— Tenho de me livrar disto — disse o homem a um canto do compartimento, quebrando de súbito o silêncio.
O Sr. Hinchcliff ergueu os olhos. Não entendera bem as palavras de seu companheiro de viagem, tão absorvido estava na contemplação extática da borla acadêmica atada por um barbante à alça de sua mala, sinal exterior e manifesto de sua posição pedagógica recentemente alcançada, e entregue às agradáveis ideias que tal vista provocava. Com efeito, o Sr. Hinchcliff acabava de matricular-se na Universidade de Londres e ia, como segundo assistente, para o Colégio de Holmwood, situação bem invejável. Encarou com o olhar distraído o seu companheiro de viagem.
— Por que não dá-lo a alguém? — perguntou este. — É isso mesmo. Por que não dá-lo?
Era um homem alto, moreno, queimado de sol, mas de tez pálida. Mantinha os braços cruzados, apoiados os pés na banqueta à sua frente. Alisando um pequeno bigode preto, examinava atentamente a ponta dos pés.
— Por que não? — indagou mais uma vez.
O Sr. Hinchcliff tossiu.
O desconhecido levantou os olhos — olhos estranhos, cinzento-escuros — e fitou-o durante quase um minuto talvez, com ar inexpressivo, que só aos poucos veio a animar-se.
— Pois é — disse lentamente. — Por que não? Acaba-se de uma vez com isso.
— Perdão — retorquiu o Sr. Hinchcliff, tossindo de novo. — Não o entendo muito bem.
— O senhor não me entende? — perguntou o desconhecido, quase mecanicamente, enquanto seus olhos curiosos iam do Sr. Hinchcliff à mala com a borla ostensivamente exposta e dali voltavam às suas faces penugentas.
— O senhor é algo lacônico — disse o Sr. Hinchcliff, desculpando-se.
— E não o deveria ser? — retrucou o desconhecido, seguindo o curso de seus pensamentos. — O senhor é estudante? — indagou depois, voltando-se para o seu interlocutor.
— Sim, senhor, por correspondência, da Universidade de Londres — respondeu o Sr. Hinchcliff com irreprimível orgulho, ajeitando nervosamente a gravata.
— Anda então à procura da sabedoria — lançou o desconhecido.
E retirou os pés do assento, pôs as mãos sobre os joelhos e voltou a fitar o Sr. Hinchcliff como se nunca tivesse visto um estudante.
— É isso mesmo — acrescentou, erguendo uma das mãos, com um dedo em riste.
Pôs-se de pé, tirou da prateleira a sua maleta e abriu-a. Sem dizer palavra, puxou dali algo redondo, embrulhado numa porção de papéis prateados, e desembrulhou-o cuidadosamente, apresentando-o ao Sr. Hinchcliff. Era uma fruta pequena, de um belo amarelo dourado.
O Sr. Hinchcliff olhava para ele boquiaberto, sem estender a mão para apanhar o objeto que o
outro lhe oferecia — se é que o oferecia.
— Isto aqui — disse o estranho desconhecido, muito vagarosamente — é a Maçã da Árvore da Ciência. Olhe como é linda, brilhante, maravilhosa... É a ciência que lhe estou oferecendo.
O cérebro do Sr. Hinchcliff teve um instante de penoso esforço, mas depois lhe ofereceu explicação satisfatória: o homem era doido. Isto esclarecia toda a situação. Um doido com senso de humor. O Sr. Hinchcliff curvou a cabeça um pouco de lado.
— A Maçã da Árvore da Ciência, hem? — disse examinando-a com ar de interesse, assumido por esperteza, e encarando depois o seu interlocutor. — Mas por que é que o senhor mesmo não quer comê-la? Aliás, como a conseguiu?
— Ela nunca murcha. Faz três meses que a tenho comigo. E continua sempre linda, brilhante, madura e apetitosa, assim como o senhor a vê.
Descansou a mão no joelho e examinou a fruta com expressão cismativa. Depois, como se tivesse renunciado à ideia de dá-la de presente, pôs-se a embrulhá-la de novo.
— Mas como foi que o senhor a obteve? — indagou o Sr. Hinchcliff, que tinha pendor para discussão. — E como soube que era esse o fruto da Árvore?
