sexta-feira, 3 de julho de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (A pipa e a nuvenzinha chorona)


CORRIA UMA MANHÃ encantadora no município de Nossa Senhora dos Enforcados, ou mais precisamente no bairro da Cascata Encantada. Era um dia esplendoroso, desses em que o vento vem lá das bandas do morro da Menina da Cabeça Pelada, encimado por um céu que parecia ter sido mesclado de azul com um pincel de pelos macios. No campinho de futebol, onde a grama verdinha tentava fugir do calor, o pequeno João Eduardo, um menino de oito anos armou a sua pipa. Um dia antes, ele pediu para a sua vó Lúcia comprar papel crepom amarelo como o sol das cinco da tarde se despedindo.

João Eduardo na confecção de sua pipa, usou as varetas de bambu fininhas, cortadas do sítio do Tio Dininho, fez um rabo de meia dúzia de fitas coloridas que batiam em seu rosto como pequenas bandeiras. Pronta a sua mais nova diversão, o pequeno correu para o campinho onde jogava bola. Segurava a linha com as duas mãos, e aos poucos, com jeito, deixou que a Pipa saísse do chão e subisse. Radiante, o seu “papagaio” voou acima dos telhados vermelhos do humilde bairro e seguiu altaneiro.  De repente, mais distante que os olhos podiam enxergar, árvores frondosas balançavam com o vento de concepção enfraquecida. Mais aquém até que as aves que passavam rápidas como se tivessem pressa de chegar em lugar algum, a pipa finalmente alcançou o espaço.

Ela amava aquilo. O espaço. O pequeno João Eduardo idem. Aliás, ele sentia o ar passando por debaixo do seu “brinquedo voador”, e isso o fazia leve, quase sem peso, tal como a linha branca que o ligava do carretel à pipa, como se fosse apenas um carinho, e não uma prisão. A pipa por seu turno, livre, leve e solta, queria chegar cada vez mais perto do sol. De repente, nessa voação, avistou afastada de todas as outras, uma nuvem muito pequena do tamanho de um travesseiro de neném, Era essa nuvem, toda branquinha e fofa. Num dado momento, a pipa percebeu que a nuvenzinha chorava. Se debulhava, a coitadinha, num derramar de lágrimas baixinho e profundamente sentido.

Todavia, sem fazer barulho, deixava cair dos seus cantos, quase imperceptíveis, um líquido miúdo, na verdade, lágrimas fininhas como fios de cabelos, que desciam devagar e desapareciam no ar antes de tocar o chão da estrada que levava para as bandas das ruinas da Igreja de São José do Pescoço Comprido. As outras nuvens, as grandes e folgadas, aquelas metidas a bestas, passavam por ela e nem a olhavam. Algumas iam correndo para o norte, outras paravam para jogar beijos para o sol. Nenhuma, verdade seja dita, se detinha para perguntar por qual motivo a pequena se debulhava em lágrimas, lastimosa e plangente.

— Por qual razão você chora assim, nuvenzinha? – inquiriu sem mais delongas, a pipa, que se aproximou balançando o seu rabo de fitas para chamar atenção.

A nuvem soltou, de pronto, um soluço miúdo, e mais umas lágrimas verteram.

— Porque sou pequena — respondeu, com a voz embargada de quem tem a garganta cheia de água. — Todas as outras são grandes, robustas, carregam chuvas fortes, fazem o arco-íris escurecer o céu quando querem. Eu sou só… eu. Dizem as minhas coirmãs que nem nuvem mesmo me pareço. E às vezes olho tudo lá em baixo: as pessoas, as casas, a igreja do padre desdentado em frente a pracinha, espio as pessoas andando abraçadas, outras cheias de pressa, e o meu peito nessa hora fica, tão cheio de uma coisa doce e apertada que não tem outro jeito senão escorrer a minha desilusão pelos olhos.

Demorou muito pouco a sua pausa e a infeliz seguiu com seu relato:

— Não sei se é alegria, se é saudade de algo que nunca vi. Só sei que choro e me sinto ainda menor por isso…

A pipa de João Eduardo ficou quieta por um instante, só ouvindo e dançando devagar ao sabor do vento. Ela também conhecia aquele sentimento de ser pequena, quase insignificante. Lembrou de um menino perneta que morava perto da margem do rio. Alguns dias atrás, ele tinha dito para o amigo: “Essa pipa do Dudu é frágil. Um vento mais possante e ela se rasga em mil pedacinhos”.

Nesse interregno de tempo, quase que simultaneamente, veio à lembrança da nuvenzinha quantas pipas iguais a que puxara conversa já tinham se perdido naquele céu imensurável, ou caído em árvores, ou se despedaçado no asfalto em frente ao armazém do Zé das Bugigangas.

