceu do próprio Antônio Fagundes, que fundou a CER — Companhia Estável de Repertório justamente para realizar este sonho. Convidou Flávio Rangel — um dos maiores diretores brasileiros — para dirigir e fazer a adaptação. O resultado foi considerado a obra-prima de Flávio Rangel no teatro e o auge da maturidade artística de Fagundes.
Fagundes não apenas interpretou Cyrano — ele foi Cyrano. Sua performance reuniu comédia, poesia, violência e ternura numa medida rara:
- A Fúria e a Espada: Fagundes criou um Cyrano físico, ágil, de voz potente e presença avassaladora. As cenas de duelo eram coreografadas com precisão, transmitindo perigo e elegância.
- A Vulnerabilidade: Por trás do nariz falso e da arrogância, Fagundes revelava um homem ferido, solitário e profundamente doce. Quando dizia "Eu amo… mas sou feio", a plateia sentia a dor como se fosse sua.
- A Poesia em Versos: A versão de Flávio Rangel manteve o verso alexandrino original em português — e Fagundes recitava com naturalidade, sem soar declamatório. A cena do balcão, nas sombras, era dita com uma intimidade que calava o teatro inteiro.
- O Panache: No final, ferido e morrendo, Fagundes transmitia não derrota, mas vitória espiritual. Sua última fala — "o meu panache!" — ficou gravada na memória de todos que assistiram.
"Em muitos aspectos, Cyrano foi a obra-prima de Flávio Rangel e também a de Antônio Fagundes. Ele atingiu sua maturidade artística." — Bernardo Schmidt, crítico
Direção e Linguagem Cênica
- Cenário: Minimalista e fluido, com painéis móveis que evocavam o Paris do século XVII e os campos de batalha. Luzes marcavam a passagem do tempo e da emoção.
- Versão: Flávio Rangel adaptou o texto com rigor poético, mantendo a métrica e a rima, mas tornando a linguagem viva e brasileira, sem arcaísmos.
- Tom: Alternava comédia escrachada (as cenas de briga, a multidão) com lirismo puro (o balcão, as cartas de amor) e tragédia comovente (a morte final).
- Elenco: Bruna Lombardi fez uma Roxane jovem, inteligente e não ingênua — que ama as palavras antes do rosto. Lenine Tavares criou um Christian não apenas belo, mas humano e generoso.
- Considerada a melhor montagem de Cyrano já feita no Brasil e uma das melhores do mundo em língua portuguesa.
- Tornou-se referência definitiva do personagem no teatro brasileiro — qualquer nova montagem passa, obrigatoriamente, pela comparação com Fagundes.
- Antônio Fagundes ganhou o Prêmio Molière — o mais importante do teatro brasileiro — por esta performance.
Temas Centrais — Por Que Toca Tanto?
Tema Significado
Aparência vs. Essência
Roxane ama a beleza de Christian, mas ama a alma de Cyrano — sem saber. A peça pergunta: o que amamos primeiro?
Amor e Sacrifício
Cyrano renuncia ao amor para dar felicidade à mulher que ama. Escreve, luta, sofre e morre — sem nunca dizer "eu".
Honra e Independência
Ele não bajula poderosos, não vende sua palavra, não se curva. "Faço o que me impõe o meu coração — e sou belo… porque sou belo por dentro!"
O Panache
Não é só a pena no chapéu — é estilo, dignidade, coragem de ser quem se é, até o último suspiro.
Estreou em 1985 — ano da redemocratização do Brasil. Num país que saía da ditadura, um herói que não se curva, que fala a verdade, que luta contra todos os poderosos ressoou profundamente. Cyrano era, também, uma metáfora do artista livre — que recusa compromissos, que paga o preço de sua liberdade, mas que nunca perde o panache.
"Cyrano não é apenas um homem com um nariz grande. É cada um de nós — que tem algo de que se envergonha, que ama em silêncio, que fala melhor nas sombras. E que, no fim, quer deixar este mundo com a cabeça erguida e o coração intacto."
(A. I. Dola)
(Imagem: Adobe Firefly)

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