domingo, 19 de julho de 2026

José Feldman (O Canto do Rouxinol)


O rouxinol aprisionado num canto,  
nas grades da vida, seu eco é profundo.  
Os sonhos de voar são o seu pranto,  
e as notas perdidas sussurram ao mundo.  
 
Nas folhas verdes, onde o sol desponta,  
a liberdade clama, mas ele não vai.  
Em cada melodia, a vida se afronta,  
e a tristeza no peito que lhe subtrai.  
 
Mas dentro do peito, a canção esperançosa,  
a alma do rouxinol não se esquece de amar.  
Na busca de um ramo, uma vida gloriosa,  
o canto ainda ecoa, mesmo que a chorar.  
 
Um dia, as correntes irão se desfazer,  
e o rouxinol livre poderá renascer. 

Poema de José Feldman (Floresta/PR)

O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.

Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho, balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.

O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte. 

O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de "belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de socorro de uma alma com entretenimento doméstico.

Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define o limite do seu universo.

Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar. É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu, mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele desista de bater?

E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a sua insistência.

Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro não conseguiram apagar.

Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta. O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela metade, com os olhos fixos no vazio. 

Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?

Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à tristeza de vê-lo ali.

Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.

Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem sofre, mas não desiste de esperar o céu.
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     JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título “Magnus Magister” da Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Alquimia do Tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

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