SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP
Com a bagunça rolando,
sem ter mais o que falar,
chilique, de vez em quando,
bota tudo no lugar!!!
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Soneto de
RAYMUNDO CORREA
(Raymundo da Motta de Azevedo Corrêa)
Mogúncia/MA (1859 – 1911) Paris/França
As Pombas
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguinea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
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Aldravia de
FABRÍCIO AVELINO
Barbacena/MG
lua
crescente
em
quarto
minguante
adolescente
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS
Inscrição para um Portão de Cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!”.
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Trova Premiada de
ADAMO PASQUARELLI
São José dos Campos/SP
Num mundo congestionado,
em qualquer parte da terra,
o lema está consagrado:
"Se queres paz, vai à guerra".
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Poema de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP
Belos Tempos
Belos tempos, na infância, eu pude vivenciar.
Muitas brincadeiras nas ruas calmas:
de pega-pega, de roda, de cordas, de casinhas,
e muitas outras, de tirar o chapéu e bater palmas,
com as crianças vizinhas.
Belo tempo teve a minha adolescência...
De descobertas, de incertezas, de contestação!
De olhares lânguidos e de efervescência.
Do culto ao modismo e da secreta paixão...
Belos tempos... Os da minha juventude!
A faculdade, o estudo e o trabalho escolhido.
Os bailes, o grupo de amigos, a plenitude!...
O namoro não mais escondido.
Belos tempos... Vivi na maturidade,
aprendendo e transmitindo conhecimentos.
Ensinando tive a oportunidade
de o sonho concretizar e viver belos momentos.
Belos tempos... Usufruo hoje, muito bem,
com novos tipos de aprendizagens;
muitas surpresas e descobertas também!
Feliz, divirto-me em minhas viagens!
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Quadra Popular
Morena, minha morena,
minha flor de melancia,
um beijo da tua boca
me sustenta todo o dia.
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Soneto de
PAULO BONFIM
(Paulo Lébeis Bonfim)
São Paulo/SP, 1926 – 2019
Soneto dos muitos eus
Um eu ficou no mar aprisionado
E deixou-me por pés as nadadeiras;
Outro ficou nas nuvens caminheiras,
Por isso bato os braços no ar parado.
Um eu partiu menino ensimesmado
E ofertou-me palavras verdadeiras,
Outro amou suas sombras companheiras,
Outro foi só, e um outro de cansado
Caminhou pelos becos. Há também
Aqueles que ficaram na poesia,
Nos bares, na rotina, o eu do bem,
Do mal, o herói, o trágico, o esquecido.
Eu gerado por mim na liturgia
De um todo para tantos dividido!
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Trova de
SONIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016
Entre todos os recantos
é aqui que me sinto bem:
- o meu lar tem tais encantos
que outros lugares não têm!
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Poema de
ANDREIA DONADON LEAL
Mariana/MG
Sonho V
Imagens são sonhos afetos
colam nas telas
nas fotografias
e lembram alguma coisa
de esculturação natural
imagens são sonhos afetos
a beijar uma superfície
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Haicai de
JOÃO TOLOI
São Paulo/SP
Em meio ao pomar
Mulheres entoam canções
Colhendo goiabas.
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Sextilhas de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE, 1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ
Sou romântico? Concedo.
Exibo, sem evasiva,
A alma ruim que Deus me deu.
Decorei "Amor e medo",
"No lar", "Meus oito anos"... Viva
José Casimiro Abreu!
Sou assim por vício inato.
Ainda hoje gosto de Diva,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro... Viva,
Viva José de Alencar!
Paisagens da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
- Pinhões para o rouxinol!
Frio, nevoeiros da serra
Quando a manhã se levanta
Toda banhada de sol!
Ai tantas lembranças boas!
Massangana de Nabuco!
Muribara de meus pais!
Lagoas das Alagoas,
Rios do meu Pernambuco,
Campos de Minas Gerais!
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Trova Humorística de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP
Se deu bem mal minha amiga,
e agora não tem mais jeito:
Escorregou pra barriga
o silicone do peito.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE
MOTE:
Cai no trilho e a triste sina
maldiz tanto o beberrão:
essa escada não termina
e é tão baixo o corrimão!
Therezinha Dieguez Brisolla
(São Paulo/SP)
GLOSA:
Cai no trilho e a triste sina
daquela alma embriagada,
foi confundir, na neblina,
que trilho não é escada!
