Nas profundezas dos vales dos Cárpatos, onde as florestas de abetos sussurram segredos antigos e a névoa dança como espíritos ao amanhecer, ficava a aldeia de Valea Verde. Lá vivia o velho Moșneagul. Ele era o homem mais antigo da região, com uma barba branca que tocava o peito e olhos brilhantes como duas brasas sob as sobrancelhas espessas. Para o povo da aldeia, Moșneagul era a própria personificação da sabedoria ancestral, um guardião das tradições que mantinham o equilíbrio entre o mundo dos homens e os mistérios da natureza.
Em uma noite de outono, quando o vento uivava forte anunciando a chegada precoce do inverno, um jovem camponês chamado Ion bateu à porta da cabana dele. Ion estava inquieto, com o coração cheio de ambição e a mente nublada pela pressa da juventude.
— Moșneagul, preciso de sua ajuda — disse Ion, cruzando os braços. — Quero cortar a velha macieira que fica no topo da colina sagrada. Ela ocupa um espaço valioso onde posso plantar trigo e enriquecer mais rápido. Mas os anciãos dizem que é um pecado, que a árvore é protegida. Isso é apenas superstição de velhos!
Moșneagul olhou para o rapaz com serenidade. Não o repreendeu. Em vez disso, convidou-o a sentar-se junto à lareira e ofereceu-lhe uma caneca de chá de ervas colhidas na lua cheia.
— Sente-se, Ion. Antes de empunhar o machado, ouça o que o tempo tem a lhe dizer — falou o velho, com uma voz profunda que parecia ecoar o som das montanhas.
O velho ajeitou sua căciulă (chapéu tradicional de lã) e começou a contar:
— Aquela macieira não foi plantada por mãos humanas comuns. Ela foi deixada ali pelos nossos antepassados há mais de três séculos, como um pacto de respeito com a terra. Suas raízes profundas seguram a encosta da colina. Quando as grandes chuvas de primavera chegam, é aquela árvore que impede que a lama deslize e soterre a nossa aldeia. Além disso, a tradição diz que o primeiro fruto daquela árvore deve sempre ser deixado para os pássaros e para os viajantes cansados, como um ato de gratidão e generosidade.
Ion bufou, impaciente.
— Mas ela está velha, Moșneagul! Quase não dá frutos. Por que devemos proteger algo que já passou do seu tempo de glória? O progresso não pode esperar por histórias antigas.
Moșneagulul sorriu com paciência e apontou para o fogo.
— Veja esta chama, Ion. Ela consome a lenha seca, mas aquece o nosso corpo e ilumina a escuridão. As tradições são como essa lenha. Elas podem parecer antigas e sem vida para quem olha de fora, mas são elas que mantêm o fogo da nossa identidade aceso. Se você cortar a árvore por ganância, quebrará o elo de proteção que nos une aos que vieram antes de nós e aos que virão depois. A pressa colhe o fruto verde; a paciência colhe a doçura.
Ion ficou em silêncio por um longo tempo, observando o reflexo das chamas nos olhos sábios do Moșneagul. Ele sentiu o peso das palavras e a força da proteção que aquele velho representava — não apenas para ele, mas para toda a linhagem da aldeia. A ganância em seu peito começou a derreter como o gelo ao sol. O rapaz percebeu que a riqueza que procurava na terra não valia o sacrifício da harmonia e do respeito sagrado pelas origens.
No dia seguinte, o machado de Ion permaneceu guardado. Em vez de derrubar a macieira, o jovem subiu a colina e limpou as ervas daninhas ao redor de suas raízes, garantindo que ela vivesse por muitas outras gerações.
