quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Havia um sol naquele céu... )


HAVIA UM SOL, naquele céu, meu Deus! Era um sol bonito, diferente, grandioso, mavioso, aconchegante, e trazia em sua pele macia algo desvairado e excepcional de todos os outros. Não era um sol agressivo do meio-dia à pino que queimava a nuca e fazia a gente correr para a sombra mais próxima, mas aquele sol, uau!... 

Ele se mostrava dourado, e aos finais de todas as tardes, derramava sobre toda a extensão do terreiro uma incandescência inebriante, como se alguém tivesse virado, tipo um balde de mel sobre o meu mundinho que não ia além do portão de madeira que separava a rua e as demais residências da nossa. 

E o mais importante: ele não cegava. Acariciava. Pairava sobre as folhas da mangueira nos fundos do quintal, brilhava soberbo como se fosse de papel laminado, a parede de barro da casa do meu avô João Raymundo ganhava um tom indescritível, e até o pó que levantava, quando o vento passava, parecia flutuar e o fazia leve, ensejando no ar uma mesura incandescente que se estendia e se alongava além de meus olhos ávidos de garoto sapeca. Eu tinha, nessa época, onze anos. Nesses dias do sol sempre bonito, eu teimava em usar uma camiseta que ficava grande em mim. 

Viera herdada de tio José, (irmão de meu avô) e houve um dia especial, em que eu devorava uma manga que vovô tinha colhido minutos antes. O suco da fruta doce escorria pelo meu pulso até secar nos espaços do cotovelo, deixando uma marca engraçada tipo assim, uma coisa meio grudenta. Vovô João Raymundo estava sentado na cadeira de madeira perto da porta da cozinha, consertando uma rede que tinha se rasgado na semana anterior quando ele saíra para pescar com alguns vizinhos. Seus dedos grossos e cheios de calos passando a agulha de ponta fina entre os fios de náilon se acomodavam com uma delicadeza que eu nunca tinha visto em ninguém. O radinho de pilha, encostado nos pés do fogão de lenha, tocava Milionário e José Rico, a voz do Milionário parecia vir de muito longe, misturada ao canto de um bando de passarinhos que pousavam nos galhos mais alto do vergel que se perdia para as bandas do Rio.

— Esse sol é dos bons — ele dizia sem parar de costurar, sem levantar os olhos da rede. Deixa a gente lembrar dos dias que ainda vão chegar, e dos que já se foram para bem longe no distante longínquo que agora se divorcia diante de nossas vistas.

Nesse tempo, eu não entendia nada do que ele falava. Só queria acabar de chupar a manga para correr atrás dos meus brinquedos e do Carnaval, um gato com o semblante de animal pesaroso que dormia no telhado onde ficava o poço de água, para jogar o caroço no mato ou qualquer outra coisa desusada para ver se acertava um formigueiro que florescia a olhos vistos. Mas guardei essa frase de meu avô, escondi bem escondidinho dentro de um lugar secreto que guardei a sete chaves numa das gavetas de um criado mudo, uma correntinha de ouro com a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que certo dia encontrei na beira da barranca do rio, deixada, talvez por alguém (uma menina) que viera de fora para tomar banho. 

Vovô João Raymundo dizia que o meu achado não servia para nada, mas o "trocinho" tinha peso, tinha textura, tinha um brilho que fazia a gente não querer jogar fora. Era, a meu entendimento de moleque, o brilho inquestionável da Santa que viera de roldão. O sol com o passar das horas, ia baixando devagar, como quem procura se esconder, como quem não quer incomodar. Ele pintava o céu de rosa claro no alto, de laranja queimada perto da linha do horizonte, e as sombras do quintal, aos bocados poucos iam se esticando, ficando compridas e finas, até, que a mangueira alta e imponente chegasse quase à porta rangente da cozinha. 


Meu avô parou de costurar, limpou as mãos na calça jeans surrada e me chamou para eu me aninhar ao seu lado. Eu subi correndo, e embora afastado a poucos metros, senti o cheiro de seu fumo de corda e também o sabor do café com leite e os pães quentinhos que ele sempre tinha ao alcance da minha fome. Esses pães, era a vovó Martinha que fazia com carinho e esmerado cuidado. Vovô, a certa altura, me apontou com o dedo para um pontinho branco e fraco que já aparecia meio assustado no céu ainda azul, do lado onde o sol sempre escolhia para desaparecer de vez e sumir do mapa. E falava, num tom engraçado que não demonstrava tristeza:

