Claudomiro, sentado na cama, fazia uma retrospectiva. Agora, casado há três meses, pensava nas mulheres que namorou. De algumas, prestes a contrair núpcias, desistiu. Rita, para quem responde até hoje um processo de indenização moral, por tê-la deixado em pleno altar, numa espera sem fim. Também, a culpa fora dela mesma, pois, só nos últimos dias de namoro, é que descobriu sua frieza. Adelaide, muito bonita, tinha o grave defeito de, após a refeição, chupar os dentes para retirar os restos de comida que se alojavam em alguma fresta. Podia ser no restaurante, na frente de ministro, presidente, não importava.
A (*), era o nome. Motivo de chacota entre os amigos. Por uns tempos, tudo bem, mas ouvir aquele nome por toda a vida, era demais. Lúcia era a voz. De boca fechada, era uma beleza; mas, quando começava a falar, doíam os ouvidos. Dolores, uma loirona de atrair olhares desejosos, contrariando o estereótipo, era inteligente demais. Sabia de tudo e não tinha nada de que se fosse falar que ela não dominasse. Muitos homens não suportam que sua mulher saiba mais do que ele. Claudomiro ficava deste “tamainho” perto dela. Gildete era gastona demais. Já, nos tempos de namoro, exigia presentes dos bons e frequentar os melhores restaurantes. E todas as datas tinham de ter uma “lembrancinha”. Dia que se conheceram, dos namorados, das crianças, da secretária, dos professores (embora ela só tivesse o diploma), da mulher e mais e mais. Parecia que fazia parte da associação dos comerciantes.
Bruna era a memória. Não conseguia se lembrar de nada. Até o nome dele, de vez em quando, dava um branco e o chamava de Coisa ou então Bem. Andava com papelzinho em tudo quanto era lugar com anotações que, geralmente, perdia. Vanilda, a cultura. Desconhecia qualquer assunto. E dava risada da sua santa ignorância, como se fosse uma glória. “Eu que não vou quebrar minha cachola com essas coisas”, dizia ela em gargalhadas. Nunca ouviu falar em Stanislavski, Máximo Gorki, Maquiavel ou Freud. Dinorá tinha aquela verruga entre os seios que parecia um terceiro. De roupas, tudo bem, mas despida, parecia coisa do outro mundo.
Acertou em cheio ao se casar com Tibúrcia. Fala fluentemente inglês, francês, espanhol e, ainda, arranha alemão. Conhece vários assuntos e evita tocar naqueles que ele desconhece. Nas raras discussões, xinga-o em alemão, que ele não domina, e ele a xinga em japonês, que ela não entende. Mulher doce e sensual. Só na hora de dormir é que ele tem de usar um aparelho auricular para não ouvir os seus roncos, mas tudo bem.
(*) Deixo de mencionar o nome por ser minha amiga e conhecer os seus problemas psicológicos.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.
Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.
