sexta-feira, 17 de julho de 2026

Camilo Castelo Branco (Aventuras de um boticário de aldeia)


O Sr. Manuel Pires, farmacêutico aprovado por outro farmacêutico que não foi aprovado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica numa aldeia do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratório químico era um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no colo por um cilindro de lata. A sua livraria era o Médico lusitano, in folio; uma Farmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado — Segredos da natureza. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro vidrado, atapulhados (obstruídos) de ervas, que tinham o merecimento cronológico de serem contemporâneas dos garrafões. Afora isto, não sei que líquidos verdes e amarelos e azuis variavam um dos lotes que, pelos modos, continha os remédios heroicos, como óleo de amêndoas doces, extrato de amoras, solimão, e óleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o Sr. Manuel Pires fosse um sábio, não digo consumado, mas superior à inteligência de alguns cirurgiões daquela redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hipócrates honrou as cinzas de seu pai fazendo a cura radical de uma espinhela caída na pessoa da Sra. Terezinha da Fonte. Este triunfo da farmácia sobre a espinhela elevou o Sr. Pires, não direi até às colunas do Zacuto, mas até onde podiam levá-lo as suas aspirações de mestre Manuel Pires, como respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos fregueses.

Um segundo triunfo veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A cura de uma ostrução, que eu não sei o que é, e outra de umas almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aqueles arredores.

O Sr. Manuel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providência lhe cedera. Relacionou-se com o pároco, com o regedor, com o juiz de paz, e associou-se assim a um triunvirato, que decidia dos destinos da freguesia. E o que eles não fizessem dez léguas em redor ninguém o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antônio da Poça que o sobredito juiz de paz se correspondia com os governos de Lisboa. Não posso abonar na sua íntegra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a coisa, atendendo à importância de um juiz de paz, quando se trata de fazer um deputado.

O boticário era uma figura incapaz das honras anatômicas do romance. Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das bochechas caíam-lhe em forma de sanefas sobre os colarinhos engomados com pós de batata. As ventas eram dois vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes acavalados simulavam uma Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capitéis.

Como quer que fosse, o Sr. Manuel Pires, aos quarenta anos, contava quarenta conquistas das melhores raparigas da freguesia. E, honra lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que desse o menor escândalo. Lá como ele fazia as coisas, e a felicidade dos seus triunfos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus pecados, quiser ler uma página altamente dramática da biografia do nosso amigo.

Manuel Pires foi chamado um dia para curar uma dor de rins na pessoa da tia Maria do Eiró. Não é necessário dizer que a moléstia obedeceu. Na mesma casa curou da triz o tio João, e por fim talhou o bicho com perfeição e felicidade à Mariquinhas, rapariga de uma vez, e coisa de pôr a cara a um lado a mais de quatro Antonis de socos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura.

O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o dicionário das ciências médicas. Fiquemos com a nossa ignorância; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso nunca talhar o bicho. O caso é que o mestre Manuel Pires falou ao coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu arcanjos, serafins, e brisas, e raios de lua a pratear lagos de anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os olhos da cara para ver o Sr. Manuel Pires, que, diga-se a verdade, não era cético, nem carpia tristezas por desoras ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava à porta.

Felizmente para ele, o dono da casa foi atacado de um estalecídio (asma) que lhe caiu nos bofes, segundo a opinião do boticário, e a cura demorada desta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes ocasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de porem o coração em maré-cheia de poesia chula.

O diálogo, que mais concorreu para a solução final, foi incontestavelmente o seguinte:

ELE — O deus Cupido fez dos olhos de vosmecê duas setas, que trespassaram o meu coração.

ELA — E as palavras de vosmecê, como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que não regeste meu sensível peito.

ELE — Eu bem queria dizer a vosmecê as ternuras do meu coração, e as congeminências (intuitos) do meu pensamento. Vosmecê é mais bonita que Vênus, e Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vosmecê

ELA — Pois se vosmecê me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o outro que diz.