— Quando eu não estiver mais aqui — ele argumentava quase em um sussurro, como se estivesse contando um segredo muito importante só para o ar ouvir — quando eu não estiver mais aqui, você se sentará no lugar onde estou agora e olhará demoradamente para esse sol mole, tranquilo, calmo e dourado, que deixa tudo bonito ao redor, sem fazer esforço algum. E eu estou e estarei sempre aqui também, lembra sempre disso.  Estarei do mesmo modo, moldado na sua imaginação. Me farei vivo e pulsante no calor que bate na sua nuca e se agiganta abarcante na sua testa. Não se esqueça jamais das palavras de seu velho avô, também estarei na luz que entra pela janela do seu quarto, no jeito que esse mesmo sol faz as frutas ficarem mais doces como a manga que acabou de devorar. Ei, venha cá. Não precisa chorar. É só olhar para o seu velho avô e me escutar...

Nessas horas eu me encolhia em seu colo, me estreitava chupando o polegar esquerdo, atarracado em seu peito, sem entender direito o que ele queria dizer, mas dentro de mim, sentia um aperto incomum que não era fome, nem medo, nem de nada que eu conhecesse até então. 

O sol se pôs finalmente, se transformou em um clarão vermelho que durou alguns segundos e a noite lenta, meio que capengando, veio devagar, chegou trazendo o cheiro de jasmim que a minha vó Martinha tinha plantado num vaso enorme perto da varanda que acessava a porta da sala. Hoje, “trocentos” anos depois, vovô João não está mais por aqui. Nem a vó Martinha. 

A casa onde passei boa parte da minha infância, foi vendida. A mangueira foi cortada para alargar a plenitude do quintal, a rua foi asfaltada, virou avenida, a rede que meu avô consertou, rasgou de vez e foi jogada fora, num lixão enorme que a comunidade fundou para dispensar coisas que não se usam mais.  Entretanto, sempre que posso, venho aqui, lembranças trazidas pelo tempo que não me deixam. No meio da rua onde ficava a calçada e o portão de acesso a casa, vejo claramente um sol bonito naquele céu outrora dourado, naquele céu calmo, que segue silencioso, sem pedir nada a ninguém. Um sol hoje de aparência triste e melancólica, obscurecido por alguma dor não revelada, um sol que não quer nada, a não ser iluminar e me fazer voltar ao passado distanciado que se foi sem ao menos dizer tchau.  

Fecho os olhos por um breve instante e viajo. Sinto, de novo, o suco de manga no pulso. Ouço Milionário e José Rico cantando no radinho de pilha imaginário, e também a mão calosa de meu avô João Raymundo passando levemente os dedos trêmulos sobre meus cabelos. E do nada, do nada, o cheiro dos pães de vovó Martinha, como ainda o sabor do seu café com leite feito na hora, uma bebida quentinha e com gosto temperado de uma imensa saudade que se perpetuou. Aos setenta e três anos, entendo que as pessoas se vão. Partem. As casas mudam de donos. Os quintais que antes alimentavam lembranças desaparecem, viram asfalto, se transformam em lojas e armazéns, enfim, viram um amontoado de nada. 

Todavia, acreditem, dentro de mim, aqui em meu peito envelhecido pela idade, aquele sol do meu tempo de menino de onze anos não se põem nunca. Não se esconde. Ele fica guardado dentro de meu “eu”. Se faz pequeno e quente, como aquela correntinha com a medalha de Nossa Senhora Aparecida que um dia achei por acaso. Ainda trago comigo, como um amuleto de um dia bonito que se foi.  Se eu pudesse entrar na casa que não está mais em pé, se pudesse ao menos correr pelo corredor comprido, e se me fosse possível abrir a janela do que um dia foi meu quarto, eu me encantaria, voltaria no tempo. 

Regressaria aos meus onze anos, reviveria o velho avô, minha avó, o Carnaval, e todo o meu ser se perpetuaria naqueles tempos de ontem, ou dito de forma mais abrangente, se emoldaria naquelas outroras que se desmantelaram, que se decompuseram... mas eu sempre levarei comigo, a certeza perene de que lá em cima havia um sol. Decerto havia um sol naquele céu. Morrerei dizendo isso, afirmando categoricamente aos meus filhos e netos.  Cá entre nós, a vocês, caros leitores, que me leem agora: havia, de fato, naquele céu, igualmente em meu infinito que nunca se cobrirá de nuvens negras, nem desaparecerá definitivamente dos meus olhos: havia um sol naquele céu que em tempo algum deixou ou deixará de aparecer, nem que seja só para meu próprio encantamento perene e inextinguível.
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Aparecido Raimundo de Souza (73), é jornalista, paranaense radicado em Vila Velha/ES. Resumo Biográfico do autor , clique AQUI.

(Texto enviado pelo autor)

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