domingo, 5 de julho de 2026

Humberto de Campos (As "gaffeuses")

Um dos encantos da alta sociedade carioca são as senhoras que cultivam, nos salões e na intimidade, os deliciosos cogumelos da "gafe". Educadas, finas, inteligentes, essas figuras da "elite" constituem, geralmente, legítimos ornamentos da família brasileira; há, porém, no inferno uma classe de demônios irreverentes que se divertem zombando das mulheres lindas, e o resultado são esses deliciosos delíquios do espírito, e o desgosto que se apossa, depois, das pobres vítimas dessa maliciosa brincadeira diabólica.

À frente desse exército de "gafeuses" marcha, com as "gafes" que tem cometido na terra, a jovem senhora Cardoso Nunes, esposa do Dr. Abelardo Nunes, conhecido corretor e capitalista. Formosa e gentil, D. Clotilde é incapaz de uma perfídia, de uma insinuação malévola, de uma perversidade punidora. As amigas estimam-na profundamente e só não fazem o mesmo as inimigas, porque D. Clotilde, com franqueza, não as tem. A sua simplicidade destrói todas as prevenções, e de tal modo que os seus íntimos lhe perdoam as "gafes", mesmo quando se trata de casos duvidosos, como o de anteontem.

A roda de convidados era enorme e seleta, no grande terraço dando para o mar, predominando nela o número de figuras femininas. Palestrava-se vivamente sobre o nervosismo de certas senhoras, algumas das quais nutrem uma aversão às baratas, às rãs, aos grilos e a outros pequenos seres repugnantes.

- Eu tenho horror é ao caramujo! - informava Me. Costa Meireles, com a papada a repousar, como a do Chaby, sobre o peito volumoso. - Quando eu vejo um caramujo, fico toda arrepiada!

E, fechando as mãos muito redondas, muito gordas, a fez estremecer toda, dos pés à cabeça a formidável montanha de toucinho.

- Pois, eu não, - atalhou Mlle. Pinheiro César; - o que me horroriza é o percevejo. Quem me quiser ouvir gritar, é por um percevejo no meu caminho!

Foi por essa altura que D. Romualda Brito, a ilustre senhora tão conhecida pelas suas leviandades galantes, interveio, informando:

- Pois, eu, não tenho medo de nada disso. Nenhum desses bichinhos me faz, como a vocês, qualquer mal aos nervos.

E contou:

- Imaginem que outro dia, eu estava em pé na sala de espera do cinema de Copacabana, quando senti de repente uma coisa subindo pela minha perna!

- Meu Deus! - gemeu Mme. Cunha Andrade, mostrando o braço arrepiado. - Olhem como eu estou!

E a outra continuou:

- Sem me mover, eu compreendi que era um rato!

- Que horror! - gritaram as outras senhoras.

- Quieta estava, quieta fiquei. O rato subiu, primeiro, para meu sapato. Depois, passou à meia. E assim, subiu-me, aos poucos, pela perna!

As senhoras, em silêncio, mostravam-se horrorizadas com o acontecido. E foi no meio dessa impressão, que D. Clotilde interveio, muito séria:

- O rato subiu, mesmo, pela perna da senhora?

- Subiu, menina!

E D. Clotilde, logo, com a maior ingenuidade do mundo:

- Mas desceu, depois; não desceu?
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fonte:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público.