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A sabedoria das tradições não é uma corrente que prende o homem ao passado, mas uma raiz profunda que o sustenta e protege no presente. Ignorar os ensinamentos dos mais velhos em nome do lucro imediato nos deixa vulneráveis às tempestades da vida, pois quem não respeita suas origens perde o mapa para o futuro.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia. Desde cedo, demonstrou uma paixão inata pela literatura e pela arte das palavras. Ele cresceu em um ambiente que refletia a rica herança cultural da sua cidade, onde a música e a poesia se entrelaçavam nas conversas cotidianas. Após concluir o ensino médio, ingressou na Universidade, onde se destacou em seus estudos de literatura. Sua dedicação e talento o levaram a continuar sua formação acadêmica, culminando em um pós-doutorado. Durante esse período, ele mergulhou na obra de grandes poetas romenos e internacionais, desenvolvendo um estilo próprio que misturava o lirismo clássico com uma abordagem contemporânea. Em 1992, tomou a decisão de se mudar para o Brasil, em busca de novas oportunidades e experiências. Ao chegar ao país, ele se estabeleceu em São Paulo, onde rapidamente se destacou como professor de literatura. Suas aulas eram conhecidas pela abordagem criativa e envolvente, inspirando os estudantes a apreciar a literatura de maneira profunda e significativa. Além de sua carreira acadêmica, cultivava uma paixão pelo xadrez. Ele se tornou um jogador forte e respeitado, participando de torneios e promovendo o jogo entre seus alunos. Dragomir acreditava que o xadrez, assim como a literatura, era uma forma de arte que desenvolvia o pensamento crítico e a estratégia, habilidades essenciais tanto na vida quanto na escrita. E em um clube de xadrez ele veio a conhecer o diretor dele, José Feldman, com quem estreitou laços de amizade não só pelo jogo, mas pela literatura, além do fato de que ambos possuíam uma paixão pela música e Feldman ser filho de pais romenos. Ao longo de sua vida, Cailin Dragomir se estabeleceu como uma figura influente na cena literária e educacional, deixando um legado duradouro tanto na Romênia quanto no Brasil. A influência da cultura romena em sua poesia se manifesta em diversos aspectos de sua obra. A rica tradição literária da Romênia, que inclui poetas como Mihai Eminescu e George Coșbuc, moldou a sensibilidade estética dele. Ele usa uma linguagem lírica e metafórica, incorporando elementos do folclore e da mitologia romena, que são essenciais na poesia romena clássica. A natureza é um tema recorrente na poesia romena, e Dragomir não é exceção. Suas descrições vívidas de paisagens romenas, como as montanhas dos Cárpatos e os campos de flores, refletem uma profunda conexão com o ambiente natural, transmitem uma sensação de integração e nostalgia.
A riqueza do folclore romeno permeia sua poesia, com referências a mitos, lendas e tradições populares. Utiliza esses elementos para criar uma ponte entre a modernidade e as raízes culturais, trazendo à tona a sabedoria ancestral que ainda ressoa na vida contemporânea. A poesia romena é conhecida por sua profundidade emocional e introspecção. Seguindo essa tradição, explora sentimentos complexos como amor, perda e saudade, utilizando uma abordagem que reflete tanto a sensibilidade individual quanto a experiência compartilhada do povo romeno. Ele muitas vezes incorpora ritmos e cadências que evocam a sonoridade da música popular romena, criando uma harmonia entre palavra e som que enriquece a experiência do leitor.
Após sua mudança para o Brasil, passou a incorporar a experiência da diáspora em sua poesia. Essa nova perspectiva enriqueceu sua obra, permitindo uma fusão de influências culturais que resultou em uma poesia mais ampla, reflexiva e acessível a diferentes públicos.
Em suas obras faz referências a figuras mitológicas romenas, como "Zmeu", um dragão que frequentemente aparece em contos populares. Ele utiliza essa figura para simbolizar desafios e superações, inserindo a luta contra o Zmeu como uma metáfora para as dificuldades da vida. Também é comum encontrar menções a "nossas montanhas", como os "Cárpatos", que não apenas servem como cenário, mas também como símbolo de resistência e força. Cailin pode descrever a beleza dessas montanhas em relação à história do povo romeno, evocando sentimentos de pertencimento. Ele inclui personagens folclóricos como "Moșneagul" (o velho sábio) e "Zână" (a fada), representando a sabedoria ancestral e a proteção, respectivamente. Esses personagens são frequentemente utilizados para transmitir lições de vida e a importância das tradições. Além disso, faz alusão a festivais tradicionais, como "Mărțișor", que celebra a chegada da primavera. Em seus versos, ele descreve a troca de fitas brancas e vermelhas como um símbolo de renovação e esperança, refletindo a alegria da vida. Histórias de amores impossíveis, como a lenda de "Făt-Frumos" e "Ilena Cosânzeana", podem ser exploradas em seus escritos. Ele usa essas narrativas para abordar temas de amor e sacrifício, conectando a experiência pessoal com a tradição. Há a presença de criaturas míticas, como o "Chimera" ou o "Roc", descrevendo esses seres como guardiões de segredos e mistérios, simbolizando os desafios que todos enfrentamos em busca de conhecimento. Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a poesia de Cailin Dragomir, mas também criam uma ponte entre o passado e o presente, permitindo que ele dialogue com suas raízes culturais enquanto se adapta a novas influências. Essa fusão é uma das marcas distintivas de sua obra.
Como poeta, Dragomir publicou três livros : 1. "Ecos da Alma" - Uma coletânea de poemas introspectivos que exploram a complexidade das emoções humanas; 2. "Sussurros da Memória" - Uma obra que reflete sobre o passado, a nostalgia e a busca pela identidade; 3. "Caminhos de Luz" - Uma série de poemas que celebram a beleza da natureza e a conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Biografia por José Feldman

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