A névoa do crepúsculo descia rapidamente pelas gargantas profundas dos Cárpatos, trazendo um frio que anunciava o inverno definitivo. Moșneagul caminhava com passos calmos e medidos, o som rítmico de seu cajado de ferro batendo nas rochas era o único aviso de sua presença. Ele precisava cruzar o Desfiladeiro do Lobo antes que a noite fechasse os caminhos, mas para isso precisava passar pela Ponte de Pedra Antiga, uma estrutura milenar construída pelos antepassados que ligava duas montanhas sobre um abismo sem fim.
Ao se aproximar da cabeceira da ponte, o Moșneagul parou. A passagem estava bloqueada.
Deitado exatamente no meio da entrada da ponte estava um lobo monumental. Não era um animal comum: sua pelagem era cinzenta, quase prateada, e seus olhos brilhavam com uma inteligência ancestral. No entanto, a criatura estava ferida. Uma armadilha de ferro de caçadores ilegais havia se prendido à sua pata traseira, e o sangue escuro manchava a pedra antiga. Mesmo debilitado e arquejante, o lobo ergueu a cabeça ao ver o ancião, arreganhou os dentes afiados e soltou um rosnado profundo que fez o ar vibrar. Ele preferia morrer lutando a permitir que um humano se aproximasse.
Moșneagul não recuou e não demonstrou medo. Em vez disso, fincou seu cajado de madeira firmemente no chão e tirou o chapéu de lã, curvando a cabeça em sinal de respeito.
No folclore dos Cárpatos, o lobo é considerado o irmão mais velho do homem e o guardião dos segredos da floresta.
— Saudações, Guardião — falou Moșneagul, com sua voz mansa que parecia o sussurro do vento nas folhas. — Eu não trago o fogo e não trago o ferro da destruição. Trago apenas o respeito de quem caminha nesta terra sob as mesmas leis que você.
O lobo diminuiu o rosnado, mas manteve os olhos fixos no ancião.
Moșneagul ajoelhou-se lentamente na terra úmida. Ele abriu sua algibeira de couro e retirou um punhado de absinto seco e um frasco com banha de urso benzida — o remédio tradicional que os camponeses usavam para fechar feridas profundas. Com movimentos suaves e previsíveis, Moșneagul arrastou-se para perto do animal.
— Sei que a dor cega os olhos para a bondade, meu irmão — murmurou o velho sábio. — Mas lembre-se do pacto antigo. Os homens do cajado e os lobos da montanha partilham o mesmo topo. Deixe-me aliviar o seu fardo.
O lobo soltou um último ganido baixo, quase como um lamento, e esticou a pata ferida, permitindo, em um ato de extrema confiança mística, que o humano se aproximasse.
Com a força que ainda restava em suas mãos calejadas, Moșneagul forçou as garras da armadilha de ferro para trás, abrindo-a e libertando o animal. Em seguida, limpou o sangue com o absinto e aplicou a banha de urso sobre o ferimento. O lobo estremeceu, mas sentiu o alívio imediato da queimação da carne.
Assim que o curativo foi finalizado, o lobo levantou-se com dificuldade. Ele não atacou Moșneagul. Em vez disso, aproximou o grande focinho do peito do velho e bufou suavemente, um sinal de gratidão e reconhecimento de parentesco espiritual.
Nesse momento, a criatura deu três passos à frente na ponte, olhou para trás como se chamasse Moșneagul e soltou um uivo longo que cortou a noite. O eco do uivo viajou pelas montanhas e, em resposta, a névoa densa que cobria o abismo e tornava a ponte invisível e perigosa começou a se dissipar, revelando o caminho seguro até a outra margem. O lobo correu em direção à escuridão da floresta, curado e livre, deixando a passagem completamente desimpedida para o ancião.
Moșneagul levantou-se, limpou a terra de suas calças e pegou seu cajado. Sorriu ao ver o céu estrelado se abrir sobre a ponte.
— Quem ajuda o guardião da terra, encontra o caminho aberto — disse o velho para si mesmo, cruzando a ponte de pedra em direção ao seu próximo destino.
