domingo, 5 de julho de 2026

José Feldman (O Bilhete da Estação)

Era uma tarde de chuva fina na estação rodoviária da cidade, daquelas em que o chão fica escorregadio como piso encerado, e numa fração de segundos, a pessoa desavisada se estatela no chão; o ar cheira a café frio e todos impacientes, parece que todo mundo está com pressa de chegar a algum lugar que não seja ali. 

Eu esperava o ônibus para a minha cidadezinha, sentado num banco de plástico duro pra dedéu, que até minhas calças já estava se queixando, observando o movimento. Foi então que vi um bilhete: caído perto de uma lixeira, meio amassado, com letras impressas em tinta azul, ainda legível. Como estava matando o tempo, peguei só por curiosidade. Dizia apenas: “Para a Senhora Dona Eulália, na Rua dos Fundos, número 7 — assunto urgente, que ninguém deve saber”.

Não tinha nome de quem escreveu, nem assinatura. Apenas aquilo. E foi o suficiente para em seguida virar um fuzuê aquela rodoviária.

Logo apareceu Dona Marocas, uma senhora gorda, de chapéu de palha e voz que ecoava mais alto que o alto-falante, conhecida por saber da vida de todo mundo, parece que sabia antes mesmo da pessoa ter ideia do que ia acontecer. Ela passou por mim, viu o papel na minha mão, parou como se tivesse levado um choque e apontou o dedo grosso:

— O que é isso, moço? Deixa eu ver! — e, sem esperar resposta, arrancou o bilhete da minha mão. 

Leu em voz alta, devagar, soletrando como se cada palavra fosse uma bomba. Quando terminou, colocou a mão no peito, os olhos arregalados, e gritou para todo lado: 

— Meu Deus! É da Rua dos Cafundós! Lá só mora gente de… bem, gente que não é da nossa parte da cidade, né? Gente que vive de coisas que não se fala! Assunto urgente, o que ninguém deve saber… Ah, eu sabia! Sempre disse que aquela rua é um ninho de confusão!

Em segundos, a coisa ganhou tal vulto, que formou-se uma roda ao redor dela. Lá estava o Seu Arlindo, dono da loja de tecidos, que usava terno mesmo para viajar curtas distâncias e tinha o orgulho de ser “da família tradicional da cidade”. Ele pegou o bilhete, olhou com desdém, como se o papel estivesse sujo de lama, e disse, com aquele tom de quem sabe tudo sobre a natureza humana:

— Não me surpreende. Rua dos Cafundós… lugar onde ninguém quer morar, onde as casas são pequenas, as pessoas trabalham com o que aparece. É claro que lá tem segredos. Coisas que nós, trabalhadores, que temos um nome a zelar, não precisamos saber. Aposto que é dívida, ou roubo, ou… coisa pior. Coisa de gente que não tem educação, não tem modos.

Uma moça bem arrumada, com óculos de armação dourada e livro de bolso na mão, que parecia professora, concordou com a cabeça, séria:

— É o que sempre digo: a origem explica tudo. Se vem de lá, já sabemos o que esperar. Segredos, desonestidade… é a cultura do lugar, infelizmente.

E assim começou. O bilhete, que não dizia absolutamente nada, passou de mão em mão, e cada um acrescentava uma nova camada de história, baseada apenas no endereço. 

Em dez minutos, o “assunto urgente” já tinha virado: roubo de mercadoria, filho fora do casamento, dívida com agiota, até um plano para contrabandear algo proibido. Tudo porque a Rua dos Cafundós era, para eles, sinônimo de “gente problemática”, “gente que não é como nós”.

A coisa ia de mal a pior, quando apareceu um rapaz magro, de roupa simples, sapatos gastos, que estava sentado num canto, quieto, esperando o ônibus também. Ele ouvia tudo, e quando ouviu falarem mal de Dona Eulália, levantou a voz, tímido mas firme:

— Com licença… Eu conheço Dona Eulália. Ela é costureira, viúva, cria os netos sozinha, trabalha dia e noite para não dever nada a ninguém. É uma das pessoas mais honestas que existe.