De fato, sem tirar nem acrescentar, a concepção de vida da pipa de João Eduardo se resumia em ser só de papel, cola, bambu e linha. Nada de mais grandioso. Nenhuma coisa que durasse para sempre.

— Eu sou pequena como pode ver —  disse a nuvenzinha deixando as suas recordações de lado e voltando a falar bem de mansinho.  É por isso, amiga pipa, que as minhas consanguíneas riem e se afastam de mim...

A pipa de João Eduardo tomou fôlego e se abriu, pressurosa: 

— Apesar de eu também não ser grande, saiba que sinto o vento, vejo o mundo de um jeito melodioso. Aprecio o João Eduardo e o primo dele, o Heitor, ambos jogando bola no campinho. Deleito-me espiando a grandiosidade do Morro da Menina da Cabeça Pelada... Como pode ver, minha querida Nuvenzinha, não preciso ser grande para isso. Careço apenas de estar aqui...

Fez uma breve pausa, sorriu matreira e continuou:

— E as suas lágrimas, nuvenzinha? Você acha que elas são à toa? Outro dia, presenciei uma florzinha amarela crescendo sozinha no quintal da minha avó, a Bisa. Ela se fazia escondida numa fenda do muro que acessa a garagem. Estava quase morrendo de sede. Quando você começou a chorar, igual está agora, eu me recordei que choveu três ou quatro dos seus pingos às avessas e eles caíram bem em cima dela. A partir disso, ela abriu as pétalas devagar, se engrandeceu como quem acorda de um sono bom.  Também tem o ar que ficou mais leve, mais cheiroso depois que você mandou lá para baixo a sua chuva quase imperceptível.

Após dizer isso, a pipa fez outra parada e se abriu num novo sorriso ao tempo em que prosseguiu com a sua fala:

— Os meninos lá embaixo, quando sentem seus pingos no rosto, desembestam a sorrir, e o fazem porque pensam que o céu está mandando beijos. Nenhuma daquelas nuvens grandes, que se concentram em trovões e enchem o rio, conseguem fazer isso. Elas são fortes, sim. Mas você… ah, você, minha amiga nuvenzinha é o carinho do céu...

A nuvenzinha parou de soluçar. Os pingos ficaram mais raros, ficaram literalmente leves e mais dóceis. Ela se encolheu um pouco, e por um instante, o sol passou por dentro de sua tristeza, revelando a sua maviosidade ímpar.

Todo o seu interior, num piscar de pálpebras ficou cor-de-rosa, como quem se pega envergonhada de ter sido tão amada sem saber.

— Eu nunca pensei nisso — sussurrou comovida.

Naquele momento o vento virou um pouco a sua trajetória, vindo de onde João Eduardo se encontrava segurando a linha que seguia até a pipa. Ele deu uma puxadinha suave, na verdade era o aviso de que iria começar a recolher. Diante disso, a pipa sentiu que tinha que ir embora.

— Careço de descer agora — sussurrou com uma pontinha de tristeza.  Mas lembre-se: ser pequena não é defeito. É só um jeito diferente de existir. E chorar não é fraqueza. É o coração, o seu “eu” transbordando, porque nele cabe muita coisa dentro, mesmo sendo pequeno...

— Vou lembrar — prometeu a nuvenzinha...

E antes que a pipa começasse a sua trajetória de descida de vez, ela deixou cair uma última lágrima, muito clara, muito brilhante, que rolou, desceu, desceu e desceu… e pousou exatamente na pontinha do nariz de João Eduardo. Ele fechou os olhinhos e sorriu. Sorriu sem entender o motivo. Limpou o rosto com a manga da camisa e foi puxando a linha devagar, trazendo de volta para casa a sua pipa amarela, que agora entre as suas fibras vinha, de roldão, um segredo do céu.

A nuvenzinha ficou lá no alto, sozinha de novo, mas já não se debulhava mais em agonia. De agora em diante, sempre que o seu coração apertasse de tanta beleza, ela deixaria cair um ou outro pingo, desta feita, sabendo que cada lágrima sua iria fazer um bem enorme à alguma coisa ou a alguma pessoa, quem sabe a um outro João Eduardo, ou ainda abrigar um coração solitário que também precisasse de um afago miúdo, quieto e sem explicação. 

Muitas tardes se passaram desde então. Quem hoje olha para o céu, às vezes, vê uma nuvem pequena e branca, passando devagar, e de mãos dadas com ela, uma pipa amarela que parece subir mais alto do que todas as outras em redor, como se fossem duas promessas vindas diretamente dos olhos mansos e aconchegantes de Deus.
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O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma sólida trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Wikinews; Recanto das Letras; Clube de Autores; Confraria Brasileira de Letras; Antonio Miranda; dados enviados pelo autor