quinta-feira, 30 de julho de 2026

Marcelo Henrique Marques de Souza (A gangorra)


Depois de velho, visitava a velha cidade da infância. Digladiava-se em silêncio. Por um lado, tudo tão diferente, o progresso passando a perna nas lembranças; por outro, o contraste que algumas ruas de terra batida resistentes produziam com a distância estrangeira a que se submetera, ao escolher a cidade grande, há mais de três décadas.

Ao contrário do que geralmente acontece, foi ele a abandonar a cidade natal e não os filhos. Plantou as sementes e cortou as raízes. Voou, folha de outono, a trair as cercas de casa.

Abandonou o ritmo compassado do pequeno lugarejo, para aportar no mar de ilhas nômades da selva urbana. Trocou o povoado solitário pela solidão compartilhada da terra das multidões.

Queria, entretanto, visitar o neto. Recebera-o em casa, quando ainda de colo, mas desejava vê-lo andar com as próprias pernas, tropeçar nos próprios impasses, sem o abrigo excessivo de todos aqueles colos.

O neto devolveu-lhe o abraço com um sorriso tímido e um silêncio respeitoso, desses de quem passa pela ponte de um rio imenso. E então o velho sentenciou, Vais com o vô, dar uma volta na praça. O menino, de lá de baixo dos seus seis anos, olhou para a mãe, à espera do sinal verde. – Voltem para o almoço...

A praça tinha traços do passado e do presente. O coreto permanecia, mas com outra pintura. A velha estátua do poeta ainda servia de palanque ao sarau dos pequenos pássaros. Enquanto que os velhos brinquedos, gangorras, balanços e cubos labirintos, agora dividiam espaço com uma espécie de horto, separado do resto por uma grade comprida, porém espaçada.

Depois de passear um pouco, avô e neto decidiram, em silêncio, pela gangorra. Uma forma de conciliarem o afã do menino com o cansaço do velho.

Nas grades do horto, insinuava-se uma comprida trepadeira, natureza que insiste, apesar de todo o espaçoso mundo humano. O menino fitou-a com a escada dos olhos, enquanto descia no suave balé da gangorra.

Os olhos do velho buscavam o nó que ancorava o encontro. A esperança de que o neto crescesse livre dos tropeços do destino. Sentimento que nutria mais por obrigação do que por experiência. Sabia que o destino não admite delírios retilíneos. Que a vida acaricia, mas também agride.

Conduzia a gangorra com cautela, distância segura dos extremos. O neto ainda perdia os olhos nas curvas da estranha corda vertical.

Na cordilheira dos instantes, o sol abraçava o ambiente inteiro. O dia corava e corria, pincel de pequenos plágios. O baralho dos velhos, as mães e as proles, coração da vida que pulsa.

Somos todos analfabetos de futuro. E, entretanto, como somos também algo reféns do passado, deliramos o presente, a exigir redundâncias em excesso. O avô desenhando, dedos de Narciso, o asfalto do porvir do neto. Ao mesmo tempo em que sabia que no mapa do tempo não há estrada sem neblina, buracos ou encruzilhadas febris.

Vô, essa corda cresce até o céu?, o menino interrogava, sem desgrudar os olhos do topo do horto. Uma dessas perguntas que foge do script. Teatro sem roteiro. Esse voo da infância, que desconhece a gaiola da gravidade.

Eu nunca vi nenhuma chegar ao céu. Mas quem sabe?... Essa um dia vai chegar...

Nesse instante, um avião cortou os céus. Como se sonho da trepadeira a enfeitiçar a cena. Gritava a sua pressa, ignorando a mesma gravidade que um dia desceria o menino da sua liberdade sem mapas. A mesma gravidade que agora cambaleava da estrada firme do avô, que vacilava entre a planta e a aeronave.

Um pequeno tranco trouxe o velho de volta. O neto caído, subitamente. O corpo pesou para frente, tombando expatriado na gangorra. Solavanco violento no pequeno coração. Era grave. Todos os projetos pleonásticos perdiam agora o sentido. Era preciso correr. Antes que a trepadeira chegasse ao seu destino cedo demais.
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MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA é um escritor, ensaísta, poeta, pesquisador e professor brasileiro, cuja trajetória ganhou repercussão pública não apenas por sua produção intelectual, mas também por sua comovente história de superação pessoal contra a depressão severa. Nascido em 1975 reside e atua profissionalmente na cidade do Rio de Janeiro, com fortes vínculos na Zona Norte (bairro da Tijuca). Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Candido Mendes em 2006. Concluiu o mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atuou fortemente na educação básica e no ensino superior como professor de Filosofia, Literatura, Redação e Teoria em faculdades de pedagogia e colégios particulares no Rio de Janeiro. Diagnósticos de depressão profunda iniciados em 2007 culminaram na perda de seus empregos. Entre 2018 e 2019, o professor enfrentou uma crise financeira extrema e passou a viver temporariamente em situação de rua na Avenida Maracanã (Tijuca), carregando consigo apenas seus livros e referências filosóficas. A repercussão do caso gerou correntes de solidariedade para sua reinserção social e médica. 
Sua escrita transita principalmente pelo ensaio acadêmico, crônicas, contos e pela poesia reflexiva. É autor de pelo menos oito livros publicados ao longo de sua carreira, podendo-se destacar: "A viralatice brasileira: transformática para o Quarto Império": Importante dissertação e ensaio publicado via Repositório Institucional da UFJF, onde analisa criticamente o "complexo de vira-lata" sob a ótica da identidade nacional; Textos e contos avulsos como "No fundo da estante". Embora seja um autor prolífico com múltiplos livros editados e reconhecido no meio universitário da comunicação/letras, Marcelo construiu sua carreira de forma majoritariamente independente e acadêmica, não figurando nos registros tradicionais das grandes academias jurídicas ou imortais de letras, nem com premiações comerciais de grande porte.
A real relevância de Marcelo reside na intersecção entre a erudição clássica e a vulnerabilidade humana. Mesmo nos momentos mais difíceis de sua condição psicossocial, ele manteve a produção e a defesa do livro como ferramenta de dignidade. Sua pesquisa sobre a comunicação e a "viralatice" no Brasil ajuda a compreender as dores da cultura e da política nacional. Na esfera social, sua história tornou-se um símbolo contemporâneo urgente sobre a necessidade de suporte à saúde mental de professores e intelectuais no país.

Fonte:
Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (org.). Coletânea de contos & crônicas.. Vitória : EDUFES, 2015. (Coleção II Prêmio UFES de Literatura)
Biografia: Escavador, Portal R7, II Prêmio UFES,  O Globo.

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