Seu Arlindo olhou para ele de cima a baixo, com aquele olhar de desprezo que dói mais que tapa, e respondeu devagar:

— Ah, é? E você é quem, rapaz? Também mora lá, não é? Dá para ver logo pela roupa, pelo jeito que fala… Claro que vai defender os seus. Gente de um tipo igual ao seu só se entende, né? Não sabe o que é ter responsabilidade.

Vários concordaram com a cabeça, murmurando frases como “é assim mesmo”, “não adianta explicar”, “são todos iguais”. O rapaz abaixou a cabeça, calado, e voltou para o seu canto. Ninguém quis ouvir nada; eles já tinham a história pronta, desenhada nos seus preconceitos, e nada ia mudar.

Foi então que apareceu uma menina de uns dez anos, de tranças no cabelo, carregando uma sacola de plástico, olhando para todo lado, até que viu o bilhete na mão de Dona Marocas e gritou, aliviada:

— Achou! Era o meu! Eu deixei cair sem querer!

Todos pararam, olharam para ela, confusos.

— O que é isso, menina? — perguntou Dona Marocas, ainda desconfiada.

— É um bilhete que a minha mãe escreveu para Dona Eulália, que é a minha avó — explicou a menina, pegando o papel de volta. — Ela pediu para eu entregar antes de viajar, porque a vovó está doente, e a mamãe foi comprar o remédio na cidade vizinha, e escreveu avisando que ia chegar mais tarde, para a vovó não ficar preocupada. Disse “urgente” porque a doença dela é complicada, e “o que ninguém deve saber”… ah, é porque a vovó tem vergonha de que as pessoas saibam que ela está doente, ela não gosta de dar trabalho a ninguém.

Silêncio total. Um silêncio tão grande que dava para ouvir uma formiga caminhando no chão da estação.

Seu Arlindo ficou vermelho, roxo, depois branco, como se tivesse engolido um ovo cru estragado. A professora guardou o livro rapidamente, como se quisesse desaparecer. Dona Marocas ficou com a boca aberta, sem saber o que dizer, pela primeira vez na vida. Todos aqueles que tinham inventado histórias, julgado, condenado uma rua inteira e uma mulher que não conheciam, apenas por causa de um endereço, agora estavam parados, calados, com o gosto amargo da própria estupidez na boca.

E para piorar, o rapaz magro, que eles tinham julgado também pela aparência, levantou-se, sorriu e disse para que todos ouvissem:

— Pois é. Dona Eulália é minha mãe. E o remédio que a minha irmã falou? É para uma doença que pega qualquer um — rico ou pobre, de rua bonita ou de rua de fundo. A doença não sabe ler endereço, nem olha a roupa que a gente veste. Diferente de certas pessoas, que acham que sabem tudo só de olhar para onde o outro mora.

Ninguém respondeu. Ninguém olhou nos olhos de ninguém. Cada um foi para o seu canto, arrumou as suas malas, sem saber onde enfiar a cara, mas com a certeza de que, daquela vez, quem parecia “gente de menos” era exatamente eles: cheios de regras, de rótulos, de certezas que não valiam nada — tal como o bilhete, que não tinha segredo nenhum, a não ser o segredo da própria ignorância deles.

O ônibus chegou. Eu entrei, sentei perto da janela, e fiquei pensando: “engraçado como as pessoas acham que o lugar onde a gente mora, ou o que a gente tem, ou como a gente se veste, diz tudo sobre quem somos. Na verdade, diz muito mais sobre quem julga — sobre o quanto eles precisam inventar defeitos nos outros para se sentirem melhores, mais importantes, mais ‘certos’”.

E, para mostrar a graça que a vida tem: quando o ônibus saiu, vi Seu Arlindo correndo atrás, com a mala aberta, porque tinha esquecido de fechar o fecho, e todos os seus tecidos caros caíram no chão, misturados com a lama da chuva. Ninguém parou para ajudar. Afinal, por ele ser “gente importante”, todo mundo achou que ele devia saber se virar sozinho. 

Justiça poética, não é mesmo?
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
       Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo. 
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
    1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
  2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
    3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.