sábado, 4 de julho de 2026

Caetano W. Galindo (O grande escritor)

O grande escritor havia já semeado sobre o mundo bela meia dúzia de grandes livros. Ele deveria ser tido como responsável por nada mais que boa, muito boa, meia dúzia de grandes livros. Repetir antes das refeições.

Contudo o grande escritor tinha entre seus feitos amealhado belo milhar de grandes fãs. Admiradores. Responsabilidades?

Ele muito possivelmente não sabia disso com qualquer grau de precisão. E muito provavelmente (o grande escritor era de natureza particularmente reclusa, especialmente em tempos de quase patológica exposição midiática, sequer tendo seu próprio website, não dando muitas entrevistas: quando se casou, a notícia levou meses para surgir na internet: Talvez esse itálico seja desnecessário. O grande escritor, afinal, sublime manejador de itálicos e outras convenções gráficas, parecia ainda acreditar que podia levar uma vida algo independente da mídia e do milhar de admiradores que seu trabalho sempre incansável, brilhante e original com a palavra escrita e com as almas humanas que manipulava como compositor e como regente de seres lhe havia amealhado) pouco se importava com essa ou qualquer outra quantificação. Distinção.

Era talvez por isso mesmo que havia conseguido se tornar um grande escritor e, mais especificamente, o grande escritor que era.  

Cerca de cinco anos antes do momento em que se passa a angústia, esta angústia, o grande escritor havia aceitado participar de um programa de resident writers em uma grande universidade norte-americana. Como parte de seu contrato, para além de um período de efetiva residência no campus da dita universidade norte-americana, período esse entremeado por seminários e palestras diversos de diversa natureza, havia a obrigatoriedade de, transcorridos os xis meses dessa estada, o grande escritor participar de um grande evento coletivo (junto de outro escritor, significativamente menos ‘grande’ que o grande escritor como escritor, conquanto em tudo e por tudo equiparável a ele como ser humano que percorre o mesmo vale de lágrimas. Realçar.) em que seria entrevistado por um dos professores daquela grande universidade norte-americana antes de terminar a noite com a leitura de alguns fragmentos (de qualquer natureza: muitos ou um, com a duração desejada de cerca de trinta minutos em leitura pausada, conveniente a situação semelhante) da literatura que lhe as musas houvessem outorgado compor durante os xis meses em que fora alimentado pelos milionários que doavam suas fortunas à grande universidade norte-americana e pagavam ainda tuitions extorsivas para nela verem seus filhos, futuros presidentes, ceos e, por que não, ‘grandes’ grandes escritores, sendo que a referida universidade contava, como de regra, com um programa de creative writing, e contava na verdade sondar o grande escritor (ainda jovem e vinculado de forma algo insatisfatória a uma não-tão-grande universidade norte-americana) a respeito da possibilidade de vir ele a ocupar a recém-criada cadeira Walt Disney de redação criativa naquela instituição. (Esses filhos também tenderiam a doar parte significativa de suas futuras fortunas a sua alma mater. Era a ideia.) 

Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade, e posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.

Neste momento, transcorridos cerca de cinco anos daquela leitura alguns dos fragmentos e mesmo um conto completo lido naquele momento já haviam sido encontrados em livros efetivamente publicados pelo grande escritor.

Mas não todos.

Dois deles se mantinham inéditos.

Ambos tratavam de meninos. Homens. Homens que ainda não eram. Meninos em algo que o leitor (leitor das obras do grande escritor, nesse momento ouvinte, no entanto – nesse e em muitos outros subsequentes [momentos], pois que retornava incessantemente aos arquivos na internet que registravam a leitura daqueles fragmentos) convencionou definir como ritos de passagem, momentos de transição. Momentos de formação. Ele. É que convencionou. Frisar.

Por sua única conta e único seu risco; não pequeno, ver-se-á.

O primeiro deles (menino, não fragmento) era menos interessante. Aliás, era precisamente sua natureza não-interessante o assunto do “fragmento” (e as aspas se revestiam cada vez de muitos e mais significados muito e mais profundos e diversificados para o “leitor”). Ponto.

Era um menino basicamente perfeito, em um momento perfeito. Ele montava sua festa de aniversário e, nela, propiciava ao narrador todas as oportunidades de iconizar em um momento chave (a festa de aniversário = o rito de passagem) as características que formavam sua perfeição.