ELE — O fim para que eu falei a vosmecê só eu o sei; e a troco desse negócio faz míngua falarmos outra vez.

ELA — Quando vosmecê quiser, e Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim não é. Uma rapariga que tem seus créditos não deve de perdê-los, e vosmecê bem entende as coisas que é sábio e homem de cabeça, por muitos anos e bôs.

ELE — E vosmecê que os conte. Ora pois; o que se há de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se vosmecê me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá da minha boca as afetíveis ternuras do meu amante coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras setas.

ELA — Pois se vosmecê promete de ter toda àquela de... sim, dizia eu, se vosmecê promete de ter toda àquela... sim... como diz lá o ditado...

ELE — Pelo deus Cupido lhe prometo a vosmecê de lhe não pôr a minha mão, nem palavra lhe direi que seja contra a honra de vosmecê.

A resistência da rapariga era impossível! Quando a eloquência, assim inspirada do íntimo da alma, regurgita em jorros nos lábios de um amante, é certo o triunfo. O amor é realmente o galvanismo dos estúpidos, desses cadáveres morais, que se levantam do túmulo da inteligência, e cantam lerias num alamiré (diapasão) celeste! Não nos recordamos de ter lido em romances franceses um diálogo tão fértil de imagens, tão vibrante de afetos, tão digno, enfim, de ser copiado na carteira destes obtusos amadores das salas, para os quais não há assunto, se lhes falharem as reminiscências do borda d'água.

Manuel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro cáusticos para a numerosa clínica que o esperava. Sem exagero, este farmacêutico era uma pílula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes da revalenta arábica. Logo que o anjo da guarda, não pudesse salvar o enfermo das agressões mefíticas do espírito mau,Manuel Pires, anjo sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, quer na boca do estômago, quer nos bofes quer nos miolos! Este homem desprezava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros criadores de nomes bárbaros que não fazem nada à saúde do cidadão. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma coisa enorme de cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que pitonisa mágica e, por fim de contas, era um relógio, cujo invólucro supria à farta uma bacia de semicúpios.

Eram 8 horas. Na aldeia é esta a hora dos amantes. Manuel Pires enfiou as suas meias de lã até à cintura, calçou os sapatos confidentes de mil empresas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarelo, e partiu.

Às 8 e um quarto, estava Manuel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a ansiedade própria da sua organização nervosa. Maus fados quiseram que naquela noite, e a tais horas, andasse fora de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticário, enquanto o pai não recolhesse. Quis primeiro sumi-lo na corte das vacas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava ir afagar a sua vaca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitara sete moedas e um quarto! Meteu-o, depois, na loja da égua, mas a bestinha, egoísta e ciumenta da manjedoura, não compreendeu que o Sr. Manuel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de coices, que por um triz o não remeteu à galeria póstuma dos farmacêuticos ilustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surpreendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fê-lo descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.

— Que fazes tu aí, rapariga? — bradou ele.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos. Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe roubava das caixas o seu saco de milho, que vendia para comprar, à surrelfa, o seu cordãozinho de ouro.

Na loja, onde o boticário desceu, estavam as caixas do milho, e não há nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em flagrante delito.

— Onde está a chave deste alçapão, rapariga? interpelou o tio João no mesmo diapasão.

— A chave tem-na vosmecê.

O homem entrou no seu quarto, próximo da cozinha, e veio com a chave, resmungando:

— Ora deixa-te estar, que não hás de cá tornar pô-lo vezo, minha cabra de não sei que diga!

Fechou o alçapão, e foi-se deitar.

A loja não tinha outra saída. O boticário, portanto, achava-se numa posição falsa, diz o leitor. Ele sabia lá o que eram posições falsas! O que ele fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá consigo: “no chão não me deito eu.” Continuou fleumaticamente a fazer o seu juízo crítico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz num presunto. Não obstante, o Sr. Manuel Pires tirou uma segunda conclusão: “de fome não morro eu.” Mais adiante esbarrou numa pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para ver se estava cheia. E o caso é que estava! Manuel Pires era um onagro de felicidade! “Deixa correr o mundo!...” disse ele, e estirou-se francamente sobre a caixa à espera de um sono regalado.