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O medo e a dor frequentemente fazem com que aqueles que sofrem reajam com agressividade e desconfiança diante do mundo. A sabedoria nos ensina que não devemos responder à hostilidade com mais violência, mas sim com paciência, humildade e respeito pelas dores do outro. Ao estendermos a mão para curar as feridas daqueles que cruzam o nosso caminho, desarmamos o ciclo do ódio e descobrimos que os maiores obstáculos da nossa jornada se transformam nos guias que abrem as portas para o nosso futuro.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia. Desde cedo, demonstrou uma paixão inata pela literatura e pela arte das palavras. Ele cresceu em um ambiente que refletia a rica herança cultural da sua cidade, onde a música e a poesia se entrelaçavam nas conversas cotidianas. Após concluir o ensino médio, ingressou na Universidade, onde se destacou em seus estudos de literatura. Sua dedicação e talento o levaram a continuar sua formação acadêmica, culminando em um pós-doutorado. Durante esse período, ele mergulhou na obra de grandes poetas romenos e internacionais, desenvolvendo um estilo próprio que misturava o lirismo clássico com uma abordagem contemporânea. Em 1992, tomou a decisão de se mudar para o Brasil, em busca de novas oportunidades e experiências. Ao chegar ao país, ele se estabeleceu em São Paulo, onde rapidamente se destacou como professor de literatura. Suas aulas eram conhecidas pela abordagem criativa e envolvente, inspirando os estudantes a apreciar a literatura de maneira profunda e significativa. Além de sua carreira acadêmica, cultivava uma paixão pelo xadrez. Ele se tornou um jogador forte e respeitado, participando de torneios e promovendo o jogo entre seus alunos. Dragomir acreditava que o xadrez, assim como a literatura, era uma forma de arte que desenvolvia o pensamento crítico e a estratégia, habilidades essenciais tanto na vida quanto na escrita. E em um clube de xadrez ele veio a conhecer o diretor dele, José Feldman, com quem estreitou laços de amizade não só pelo jogo, mas pela literatura, além do fato de que ambos possuíam uma paixão pela música e Feldman ser filho de pais romenos. Ao longo de sua vida, Cailin Dragomir se estabeleceu como uma figura influente na cena literária e educacional, deixando um legado duradouro tanto na Romênia quanto no Brasil. A influência da cultura romena em sua poesia se manifesta em diversos aspectos de sua obra. A rica tradição literária da Romênia, que inclui poetas como Mihai Eminescu e George Coșbuc, moldou a sensibilidade estética dele. Ele usa uma linguagem lírica e metafórica, incorporando elementos do folclore e da mitologia romena, que são essenciais na poesia romena clássica. A natureza é um tema recorrente na poesia romena, e Dragomir não é exceção. Suas descrições vívidas de paisagens romenas, como as montanhas dos Cárpatos e os campos de flores, refletem uma profunda conexão com o ambiente natural, transmitem uma sensação de integração e nostalgia.
A riqueza do folclore romeno permeia sua poesia, com referências a mitos, lendas e tradições populares. Utiliza esses elementos para criar uma ponte entre a modernidade e as raízes culturais, trazendo à tona a sabedoria ancestral que ainda ressoa na vida contemporânea. A poesia romena é conhecida por sua profundidade emocional e introspecção. Seguindo essa tradição, explora sentimentos complexos como amor, perda e saudade, utilizando uma abordagem que reflete tanto a sensibilidade individual quanto a experiência compartilhada do povo romeno. Ele muitas vezes incorpora ritmos e cadências que evocam a sonoridade da música popular romena, criando uma harmonia entre palavra e som que enriquece a experiência do leitor.
Após sua mudança para o Brasil, passou a incorporar a experiência da diáspora em sua poesia. Essa nova perspectiva enriqueceu sua obra, permitindo uma fusão de influências culturais que resultou em uma poesia mais ampla, reflexiva e acessível a diferentes públicos.
Em suas obras faz referências a figuras mitológicas romenas, como "Zmeu", um dragão que frequentemente aparece em contos populares. Ele utiliza essa figura para simbolizar desafios e superações, inserindo a luta contra o Zmeu como uma metáfora para as dificuldades da vida. Também é comum encontrar menções a "nossas montanhas", como os "Cárpatos", que não apenas servem como cenário, mas também como símbolo de resistência e força. Cailin pode descrever a beleza dessas montanhas em relação à história do povo romeno, evocando sentimentos de pertencimento. Ele inclui personagens folclóricos como "Moșneagul" (o velho sábio) e "Zână" (a fada), representando a sabedoria ancestral e a proteção, respectivamente. Esses personagens são frequentemente utilizados para transmitir lições de vida e a importância das tradições. Além disso, faz alusão a festivais tradicionais, como "Mărțișor", que celebra a chegada da primavera. Em seus versos, ele descreve a troca de fitas brancas e vermelhas como um símbolo de renovação e esperança, refletindo a alegria da vida. Histórias de amores impossíveis, como a lenda de "Făt-Frumos" e "Ilena Cosânzeana", podem ser exploradas em seus escritos. Ele usa essas narrativas para abordar temas de amor e sacrifício, conectando a experiência pessoal com a tradição. Há a presença de criaturas míticas, como o "Chimera" ou o "Roc", descrevendo esses seres como guardiões de segredos e mistérios, simbolizando os desafios que todos enfrentamos em busca de conhecimento. Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a poesia de Cailin Dragomir, mas também criam uma ponte entre o passado e o presente, permitindo que ele dialogue com suas raízes culturais enquanto se adapta a novas influências. Essa fusão é uma das marcas distintivas de sua obra.
Como poeta, Dragomir publicou três livros : 1. "Ecos da Alma" - Uma coletânea de poemas introspectivos que exploram a complexidade das emoções humanas; 2. "Sussurros da Memória" - Uma obra que reflete sobre o passado, a nostalgia e a busca pela identidade; 3. "Caminhos de Luz" - Uma série de poemas que celebram a beleza da natureza e a conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.

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