— Adquiri esta fruta — respondeu o desconhecido há três meses, por um gole de água e uma côdea de pão. O homem que me deu, por eu ter-lhe salvado a vida, era armênio. Armênia, país maravilhoso, o primeiro de todos, onde a Arca de Noé permanece até hoje, presa nas geleiras do Monte Arará! Esse homem, fugindo dos curdos, que o surpreenderam a ele e a seus companheiros, chegara a uma região deserta no meio das montanhas, uma região desconhecida dos homens, fugindo sempre dos inimigos, alcançaram entre altos picos um declive, coberto de gramíneas verdes e cortantes como lâminas de faca, que estraçalhavam impiedosamente quem ali penetrasse. Os curdos estavam bem perto: os fugitivos tinham de mergulhar entre elas. E o pior é que os caminhos abertos por eles à custa do próprio sangue serviram de passagem aos seus perseguidores. Todos os armênios foram mortos, salvo esse de quem falo e mais um. Ele ouvia os gritos de dor e os gemidos dos amigos, e o silvar da grama em volta dos inimigos. Uma grama alta, que chegava acima da cabeça. Depois, berros, outros berros em resposta... e quando, afinal, parou, tudo era silêncio. Voltou a avançar, sem compreender, deitando sangue por muitas feridas, até que desembocou numa rampa íngreme, sob um despenhadeiro. Então viu que a grama toda estava em chamas e a fumaça se erguia como um véu entre ele e os inimigos.
O desconhecido parou.
— Sim? — perguntou o Sr. Hinchcliff. — E depois?
— Ei-lo, estraçalhado pelas lâminas das gramíneas, entre os rochedos a arder ao sol da tarde e um céu de latão fundido, e a fumaça do incêndio a aproximar-se. Não se atrevia a ficar ali. Não temia a morte, mas as torturas. Atrás do fogo, bem longe, ouvia choro e gritos, gritos de mulher. Então foi subindo e galgou um desfiladeiro, entre moitas com galhos secos que feriam como espinhos, e por fim alcançou um cume cuja crista o escondeu. Lá encontrou o companheiro, um pastor que também escapara. Como o frio, a fome e a sede, comparados aos curdos, não lhes causassem o mínimo temor, foram subindo por entre a neve e o gelo. Marcharam assim três dias.
“No terceiro dia veio a visão. Sem dúvida, homens famintos frequentemente têm visões; mas, no caso em apreço, há esta fruta — e levantou o globo embrulhado. — Aliás, ouvi falar nisso a outros montanheses, igualmente conhecedores da lenda.
“Foi à noite, quando as estrelas crescem, que os dois companheiros desceram por um rochedo polido e em declive, num enorme vale escuro, todo plantado de estranhas árvores retorcidas, das quais pendiam glóbulos amarelos, brilhantes como vaga-lumes.
“De repente o vale se iluminou ao longe, a uma distância de várias milhas, e uma chama dourada veio avançando. Enegrecida as retorcidas árvores de envolta, e envolvia os contornos do vale num ouro ardente. Conhecedores das lendas das montanhas, logo os dois chegaram à evidência de que tinham diante dos olhos o Éden ou o vestíbulo do Éden; e caíram de bruços, como fulminados. Quando se atreveram a levantar o nisto, o vale fez-se escuro por algum tempo; depois a luz voltou, e vinha como âmbar quente.
“O pastor ergueu-se e, com um grito, entrou a correr em direção à luz; mas o outro, de medroso, não o seguiu. Lá estava ele, paralisado, atônito, a olhar o companheiro que avançava no rumo da luz. Mal, porém, este deu alguns passos, ouviu-se um ruído como de trovão, um bater de asas invisíveis percorreu o vale, e um medo terrível apoderou-se do homem que me deu esta fruta, e ele virou-se para ver se escapava. E, enquanto corria precipitadamente para o declive com todo aquele tumulto atrás de si, tropeçou em uma das árvores retorcidas e uma fruta madura veio ter-lhe à mão. Esta fruta. Imediatamente, o trovão e as asas rolaram sobre ele. Caiu e desmaiou. Ao recobrar os sentidos, estava entre as ruínas enegrecidas de sua própria aldeia, onde eu e outros cuidávamos dos feridos. Era uma visão? Mas a sua mão continuava a apertar a fruta de ouro. Outros havia, ali, que conheciam a lenda e sabiam que fruta podia ser aquela.”
