sexta-feira, 3 de julho de 2026

Nilto Maciel (A Voz Indecorosa)


João Canoro passava quase todo o tempo nas ruas. Não perdia um minuto dentro de casa. Dormia, acordava e corria para a rua. Como um pássaro que fugia da gaiola. E punha-se a voar, isto é, a andar, andar, andar, até cansar. Tanto gostava de andar pelas ruas que jamais quis ser escriturário, balconista, barbeiro. Preferiu ser office-boy durante alguns anos, caixeiro viajante por mais outros, oficial de Justiça incompetente, vendedor de assinatura de todas as revistas...

Embora andasse como poucos, João nunca se julgava cansado e, mais mundo houvera, mais andara. Calculava, insatisfeito, já ter dado algumas voltas ao mundo. Queria bater recordes. Sem alardes. Modestamente.

Enquanto caminhava, João Canoro não parava de falar. Uma fala sussurrante. Quase inaudíveis palavras. Exclusivamente aos ouvidos de todas as mulheres da Terra. Curtas frases decoradas. Eternas expressões de amor. Cicios, leves gestos labiais. Mil tipos de indecências.

Às vezes, a mulher sorria, mas não passava disso. Outras, fechava a cara e fugia. Adiante a mocinha cuspia insultos. Além se fazia de surda. E tudo o satisfazia. O sorriso lhe parecia rendição certa ou apenas promessa de entrega. A fuga o excitava. O palavrão soava sonoro. A indiferença o empurrava para novas e velhas mulheres.

Quase nunca a vítima se fazia cúmplice. E quando isto ocorria, por mais bela que fosse a dama, João se calava, virava o rosto, perdia o equilíbrio e sumia no meio da multidão.

João Canoro não podia, no entanto, voltar para casa, calar-se, arranjar emprego de barbeiro, balconista, escriturário. Deus o livrasse de tão desgraçado destino. Terminaria passando a navalha no pescoço de qualquer barbudo. E adeus liberdade de ir e vir, voar pelo céu da cidade, passarinho cercado de avezinhas por todos os lados.

Para escapar às ameaças frequentes de misteriosas mulheres, havia uma saída de gênio — a ventriloquia. E João estudou, exercitou-se, fez-se hábil ventríloquo. Passava pelas mulheres, dizia-lhes suas curtas frases indecorosas, suas indecências, e permanecia tranquilo, ereto, sério, como se um só cício tivesse dito. As moças e senhoras, no entanto, apressavam o passo, irritavam-se, voltavam-se contra pacatos e mudos senhores. E criavam-se enormes confusões de meio de rua.

Em compensação, nenhuma criatura de saia sorria mais para João Canoro. Nenhuma mais lhe cuspia insultos, nem lhe fechava a cara.

Ora, restavam o telefone e a noite. De dia trabalhava, andava, falava sem abrir a boca. De noite descansava, parava e telefonava para anônimas mulheres. Horas e horas à cata de ouvidos carentes de palavras excitantes. E escancarava a boca, para compensar os exercícios diurnos de ventriloquia.

Cortavam a ligação, diziam-lhe insultos, reagiam de mil maneiras. Umas, porém, riam, e ele gastava todo o seu repertório de frases, expressões e cícios. Até se cansar e largar o aparelho.

Uma noite, saciado, foi dormir. Roncava e sonhava palavras de lascívia. O telefone gritou, tilintou, zuniu. João pulou da cama, levou o fone ao ouvido. Uma voz de mulher. E um desfile interminável de palavrões.

Olhos arregalados de pavor, mãos trêmulas, o coração aos solavancos, o corpo inteiro em calafrios, João não disse um ai durante todo o tempo. E só sossegou quando nenhuma voz humana provinha mais do telefone.

Na noite seguinte o fato se repetiu. E mais uma vez João tremeu, se transtornou, perdeu o sossego. Até largar o aparelho e correr em busca de água, o suor a escorrer-lhe por todo o corpo.

Nas noites subsequentes, a mesma agonia de João. Porém, mal atendia o chamado e reconhecia a voz da mulher dos palavrões, obstava a ligação. Enlouquecido, na sexta noite cortou o fio do telefone.

No outro dia, passo lento de quem perdeu o ânimo de viver, João Canoro andava pela rua feito um sonâmbulo, mudo como nunca fora, uma voz indecorosa a zunir em seus ouvidos. Apesar de tudo, sorria um leve sorriso, os olhos demasiadamente brilhantes, enquanto por ele passavam mulheres, todas belas, cândidas, excitantes.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.