Passara-se uma hora, e o boticário, começando a pensar seriamente na sua situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Aplicou o ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha.

Sentiu frio, por que em dezembro não é fácil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos maquinais, buscando uma saída qualquer, e encontrou um albardão. “Valha-nos ao menos isto,” disse ele, e pegou do albardão, colocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora falemos das cólicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua o seu querido farmacêutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua dor sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor sorte.

O pai ressonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e saiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judite não saiu mais contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alçapão com sutileza, mas, no momento em que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um saco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: “ó rapariga!”

Não se diz, em linguagem Portuguesa, sem um conhecimento profundo dos clássicos, a atrapalhação da cachopa! O tio João procurou as calças, e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (proh pudor!) saltou do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o quinteiro.

O tio João, contra todas as leis da decência, foi atrás de sua filha, e filou-a pelo gasnete:

— O que ias tu fazer à loja, Maria?

— Raios me parta (disse ela a chorar) se eu ia à caixa do pão ou dos feijões!

— Então a que ias tu lá, diabo?

— Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...

O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; mas... ai dele!...o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de família resvalou com todo o peso da sua bestialidade até à loja.

Manuel Pires soltou um urro de surpresa, que já não foi ouvido pelo João do Eiró, que desmaiara.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruído, mas supôs que era o cair do alçapão. Atravessou a cozinha, amaldiçoando a sua sorte, e meteu-se no seu quarto a pensar no desenlace daquela tragédia.

A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu ciúmes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do íntimo, três vezes, o seu João, e como ninguém lhe respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando responsos a Santo Antônio, de mistura com não sei quantas pragas, que ela rogava ao sumidouro das suas socas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria acendeu a candeia, e foi direita à cozinha, que era o ponto convergente de todas as operações daquele drama. Viu o alçapão aberto, e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror daquela fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janela e grita desentoadamente “aqui del-rei ladrões!” A vizinhança alarmou-se, e pouco depois os 60 fogos daquela aldeia aglomeravam-se no quinteiro do tio João do Eiró.

Os mais destemidos rapazes da aldeia desceram à loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por dois lados, e não sei quantas costelas desmanchadas. Reinou o silêncio do mistério! Ninguém conjecturava a causa daquele estranho sucesso, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo de um albardão! Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o albardão, soltou um brado terrível de espanto:

— O senhor mestre Manuel Pires!

Hão de ter visto nos dramas descabelados um encapotado, que é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma súcia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o efeito que o boticário produziu na chusma de valentões de foice roçadora, que o cercavam.

O tio João, tornando a si, foi direito ao boticário para agradecer-lhe a prontidão com que viera curá-lo. Mas a tia Maria pôs tudo em pratos limpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflito.

Mestre Manuel Pires ia ser apregoado ladrão, por que a sua importância, passado o momento da surpresa, começava a sofrer uma grande baixa na opinião dos lavradores. Mas o seu caráter repelia tamanha afronta! A hora solene de uma honrosa satisfação estava chegada. O farmacêutico, superando com a sua voz o ruído da turba conspirada, disse:

— Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negócio como ele é.

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos de amante, o segredo da coisa, quis logo ali partir a cabeça do seu rival.

— Oh su’alma do diabo!...exclamou ele.

Contiveram-no. O Sr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era uma cascata de lágrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a sua fim, como ela depois disse.

A sua aparição impôs às multidões um respeitável silêncio. Mestre Manuel Pires falou assim, com ar de inspirado, e o braço direito em atitude profética:

— Esta rapariga é minha mulher, se ma derem. Eu vim aqui a troco dela. Em bom pano cai uma nódoa. Mal remediado é mal acabado. Amanhã se Deus quiser leem-se os banhos, e não há nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia num sino. Os pais, desses não se fala. Mestre Manuel era o casamento mais vantajoso da freguesia. Endireitou as costelas ao sogro, bebeu à saúde da boa companhia, e casou com grande préstito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar nesse fausto dia o hábito de Cristo na casaca. Nas bodas célebres para sempre, nos anais de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.