Patinando no chapuço*
maldiz tanto o beberrão,
fazendo rir do "pinguço"
os que estavam na estação!
O "bebaço, ante a mofina*,
dizia, só por chalaça*:
- Essa escada não termina...
Era o efeito da cachaça!
Para completar a troça
o "pinguço" beberrão
ainda fazia mangoça*:
... e é tão baixo o corrimão!
…………….
* Vocabulário:
Mofina: infortúnio, má sorte
Chalaça: gozação
Chapuço: Poça de lama
Mangoça: zombaria, deboche
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Aldravia de
CESCOHOTADOYBOR
(Carmen Escohotado Ibor)
Madri/Espanha
verão
o
calor
roda
seu
chão
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC
Tarde nevoenta... em julho
Domingo sem ninguém...A casa está vazia.
O silêncio no horror persistente blasfema.
Quer se fazer ouvir. Ó tolo estratagema!...
Eu posso ouvi-lo bem, mas qual a serventia?
A solidão nem quer me servir como tema...
...e a tarde se espezinha imensamente fria...
Ó Tristeza, vem cá! Se queres companhia
ajuda-me a cerzir pedaços de um poema
Talvez assombrações que possuam prestígio
se queiram embutir em tercetos, com zelo,
para dar-lhe feições de soneto-prodígio.
Alguém se desmanchou em brumas do passado
e quer ressuscitar de cor, num atropelo.
Se lembrar é viver, eu devo estar errado.
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Trova Premiada de
ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA
Sete Barras/SP, 1929 – 2018, São Paulo/SP
Torna um sonho em realidade
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.
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Poema de
CAMILO PESSANHA
Coimbra/Portugal, 1867 – 1926, Macau/China
Viola Chinesa
Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.
Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asinhas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa…
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Triverso de
PAULO MARCELO BRAGA
Belém/PA
A poesia do teu sorriso,
pode ter a certeza disso,
é a terapia que preciso.
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Setilha de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN
Fico muito contente quando soa
o baião da viola nordestina
num alpendre singelo e acolhedor,
quando a noite inspirada descortina
sobre o cume das serras do sertão,
e era mais carregado de emoção
na brandura da luz da lamparina.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Eu vou indo... vou levando...
assim como a vida deixa...
vou sonhando... vou rimando...
seguindo a vida... sem queixa!...
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Hino de
JOAÇABA/SC
Letra: Miguel Russowsky
De montanhas diadema
No vale do Rio do Peixe
Minh´alma canta poemas
Risonhas safras em feixe
Que eu espalho de bom grado
Nos suaves sulcos do arado
Se as videiras são serenas
Nos verões fazendo abrigo
Nas primaveras amenas
Enfeito os morros de trigo
Nos outonos, nos invernos
Os meus lares são mais ternos
O meu nome é Joaçaba
Sou alegre e hospitaleira
Tenho amor que não se acaba
Desta terra brasileira?
A quem vir morar comigo
Dou carinho e dou abrigo
A quem vir morar comigo
Dou carinho e dou abrigo.
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Poetrix de
FÁBIO ROCHA
Rio de Janeiro/RJ
separação
o leão na gaveta
junto com o retrato:
sem ver, vejo de fato
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR
Aparência e realidade
O som de minha voz inutilmente
acontece, sem cor e sem motivo.
Tão diverso é o real mundo que vivo
da hora em que pareço estar presente.
É presença enganosa, que desmente
outra força suprema — a do furtivo
viver por dentro, onde, devota, arquivo
ignotos pulsares da alma ardente.
A voz que fala, o riso, a cor que é vista
é invólucro somente, e bem despista
do meu ego a essência, a vida inteira...
E, assim, esta duidade faz-me artista
na arte de viver de forma mista:
a que parece ser.,. e a verdadeira.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
Bom vento que vens das serras
ou dos campos ou do mar,
varre os ódios, varre as guerras,
deixa o amor enfim reinar!
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Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris
O Conselho dos Ratos
Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome.
Sua alcunha — Esgana-ratos.
As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;
Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais muchucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.
Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês.
Sim por um vivo diabo.
Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.
Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.
Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:
"Enquanto o permite a noite.
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.
Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.
Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo:
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.
Bem que ande com pés de lã.
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir'".
Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem Fizesse a diligência.
"Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão.
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.''
— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!
— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: "Eu não, eu não!"
Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.
Assim mil coisas que assentam
Numa assembleia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que tem dente de coelho.
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