sexta-feira, 3 de julho de 2026

José Feldman (Clássico da terceira idade)


O "Clássico da Terceira Idade" no bairro do Limoeiro não era exatamente um evento esportivo; era uma comédia pastelão televisionada pela vizinhança. De um lado, os "Veteranos de Ouro", liderados pelo Arlindo, um senhor que acreditava piamente que ainda tinha a velocidade de um garoto de 20 anos — embora seus joelhos implorassem por misericórdia a cada passo. Do outro, os "Titãs do Asfalto", capitaneados pelo Gerson, que tinha uma tática infalível: prender a bola nos pés e esperar que o adversário desistisse de correr atrás dele por puro tédio.

O jogo começou sob um sol escaldante. O juiz, Juvenal, já estava em campo, mas com um detalhe importante: ele tinha esquecido o apito em casa e estava usando um apito de brinquedo que a neta tinha deixado cair do seu bolso. O som era um "piu-piu" agudo e desesperador, parecendo mais um canarinho com soluço do que uma autoridade em campo.

Aos cinco minutos, a primeira trapalhada. Arlindo recebeu um passe longo, dominou com a elegância de um bailarino — ou melhor, de um bailarino que tropeçou no próprio cadarço. Ele deu uma pirueta, a bola passou por baixo de suas pernas, ele tentou girar, perdeu o equilíbrio e acabou estatelado em cima da bola, deslizando gramado abaixo como se estivesse em um trenó. A torcida (Dona Clotilde com três cachorros) que estava lá apenas para garantir que ninguém morresse aplaudiu efusivamente.

O jogo seguiu com um ritmo... digamos, contemplativo. Quando a bola finalmente chegava perto do gol, o goleiro dos Titãs, Valdir, tinha um hábito curioso: ele gostava de ajustar a prótese dentária no momento exato do chute.

"Valdir, foca no jogo!", gritava Gerson.

"Calma, Gerson, o dente tá andando!", respondia Valdir, enquanto a bola passava lentamente por ele, indo parar dentro da rede.

Mas o auge da confusão aconteceu no segundo tempo. Arlindo, em um momento de inspiração, decidiu fazer uma jogada ensaiada. Ele gritou para o time: "A tática da Tartaruga Ninja!". Ninguém entendeu nada, mas todos correram para o meio de campo. O problema é que, no caminho, o Arlindo confundiu o apito de brinquedo do juiz com o barulho de um passarinho e começou a procurar o bicho no meio da grama.

Enquanto isso, a bola estava rolando solta. O lateral dos Veteranos, numa tentativa heróica de cruzar, chutou com tanta força que a bola voou alto, passou por cima do muro e caiu direto no quintal da Dona Dalva, que era famosa por ter um cachorro chamado "Destruidor".

O jogo parou. Todos olharam para o muro. O silêncio foi quebrado pelo som de algo estourando: PUFF!

A bola tinha virado um pedaço de borracha inútil.

Juvenal, com seu apito de canarinho, decretou o fim da partida. "Empate técnico!", anunciou ele, todo pomposo. "O Destruidor venceu por W.O. e a bola está oficialmente aposentada."

No fim, todo mundo terminou sentado na calçada, rindo tanto que faltava ar, enquanto dividiam um refresco e planejavam a revanche para a outra semana — prometendo, claro, comprar uma bola nova e, quem sabe, um apito que fizesse um barulho decente.

Se o jogo foi uma comédia, a viagem de volta foi um verdadeiro episódio de "perdidos no espaço", só que com um ônibus fretado e um grupo de senhores que, vamos ser sinceros, têm uma capacidade incrível de transformar o simples em complexo!

Prepare-se, porque a confusão começou antes mesmo do motor sair da garagem.

O ônibus, um modelo que parecia ter sido fabricado na época em que o rádio era a gás, estava estacionado na esquina. O motorista, um rapaz chamado Beto que tinha a paciência de um monge tibetano, observava o grupo se aproximar.

"Arlindo, larga essa bola murcha, a gente não vai jogar mais!", gritava Gerson, enquanto tentava subir a escadinha do ônibus carregando um saco de gelo que já estava virando água e escorrendo pelo seu sapato.

Arlindo, ainda empolgado com a partida, decidiu que precisava sentar na "janela do artilheiro". Só que, ao tentar se acomodar, ele prendeu o cinto de segurança no encosto de cabeça do banco da frente. Quando Valdir se levantou para pegar um biscoito, ele puxou Arlindo junto, que veio pendurado como um boneco de pano, gritando: "Fui sequestrado pelo banco!".

Beto, o motorista, suspirou fundo, fez uma breve oração e deu a partida. O ônibus soltou uma nuvem de fumaça preta que deixou a rua inteira com cara de filme de suspense.

No meio do caminho, o Juvenal, o juiz do apito "piu-piu", decidiu que era hora de fazer uma "análise tática" do jogo. Ele começou a desenhar jogadas no vidro embaçado do ônibus com o dedo. O problema é que, a cada freada do Beto, Juvenal batia a testa no vidro e terminava com um "X" desenhado na testa pela sujeira da janela, parecendo um pirata que tinha se perdido no mapa.

"Gente, alguém viu meu dente?", perguntou Valdir de repente, no meio da rodovia.

O caos se instalou. O ônibus virou uma cena de crime. Todos, incluindo o motorista que tentava manter o veículo na faixa, começaram a procurar a prótese no chão. Arlindo, na ânsia de ajudar, acabou pisando em uma sacola de pães de queijo que Gerson tinha guardado, transformando o corredor do ônibus em um campo minado de polvilho crocante.

Para completar a sinfonia de desastres, o GPS do ônibus, que era um celular velho preso com fita adesiva, resolveu que era hora de atualizar o sistema. Ele começou a repetir em um volume altíssimo: "Em duzentos metros, vire à direita... em duzentos metros, vire à direita...". O problema é que não havia rua à direita, apenas um pasto com um touro que olhava para eles com cara de poucos amigos.

"Beto, vira! O robô mandou virar!", gritava Juvenal, com a testa suja de poeira.

"Não tem estrada ali, Juvenal!", respondia o motorista, suando frio.

Depois de três horas de viagem que pareciam durar três dias, o ônibus finalmente entrou na rua dos parentes. O veículo estava uma bagunça: pão de queijo amassado por todo lado, Arlindo ainda meio preso ao cinto, Valdir finalmente encontrando o dente dentro do bolso da camisa (e não no chão) e Juvenal com um mapa desenhado na cara.

Quando o ônibus parou, eles desceram um a um, cambaleando, olhando para o céu como se agradecessem por estarem vivos. Gerson, ao colocar os pés no chão, beijou o asfalto e disse: "Nunca mais! Semana que vem a gente vai a pé, que é mais seguro!".

Eles se olharam, viram o estado um do outro — parecendo que tinham acabado de sair de uma guerra de mantimentos. Chegaram inteiros, mas com histórias que, depois de anos, eles ainda estariam contando como se tivessem atravessado o oceano!
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.