Faz anos, era véspera do aniversário de meu afilhado, criança dos seus quatro ou cinco anos. A comadre surpreende-o atirando ao lixo um monte de brinquedos.
“Que é isso, filho?”.
A resposta desconcerta-a: “Ah, mãe, amanhã é meu aniversário. Vai vir tudo novo”.
A comadre não alisa. Faz desabar sobre o pequeno um sermão a respeito de crianças pobres, que se sentiriam felizes com um só daqueles brinquedos que ele estava jogando fora. O compadre reforça a bronca. Conta de sua infância na zona rural. Com os irmãos fabricava os próprios brinquedos utilizando carretéis de linha usados, sarrafos de madeira, vidros de remédio vazios e outras peças.
“O pai e os tios, meu filho, nem sonhavam com um brinquedo desses que enchem o seu quarto. Um só já nos tornaria felizes. Mas a gente não tinha dinheiro”.
Confrange-se o coraçãozinho do garoto. Ele cai num pranto sentido, que pai e mãe precisam consolar.
Dias depois, na pia da cozinha aparece aberto um potinho de iogurte quase cheio. A repreensão vem na hora: “Filho, se você não aguentava tomar um inteiro, por que abriu? Quantos pobrezinhos desejam um iogurte...”
Rápido, ele corta o discurso: “Ih, pai, não vem de novo com esse papo dos pobres, que outro dia eu fui obrigado a chorar por causa deles”.
A cena acontece todos os dias numa infinidade de lares brasileiros. Infelizmente, nem todos os pais são educadoras como o compadre e a comadre. Boa parte se preocupa com cortinas, camas, sofás e roupas. Cuidam que restos de comida ou bebida não os emporcalhem. Cuidado cosmético, beleza externa para os outros verem, só isso.
O desperdício é hábito generalizado, que importa combater desde cedo. A criança não tem ideia do uso correto das coisas. Não sabe se está gastando muito ou pouco. Precisa de orientação sobre o sentido exato de quantidades e valores. Senão, vai se acostumar com o esbanjamento. Se os pais não transmitem, também no consumo, noções de disciplina – pior, se eles mesmos dão exemplo de gastança irresponsável –, será difícil corrigir vícios arraigados no povo.
O acesso à comida de qualidade e em quantidade suficiente é direito de toda pessoa, de qualquer condição, em qualquer lugar do planeta. Como se tornar gente, na plenitude do termo, sem poder se alimentar?
A este absurdo chegamos: países cheios de pessoas doentes por comerem em excesso, enquanto em outros a população vem sendo exterminada pela fome. Dentro do Brasil convivemos com ambas as situações. Por isso, os bispos sentiram necessidade de se pronunciarem. Foi um grito em defesa das populações carentes deste país imenso. Temos gente desperdiçando, ao lado de quem não possui o necessário para comer.
O problema vem de longe. Não será resolvido da noite para o dia. Mas é preciso que todos se sintam comprometidos. Não adianta ficar lançando a culpa nas costas dos outros. Para o faminto pouco importa quem provocou a fome. O que ele quer é comida.
Nas propostas concretas, sugerem-se medidas possíveis, algumas bem simples, como “educar para o melhor aproveitamento do alimento produzido, evitando todo o desperdício”.
É urgente começar dentro de casa, educando as novas gerações. Como, desde muito, fazem os compadres.
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Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.
Fontes:
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.