Parou um instante e concluiu; — É esta.
Era uma história deveras extraordinária para um carro de terceira classe da linha de Sussex. Ali o real servia apenas de véu para o fantástico, que aparecia a cada passo.
— É mesmo? — foi tudo quanto o Sr. Hinchcliff conseguiu articular.
— Segundo a lenda — continuou o desconhecido — aquelas moitas de árvores retorcidas provêm da maçã que Adão trazia no momento em que ele e Eva foram expulsos. Sentiu algo na mão, viu a maçã meio comida, e jogou-a fora com petulância. E as árvores vingaram e cresceram no vale desolado, rodeadas de neve eterna e das espadas de fogo que montam guarda até o Juízo Final.
— Pois eu pensei que tudo isso — declarou o Sr. Hinchcliff com hesitação — eram simples fábulas... digamos parábolas. O senhor quer dizer então que na Armênia... O desconhecido respondeu à pergunta inacabada exibindo a fruta na palma da mão.
— Mas o senhor não pode saber — disse o Sr. Hinchcliff que é esse o fruto da Arvore da Ciência. O homem pode ler tido, digamos, uma espécie de miragem. Façamos de conta...
— Veja-a — disse o desconhecido.
Era, de fato, um globo esquisito, bem diverso de uma maçã, e brilhava de uma curiosa luz incandescente, a qual parecia vir da própria substância. Ao examiná-la, o Sr. Hinchcliff tinha a impressão de ver o vale desolado entre as montanhas, as espadas de fogo que lhe vedavam o acesso, as estranhas reminiscências da história antiga que acabava de ouvir. Esfregou os olhos com o nó dos dedos e disse:
— Entretanto...
— Está assim, bonita e fresca, há três meses. Aliás, três meses e tanto. Não seca, não murcha, não apodrece.
— E o senhor mesmo acredita realmente que...
— É o Fruto Proibido.
Não podia haver dúvida quanto à seriedade do homem, nem quanto à sua perfeita saúde mental.
— É o Fruto da Ciência — insistiu.
— Façamos de conta que o seja — ponderou o Sr. Hinchcliff, após uma pausa, sem despregar os olhos da fruta. — Mesmo assim, não é a espécie de ciência que me falta. Quero dizer que Adão e Eva já a comeram.
— Herdamos-lhes os crimes, não a ciência — disse o desconhecido. — Comendo-a, tudo voltaria a tornar-se claro. Veríamos o fundo de tudo, o âmago de todas as coisas.
— Por que então o senhor não a come? — perguntou o Sr. Hinchcliff, numa inspiração súbita.
— Adquiri-a com essa intenção. O homem já caiu em tentação uma vez. Comê-la uma segunda vez não poderia...
— A ciência é o poder — disse o Sr. Hinchcliff.
— Mas será também a felicidade? Eu sou mais velho que o senhor, tenho mais que o duplo da sua idade. Muitas vezes tive isto nas mãos, mas faltou-me coragem, à ideia de tudo o que a gente acabaria sabendo, daquela terrível lucidez... Imagine o senhor que de repente o mundo inteiro se torna impiedosamente claro.
— Parece-me que seria ótimo — declarou o Sr. Hinchcliff — em princípio, pelo menos.
— O senhor enxergar o coração e a alma de todas as pessoas em seu redor, até aos recantos mais escondidos; das pessoas de quem gosta, a quem tem afeição...
— Veria, então, mentiras — disse o Sr. Hinchcliff, surpreso com a perspectiva.
— Pior ainda, conhecer-se a si mesmo, despojado de suas ilusões mais caras. Ver-se a si mesmo com os olhos de outro. Tudo o que deixou de lazer por vício ou fraqueza. Nenhuma probabilidade de melhorar.
— Nem assim deixaria de ser bom. “Conhece-te a ti mesmo” — não é o que dizem? — O senhor é moço — disse o desconhecido.
— Pois bem, se o senhor não quer mesmo comê-la e se ela o incomoda, por que não a joga fora?