Ele não queria presentes. Pedia que as pessoas enviassem, ao invés disso, pequenas somas de dinheiro (que não fossem lhes fazer falta) para instituições de caridade (afinal de contas, havia tantas pessoas que tinham necessidades tão mais sérias que as suas [dele, menino em questão [Isso era óbvio, já]. E eram comentários de teor semelhante aos que estão aqui entre colchetes que, mais que os fatos em si, representavam a irritante perfeição do menino, nítido símbolo de toda uma classe culpística da sociedade americana.

O grande escritor era americano.

Sua festa seria toda servida em material descartável, reciclável... assim por diante.

Ninguém comparece.

Ninguém suporta a perfeição absoluta do menino que, conquanto expressa de forma a levantar os pelos de qualquer leitor minimamente sensível a lugares-comuns de caridade e boas-intenções das classes elevadas, não deixava, por um minuto sequer, de representar de fato fatos e informações inquestionavelmente bons.

(Da necessidade de se aprender a necessidade de se italicizar o adjetivo bom.)

O rito de passagem.

O segundo era muito mais inventivo, e também desenvolvido mais longamente.

Tratava de um menino, bem mais novo que o anterior, talvez com cerca de oito anos de idade, que se dedicava, de início levianamente, depois com uma dedicação insana que o isolava de todo o resto do são convívio social e o levava a se enfiar em leituras e estudos médicos e anatômicos (o que propicia também ao narrador largo campo para verdadeiras incursões ensaísticas em torno das mesmas questões, potencializando assim a aparente trivialidade da situação do menino, discutida em termos médicos frios, e apenas mensurada em seu todo impacto emocional e humano pela figura do pai que, imóvel, se colocava contra a porta do quarto do filho e, mudo, ficava ali sem entrar, sem bater, preso ele a sua angústia, incapaz de tocar a de seu filho), à tarefa autoproposta de tentar tocar com seus lábios (e a recusa do narrador em usar o verbo beijar mais uma vez demonstrava o ângulo e a distância que tinha se proposto) todas as partes de seu corpo. Ele se dedicava a tal.

E anotava em um caderno todas as partes que já tinha tocado. E pelas quais imediatamente perdia interesse.

Tocado o períneo, era partir para a parte de dentro do joelho. Sublinhar a frieza.

O menino, em sua monomania, se lesionava. O menino se deformava e seus professores começavam a reclamar de seus lábios (artificiosamente distendidos por séries de exercícios específicos) que lhe davam um ar vagamente sorridente, vaga, mas concreta e incomodamente, lúbrico.

O menino parecia perdido.

E acima de todo o processo restava a sombra da expectativa dos locais (sua nuca, o espaço entre os ombros, nas costas.) que jamais poderia tocar.

Ritos de passagem.

Passados os anos todos, o leitor passou a se conformar com a ideia de que o grande escritor apenas poderia estar preparando um imenso romance mosaico (imenso, devido à conhecida prolixidade do grande escritor) a respeito dos momentos singelamente terríveis e horrendamente cotidianos que regem a criação de homens, a cada dia, em cada canto daquela América.

Baseado em nada mais que sua expectativa. Mesmo.

Nem mesmo boatos na internet (e as comunidades dedicadas a discutir a obra e a vida do grande escritor pululavam por todos os cantos da rede) vinham acudi-lo em suas suspeitas. Sozinho. Trancado em seu apartamento, dedicado à tarefa de reler ciclicamente toda a produção do grande escritor enquanto mineirava a web em busca de confirmação, em busca de certeza.

Ele desenvolveu todo o arcabouço do novo romance, que seguiu adaptando à medida que o grande escritor publicava novos livros de contos (mas ainda não um terceiro romance, ainda não o romance que seria o ápice definitivo de sua carreira) que revelavam clarissimamente evoluções, mudanças, correções de trajetória. Ele precisava adequar o novo romance do grande escritor, afinal, a o que de fato o grande escritor parecia estar se tornando.

E o novo livro ia se formando mais e melhor. Muito. Muito melhor...

A grande obra de um grande escritor. Definitivamente definitiva. E o leitor, sentado na cama, sorria ele também de forma algo preocupante (algo lúbrica?) ao vislumbrar a perfeição do romance que apenas o grande escritor poderia escrever. Ele. Ele era incapaz. Ele não era grande. Nem era escritor.

