segunda-feira, 20 de julho de 2026

Arthur Thomaz (O velho e o mar)


– Olá, velho amigo.

– Olá, há quanto tempo!

– É verdade, antigamente eu era mais presente em sua vida.

– Pois é, o destino leva a gente para lugares bem diferentes.

– Sim, mas estamos aqui novamente juntos, e eu quero dizer que você fez parte integrante da minha vida, em quase todas as épocas.

– Sim, eu sei. Acompanhei você em várias das suas peripécias, mas que não convém relatar neste conto.

– Concordo, meu amigo, é bem melhor não citá-las. Vamos conversar assuntos sérios.

E continuei:

– O que estão fazendo com você atualmente?

Respondeu em um tom triste:

– Não é só atualmente, há muito tempo eu ando sendo castigado.

Lembre-se que o primeiro teste da bomba atômica foi realizado no Atol de Bikini, e até hoje tem consequências graves. Na região existem animais nascendo com malformações pela ação da radiação.

Eu concordei:

– É verdade, eu me lembro desse fato. O ser humano ainda vai pagar muito caro por essas loucuras.

Prossegui:

– Lembro-me das manhãs de domingo em uma praia famosa no Rio de Janeiro, em que os ônibus de excursões traziam milhares de pessoas, que além de sujarem as areias, não utilizavam os banheiros químicos disponíveis.

Respondeu gargalhando:

– Sim, mas tudo o que eles faziam, eu devolvia com as minhas ondas, geralmente acertando os corpos vermelhos de sol.

Eu tive que sorrir ao imaginar a cena.

Agora, com ar mais sério, ele prosseguiu:

– São dois fatos que me aborrecem. Os humanos colocam a culpa dos tsunamis em mim, quando na verdade são os terremotos que causam isso, e tenho a responsabilidade de ser o pulmão do mundo, embora alguns tolos falem que é a floresta amazônica, e destroem o meu zooplâncton jogando o conteúdo dos esgotos em mim.

Concordei e disse:

– O ser humano vai se autodestruir em pouco tempo, mas até lá nossa amizade continuará inabalável.

O mar, antes de se despedir, falou:

– Meu amigo, você me emprestaria seus óculos para miopia?

– Sim, sem dúvida, mas por quê?

Meio sem graça, respondeu.

– É que estão acontecendo coisas lá nas profundezas abissais e eu já estou ficando velho e não consigo enxergar lá embaixo.

Sem conseguir conter o riso, falei.

– Tome, meu amigo míope, faça bom proveito dele.

Ele também sorriu, e nos despedimos com outro abraço molhado e salgado, prometendo nos encontrarmos em breve.

PS: Ernest Hemingway, espero que você não se incomode de eu ter utilizado o título de seu famoso livro em meu modesto conto.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

(Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Solicito que coloque o seu nome após o comentário, para que o mesmo seja publicado. Somente serão aceitos comentários relativo às publicações, outros que sejam políticos, pessoais, chulos, etc. serão excluídos. Veja política de conteúdo na página inicial.