O abandono é a marca dominante da nossa sociedade. Os estados abandonam seus cidadãos, os governos abandonam seus governados, os ricos abandonam os pobres. A pobreza desestrutura as famílias, que abandonam seus filhos.
Sem rumo e sem esperanças,
vagando pelas cidades,
seguem as nossas crianças
a sofrer atrocidades.
Gonzaga da Silva - RN
É mais fria a madrugada
e muito mais triste o outono
dos que caminham a estrada
das montanhas do abandono.
Rodrigues Neto - RN
Bem mais triste que o lamento
de um velho e rouquenho sino
é o de quem dorme ao relento
sobre o leito do destino.
Sebastião Soares - RN
Dói bem mais que a própria dor
o desumana suplício
de quem tem por cobertor
a sombra de um edifício.
Sebastião Soares - RN
No abandono das marquises,
meninos dormem de mão,
fingindo que são felizes
nos braços da solidão.
Flávio Roberto Stefani - RS
O abandono é sobretudo trágico para as crianças. O Brasil tem 14 milhões de crianças e adolescentes na miséria. Crianças e adultos caçam restos de alimentos nos lixões para sobreviver.
Na mesma rua onde os nobres
desfilam pompa e capricho,
se encontram crianças pobres
entre montanhas de lixo.
Elen de Novais Félix - RJ
As criancinhas errantes,
sem pai, sem mãe, sem guarida,
são espumas flutuantes
nas torrentes desta vida.
Sebastião Soares - RN
Apontam-se como possíveis causas do aumento da violência no Brasil o abandono dessa grande parcela da população. Diante do desespero muitas crianças e adolescentes, para sobreviverem, tornam-se presas fáceis do crime.
A criança abandonada,
na rua a perambular,
é uma semente plantada
que no crime vai brotar.
Francisco Bezerra - RN
A criança abandonada,
sem pai, sem teto, sem pão,
tem a violência estampada
no rosto e no coração.
Luiz Machado Stabile - RS
Dê-se a devida assistência
à criança abandonada,
e a lágrima da violência
jamais será derramada.
Revoredo Netto - RN
Oh, Papai Noel, inclua,
um pedido em seu caminho:
- Dê à criança de rua,
um pouquinho de carinho!
José Feldman - PR
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro. Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.
(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.)

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