Já lá vão cinco anos.

Mestre Manuel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este ano veio a banhos de mar, e viu por aí baronesas, que lhe despertaram o louvável desejo de o ser.

E há de ser, se Deus quiser.
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CAMILO FERREIRA BOTELHO CASTELO BRANCO foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente de seus rendimentos literários. Figura central da segunda fase do Romantismo português, ele se tornou um dos autores mais prolíficos, populares e brilhantes do século XIX. Nasceu em 1825, em Lisboa/ Portugal e faleceu em 1890, em São Miguel de Seide, no município de Vila Nova de Famalicão/Portugal. Suicídio por arma de fogo, motivado pelo desespero da cegueira progressiva causada pela sífilis. Ficou órfão muito cedo e teve uma vida marcada pela itinerância geográfica pelo norte de Portugal: Onde foi criado em Vila Real por uma tia e uma irmã mais velha após a morte dos pais. Na cidade do Porto viveu a boemia estudantil, cursou medicina (sem concluir) e onde foi preso na Cadeia da Relação por adultério. Na Aldeia no Minho, em São Miguel de Seide se fixou na maturidade com sua grande paixão, Ana Plácido, e onde hoje funciona a sua Casa-Museu. 
Sua vida profissional confunde-se inteiramente com sua produção literária. Ele trabalhou ativamente como jornalista, cronista, tradutor e crítico literário para diversos periódicos. Como precisava de dinheiro para se sustentar e pagar suas dívidas, escrevia em um ritmo industrial e frenético. Sua vida foi cercada de escândalos amorosos e polêmicas públicas. O episódio mais famoso foi o seu envolvimento com Ana Plácido (casada com um comerciante), o que levou ambos à prisão em 1860 sob a acusação de adultério. Foi justamente na prisão que ele escreveu sua obra-prima em apenas 15 dias. Pelo reconhecimento de sua vasta obra, o rei D. Luís concedeu-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho em 1885. 
No século XIX, o sistema de academias de letras em moldes modernos ainda não estava consolidado em Portugal (a Academia das Ciências de Lisboa era o foco). Camilo foi nomeado Acadêmico Correspondente da Real Academia Sevillana de Buenas Letras na Espanha. Não existiam grandes prêmios literários institucionais em sua época. Ironicamente, sua importância hoje é tão grande que seu nome batiza premiações contemporâneas de prestígio, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. 
Sua bibliografia ultrapassa as 260 obras, englobando poesia, teatro, ensaios e romances. Os principais destaques são: Amor de Perdição (1862): O auge do ultra-romantismo português; Memórias do Cárcere (1862): Relato autobiográfico de seu período na prisão; Amor de Salvação (1864); A Queda dum Anjo (1866): Uma sátira política e social mordaz; A Brasileira de Prazins (1882).
Camilo é o pilar do Ultraromantismo. Ele consolidou o romance passional baseado no sofrimento, no amor proibido e nas barreiras sociais. Sua relevância fundamenta-se em que possuía um dos vocabulários mais ricos, dinâmicos e puristas da língua portuguesa, dominando tanto a linguagem erudita quanto a popular. Rompeu com a tradição de que a escrita era apenas um passatempo para nobres ou burgueses ricos, inaugurando a era do escritor profissional no ecossistema lusófono. Embora puramente romântico, suas crônicas sociais e retratos psicológicos da sociedade do Minho abriram caminho para as correntes realistas e naturalistas que viriam logo a seguir.

Fontes:
Camilo Castelo Branco. Cenas contemporâneas. Publicado originalmente em 1862.
Biografia = Sites consultados: Wikipedia, Brasil Escola, Livrista, Ebiografia, etc.

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