Em seus momentos mais desesperados ele temia que nem mesmo o escritor fosse grande à altura da grandeza daquele romance inexistente. Mas ele o estava escrevendo...?

E tudo que o leitor mais temia agora era o lançamento de um novo grande romance do grande escritor, que jamais poderia igualar o seu romance do grande escritor. E que poderia mesmo representar o definitivo engavetamento daqueles fragmentos (experiências vãs, teria pensado ele, que não valem mais o papel em que seriam impressas neste ponto da minha carreira... quase me arrependo de ter escrito) e da ideia de que eles poderiam ter sido importantes a ponto de justificar dez, mais, anos de maturação e desenvolvimento.

Escritores são vis.

Seria traído de maneira indizível.
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CAETANO WALDRIGUES GALINDO é um dos mais importantes intelectuais, tradutores e escritores do Brasil contemporâneo. Reconhecido internacionalmente por traduzir clássicos de extrema complexidade e por aproximar a história da língua portuguesa do grande público, ele desempenha um papel fundamental na renovação e na acessibilidade da literatura no país. Nasceu em Curitiba (PR), em 1973, construiu sua vida pessoal e profissional em Curitiba, cidade onde reside até hoje. Começou sua formação como violonista clássico, mas uma lesão na mão o obrigou a abandonar o conservatório e o direcionou para as Letras. Aprovado em concurso público aos 24 anos, tornou-se professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1998, onde leciona Linguística Histórica e História da Língua Portuguesa. É doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP).
Sua consagração literária aconteceu no campo da tradução. Ele passou anos dedicando-se a verter para o português brasileiro o monumental Ulysses, de James Joyce. Traduziu mais de 60 livros de gigantes da literatura mundial, como Thomas Pynchon, David Foster Wallace, J. D. Salinger, T. S. Eliot e Charles Darwin. Ao contrário de escritores de perfil mais tradicional, Caetano Galindo não pertence a academias de letras. Sua atuação dá-se estritamente no ecossistema universitário, de pesquisa e no mercado editorial.
Sua célebre tradução de Ulysses e seus livros de ensaio receberam as distinções mais cobiçadas do país: Prêmio Jabuti (2013) – Categoria Tradução; Prêmio da Academia Brasileira de Letras / Paulo Rónai (2012); Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, 2012); Prêmio Paraná de Literatura (2013) – Pelo livro Ensaio sobre o entendimento humano; Prêmio Euclides da Cunha da ABL (2026) – Escolhido como o melhor livro de não-ficção do ano por Na Ponta da Língua.
Livros Publicados: Onze poemas (Poesia); Sobre os canibais (Contos, 2019); Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (Ensaio/Guia, 2016); Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português (Divulgação científica, 2022/2023); Lia: cem vistas do monte Fuji (Romance, 2024); Ana Lívia e outras mulheres (Dramaturgia, 2024); Na ponta da língua: nosso português da cabeça aos pés (Linguística/Etimologia, 2025); As cidades (Poesia).
A relevância de Caetano W. Galindo para as letras nacionais sustenta-se em três pilares fundamentais:
1. A Desmistificação de Clássicos: Ao traduzir James Joyce com uma linguagem viva, inventiva e genuinamente brasileira, ele provou que a alta literatura experimental não precisa ser árida ou inacessível. Ele abriu as portas de obras complexas para gerações de novos leitores no Brasil.
2. Popularização Criativa da Linguística: Com obras como Latim em Pó, Galindo tornou-se o maior divulgador da história da nossa língua. Ele retirou a filologia das gavetas acadêmicas e explicou a evolução do português falado no Brasil com humor, leveza e paixão, gerando um forte sentimento de orgulho e identidade linguística nos leitores.
3. Versatilidade Artística: Poucos intelectuais conseguem manter o rigor científico de um doutor em linguística enquanto escrevem peças de teatro, romances ficcionais contemporâneos e poesias de alta qualidade, consolidando-se como uma das mentes mais brilhantes e multifacetadas da cultura brasileira atual.

Fontes:
Caetano W. Galindo. Ensaio sobre o entendimento humano: contos. Curitiba, PR : Secretaria de Estado da Cultura : Biblioteca Pública do Paraná, 2013.
Biografia = SESC SP, Wikipedia, Rascunho, Via Editorial, Companhia das Letras, UFPR, Círculo de Poemas, etc.