Amanda, carioca de Copacabana, todos os dias acordava bem cedinho, bebericava seu café e, sem mesmo se preocupar se estava ou não com os cabelos no lugar, corria para a praia. Já bem pertinho do mar, sentava-se, fechava os olhos e apenas sentia todo aquele aroma vindo das ondas, que quebravam mansinhas nessa quase aurora. Todos os dias, lá estava aquela mulher sentada na areia, como se todos já soubessem que ela já fosse parte da bela paisagem.
Não fazia muito tempo, porém, Amanda tinha pegado Covid-19. Na época não havia vacinas disponíveis para a população e, mesmo tendo sofrido horrores com o tal vírus, ela conseguiu sobreviver. Quase totalmente recuperada, a mulher retornou para seu apartamento, onde se manteve isolada durante um período. Queria refletir sobre a própria morte, já que quase havia partido desta para melhor. Não exatamente isso, pois quem mora em Copacabana dificilmente irá se deparar com algo mais divertido no outro lado.
Seja como for, os dias foram passando até que Amanda resolveu retomar a sua rotina. Acordou antes mesmo que os primeiros raios solares brindassem a sua janela. Quase queimou a boca com a quentura do café, mas nem ligou. Deixou a xícara já vazia sobre a pia da cozinha e correu para o mar.
Já sentada diante das ondas, Amanda sentiu falta de alguma coisa. Algo a incomodava, mas todos ao redor pareciam não perceber, pois passavam e apenas a olhavam, como que felizes por ter aquela paisagem novamente brindada pela presença tão familiar da Amanda. No entanto, de repente, uma lágrima escorreu pelos seus lindos olhos de um castanho profundo. Ela havia percebido que não conseguia mais sentir aquele cheiro tão característico dos que vivem próximos à praia. Amanda refletiu: "Poucas coisas são mais cariocas do que a maresia!”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.
Fonte:
Blog do Menino Dudu. 02.06.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/06/coisas-cariocas.html
