quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Laé de Souza (Contratempos)


Há dias em que não se deve sair de casa. Na verdade, nem se levantar. Saí da cama não só com o pé esquerdo, mas com tudo, mão, olho, pulmão, rim, coração, tudo “às esquerdas” (como diria o saudoso Mussum). Naquela fase em que faz sol de rachar, durante três meses, com rodízio de água e tudo, mas, no dia daquele passeio que você pagou em parcelas, especial mesmo, cai aquele toró. Você só vai para não perder a grana e junta-se àquela meia dúzia de pessoas, todas, aliás, no maior tédio. Se bem que tenho notado, ultimamente, as coisas não andam lá muito boas para o meu lado. O que me conforta é observar que tem muita gente sentindo o mesmo problema.

Para começar a encrenca, contratei alguns profissionais: primeiro, um pedreiro que atrasou em sua previsão de término da obra, em apenas seis meses, e errou na estimativa de preço de materiais em 250%. Depois, vieram o pintor, o eletricista, o encanador, o serralheiro, todos uns anjinhos na hora da contratação. Depois, só Deus sabe o que passei. Bem, mas isso é destino e cada um tem de sofrer um pouco.

E aquele tormento, quando comprei a prestações um lindo aparelho de som, no sábado, para a festa de aniversário dos meus gêmeos no domingo. E olha que a compra foi antecedida de conflito de consciência. Tira verba daqui, dali, junta tudo que vai dar, desde que consiga aquele pequeno empréstimo com um amigo.

Tudo certo. Cheguei em casa, liguei e, mesmo com aquela tradicional batidinha em cima, não funcionou. Na loja, nada de troca. “O aparelho deve ser levado na autorizada para verificar o defeito.” Corri até lá, cheguei a tempo, mas tive de deixar o equipamento e voltar na próxima semana. Não fosse minha educação de berço, juro que quebrava tudo ali na frente do técnico. Bem, vamos tocando. A festa vai ficar com o som antigo mesmo e na base do gogó. Lembrei-me de que a quarta corda do meu violão estava arrebentada. Na loja, não vendem uma só. Sem discutir, comprei o jogo completo e, já quase na hora da festança, quando abri o pacote, percebi que, em lugar da "ré" enveloparam uma "lá". Revisei todas, na esperança de encontrar, mas não veio a "ré" mesmo. Fazer o quê? É a indústria nacional concorrendo em igualdade com os importados.

Mas, também, nem sempre é assim. Hoje, o que mais me aconteceu foi aquela insistência dos garotos, no farol, para que eu comprasse rapadura (justo eu que não tenho dentes), ou flores (que não tenho a quem dar). O computador não quis funcionar. Nem quero pensar que um vírus tenha liquidado tudo e eu perdido tantas noites de divertimento desenvolvendo um programa em vão.

E aquele barulho no carro que ninguém consegue descobrir de onde provém? Meu mecânico de confiança já experimentou apertar tudo quanto é parafuso e nada de sumir. Antes, eu levava para verificar e, quando chegava na oficina, o barulho desaparecia e eu ficava com aquela cara de boboca. "Não é possível, fez ainda agora. Vamos dar outra volta, quem sabe...” e nada. “Vou acabar enlouquecendo. Ele faz assim: tlec, tlec..." O mecânico avisa que, sem ouvir, não dá para diagnosticar. Mas, ultimamente, o barulhinho está atrevido e até na frente do mecânico se manifesta. Mexe daqui, dali e nada. “Nunca vi nada igual”, resmunga o mecânico. Olho na placa da oficina já envelhecida e imagino que o cara deve ter tempo no ramo, logo o meu carro tinha de ser premiado. Tem nada não. Vendo por qualquer preço para me ver livre. Dito e feito. Andar com abelha zoando no ouvido não dá.

E, quando indiquei um funileiro para fazer um serviço no carro de um amigo? Depois de pronto, meu ex-amigo reclamava sempre para mim como se eu tivesse culpa. Decerto, pensava até que eu tinha levado uma comissão pela apresentação. Para resolver de vez, propus que mandasse em outro para refazer o serviço que eu pagaria. E o pior é que ele concordou. Está certo que a culpa foi minha. Quem mandou me meter em problema dos outros? O duro foi aguentar, durante grande tempo, a frase “Aquele teu amigo funileiro, hem?”

Evidentemente, tem uma fase que a gente atravessa, na qual deixa de acreditar por completo na sorte. Mas, o curioso é que não para de conferir os resultados, pelo menos para falar “Eu não disse?”

A matrícula das crianças na escola, por exemplo. Fiz a inscrição das quatro na mesma escola. E claro que teve excesso de interessados. Feito o sorteio... Preciso dizer o resultado? Não tem nada, não, quem mandou?

E aquela briga com a Sabesp? Um vai-e-vem sem solução de uma conta que poucos condomínios de apartamentos conseguiam atingir. E aquele “Deve ter vazamento” me enfurecia. Onde ia tanta água sem que eu percebesse?

A Eletropaulo, quando era ainda Light, também já aprontou comigo. E a Telefônica, difícil resolver aquelas ligações fantasmas. Por mais que explicasse que moro sozinho, não converso com vizinhos, não empresto meu aparelho. Como explicar aqueles interurbanos até para o exterior, disque Xuxa, disque amizade, disque horóscopo? E até apareceu um disque sexo. Que sufoco, meu Deus, para esconder aquela conta! Já pensou se cai na mão do pastor ou, então, no conhecimento de um daqueles meus “irmãos” da igreja? Sou expulso, sem direito a defesa ou, no mínimo, tenho de ser exorcizado. Está certo que a educação das atendentes é de primeira linha, mas dão cada resposta de indignar, tipo “Alguém usou. Se alguém estiver usando a linha, clandestinamente, quem deve verificar é o assinante” etc. Tudo bem. Passou.
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O escritor LAÉ DE SOUZA (64) é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infanto-juvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fonte:
Laé de Souza. Acontece…. SP: Ecoarte, 2018.

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