sexta-feira, 24 de julho de 2026

José Feldman (Confusões para todos os gostos)


O Valdir estava arrumando as prateleiras de ração quando ouviu o sino da porta tocar com um som tão forte que quase derrubou o copo de água na balcão.
 
— Bom dia, senhora! Como posso aju… — começou ele, mas parou de vez ao ver dona Maricota com o gato Mimo dentro de uma bolsa de compras rosa.

— Bom dia, Valdir! Trouxe o Mimo para escolher um brinquedo novo. Ele é bem exigente, você sabe.

— Percebo. Mas… por que ele está na bolsa de compras?

— Porque a caixa de transporte quebrou na rua. É mais prático assim. — No mesmo instante, o gato espetou a cabeça por cima da bolsa e gritou um "MIAAAAAU" tão alto que fez os periquitos na gaiola estremecerem.

— Ai, meu ouvido! Ele tem voz de soprano!

— É que ele gosta de cantar. Principalmente quando está incomodado.

— E ele está incomodado agora?

— Pelo jeito, sim. — Aí, Mimo pulou de dentro da bolsa e subiu direto na prateleira dos aquários pequenos.
 
— Valdir, ele está em cima do aquário do peixe-dourado!

— Eu vejo, dona Maricota.

— E ele está mexendo com a tampa!

— Eu vejo.

— Ele vai derrubar tudo!

— Eu… acho que já derrubou. — O aquário caiu no chão com um "PLASHP" e o peixe-dourado nadou desesperadamente numa poça d’água no piso.
 
Enquanto eles corriam para pegar o peixe, entrou o senhor Epaminondas com o cachorro Melão — um bassê que parecia ter o rabo com vida própria.
 
— Olá, Valdir! Trouxe o Melão para cortar o pelo. Ele está parecendo um urso.

— Olá, senhor Epaminondas. Perdoe a bagunça, mas temos um gato na prateleira e um peixe no chão.

— Um peixe no chão? Que modernidade! Eu só vi peixe na tigela, na frigideira ou no prato.

— Não é para comer, senhor! É para salvar!

— Ah, é mesmo? Então Melão não pode ajudar não. Ele só sabe salvar ossos. — Enquanto falava, Melão sentiu o cheiro do gato e saiu correndo, puxando a coleira com tanta força que o senhor Epaminondas resvalou na poça d’água e caiu pra trás.

 — Melão, volta aqui! Meu traseiro está doendo mais que quando eu cai no quintal da vizinha!

— Senhor, não se preocupe — disse Valdir, tentando segurar o cachorro — ele só quer brincar com o gato.

— Brincar? Ele brinca como um torneio de luta livre!

— É verdade, dona Maricota. Ele quase quebrou a minha cadeira semana passada.
 
Naquele momento, chegou uma jovem chamada Lara com um coelho branco na caixa de transporte.
 
— Oi! Venho comprar ração para o Nuvens. Tem ração de coelho que não seja tão seca? Ele é meio caprichoso.

— Oi, Lara. Claro que tem, mas… cuidado com a caixa, que aqui está um pouco…

— Um pouco o quê? — A caixa escorregou das mãos dela e abriu. O Nuvens pulou para fora e correu direto para o saco aberto de sementes para pássaros.

— Meu coelho! Ele está comendo sementes! Vai ficar cheio de penas?

— Não, Lara, ele não vai ficar com penas. Mas pode ficar com barriga cheia.

— E ele está indo para a gaiola dos periquitos!

— Ai, não! — gritou dona Maricota — os periquitos vão voar pra todos os lados!
 
E foi exatamente o que aconteceu. Os periquitos, assustados com o coelho na grade, começaram a voar em círculos, soltando penas por toda parte. O gato Mimo, vendo o caos, pulou da prateleira e foi atrás do Nuvens. O Melão, latindo de alegria, foi atrás do Mimo. E o senhor Epaminondas, de pé mas com a calça toda molhada, foi atrás do Melão.
 
— Valdir, ajude-me! O Mimo está tentando pegar o Nuvens!

— Eu estou tentando, dona Maricota! Mas o Melão está na frente!

— O Melão está na frente porque o senhor Epaminondas não consegue segurá-lo!

— Eu não consigo segurá-lo porque ele é mais forte que um cavalo!

— Cavalo? Ele é um bassê! É menor que o meu gato!

— Menor, mas mais bravo!
 
Valdir, que já estava com penas na cabeça e água na camisa, pegou um saquinho de petiscos para gato e balançou:
 
— Mimo! Venha aqui, tem bolinha de frango!

— Ele adora bolinha de frango! — disse dona Maricota. O gato parou de correr e veio devagar até eles.
 
Depois, Valdir mostrou um biscoito grande para o Melão:
 
— Melão! Venha, tem biscoito de carne!

— Ele não resiste a biscoito de carne! — gritou o senhor Epaminondas. O cachorro sentou na hora, educado.
 
E para o Nuvens? Valdir pegou uma cenoura fresca e estendeu:
 
— Nuvens! Venha, tem cenoura docinha!

— Ele ama cenoura! — disse Lara. O coelho parou e foi lamber a sua mão.
 
Os periquitos, já calmos, voltaram para os poleiros. O peixe-dourado foi colocado em um aquário novo. A poça d’água foi limpa e as penas varridas.
 
— Puxa vida… — suspirou Valdir — hoje a loja foi mais confusa que um filme de comédia.

— Confusa? Para mim foi um terror! — disse dona Maricota — o Mimo quase quebrou tudo.

— O meu Melão quase quebrou meu quadril! — completou o senhor Epaminondas.

— E o Nuvens quase se transformou em um pássaro! — riu Lara.
 
— Da próxima vez, trago o Mimo na caixa de transporte nova — disse dona Maricota.

— Da próxima vez, deixo o Melão em casa com a mulher — disse o senhor Epaminondas.

— Da próxima vez, trago o Nuvens em uma caixa que não escorrega — disse Lara.
 
— E da próxima vez, eu vou colocar uma placa na porta: "Atenção: loja sujeita a imprevistos" — riu Valdir.
 
Todos saíram com o que precisavam e uma história para contar. E Valdir, ao fechar a loja, pensou: "trabalhar com animais nunca é chato — e isso é o melhor de tudo."
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      JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.)

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