— Talvez o senhor não me compreenda, mais uma vez. Como é que a gente pode jogar fora uma coisa destas, tão esplêndida, tão admirável? Quem a possui tem obrigações. Dá-la a alguém, isto seria outra coisa. A alguém sedento de ciência, que não se aterrasse à ideia de uma percepção clara...
— Afinal de contas — observou o Sr. Hinchcliff — poderia muito bem ser alguma fruta venenosa.
A essa altura o seu olhar foi atraído por algo imóvel — uma tabuleta branca com letras negras, fora da janela do carro. ...MWOOD — eis o que via. Pulou convulsivamente.
— Santo Deus! — exclamou. — Holmwood!
E o presente tangível apagou de golpe as imaginações fantástica que entravam a envolvê-lo. Mais um momento — e abria a porta do carro, de maleta na mão. Já o guarda agitava a bandeirinha verde. O Sr. Hinchcliff saltou.
— Olá! — gritou uma voz atrás dele.
E viu os olhos escuros do desconhecido fuzilando, e a fruta de ouro, brilhante no ar, estendida pela porta. Tomou-a instintivamente, enquanto o trem abalava.
— Não! — bradou o desconhecido com um gesto para retomá-la.
— Cuidado! — gritou um carregador, fechando a poria com um empurrão.
O desconhecido soltou outro grito, com a cabeça e os braços fora da janela, numa grande agitação; mas o Sr. Hinchcliff não o entendeu, e a sombra da ponte o cobriu. Num abrir e fechar de olhos desapareceu. O Sr. Hinchcliff deixou se ficar, espantado, a olhar atrás do último carro, que se sumia na curva. Continuou segurando na mão a fruta maravilhosa, com o espírito perturbado por mais alguns segundos. Depois, notou que na plataforma duas ou três pessoas o fitavam com inicies se. Não era ele o novo professor do Colégio? Ocorreu-lhe que a fruta podia dar-lhes a ideia de que ele ia ingenuamente refrigerar-se com uma laranja. Corou e escondeu-a no bolso lateral do paletó, onde fazia um bojo inconveniente. Mas não havia remédio: tinha de aproximar-se dos desconhecidos e, escondendo desajeitadamente o seu embaraço, perguntar-lhes o caminho do Colégio e o meio de levar até lá a mala e as duas latas que tinha na plataforma. Ao diabo todas aquelas lorotas fantásticas!
Informaram-no de que a bagagem podia ser levada num caminhão por seis pence, e que ele podia precedê-los, a pé. Parecia-lhe notar um matiz de ironia nas vozes. Sentia-se pouco à vontade, incomodado pela impressão que devia dar.
A curiosa seriedade do homem do trem e o encanto da narrativa distraíram por algum tempo o curso das ideias do Sr. Hinchcliff, erguendo como que uma névoa ante os seus interesses imediatos. Ora, tolices! Mas as preocupações de sua nova situação, a impressão que causaria a Holmwood em geral e à gente do Colégio em particular, apoderaram-se dele outra vez, antes que saísse da estação, e esclareceram-lhe a mente.
É, porém, uma coisa extraordinária o mau efeito que o acréscimo de uma fruta mesmo linda e dourada, de menos de três polegadas de diâmetro, pode provocar na aparência de um rapaz sensível. O bolso do paletó preto bojava, estragando-lhe inteiramente a linha. Passou por uma velha senhora de preto e sentiu-lhe o olhar cair, de pronto, sobre aquela excrescência.
Como tivesse uma das luvas calçadas e segurasse a outra juntamente com a bengala, era-lhe impossível levar a fruta na mão. Em determinado trecho do caminho, suficientemente deserto, tirou do bolso aquele estorvo e procurou colocá-lo no chapéu. Mas era grande demais, e o chapéu pôs-se a dançar de maneira cômica; justamente quando ele ia retirar a fruta, o empregado de um açougue apareceu na esquina.
— Peste! — exclamou o Sr. Hinchcliff.
Teria comido aquilo, e conseguido imediatamente a onisciência; mas daria uma impressão engraçada entrar na cidade comendo uma fruta sumarenta — pois não podia deixar de ser sumarenta. Se um dos alunos passasse por ali, isso podia prejudicar seriamente a disciplina que lhe caberia manter. Além do mais, o sumo podia tomar-lhe o rosto pegajoso e cair-lhe sobre os punhos — ou talvez fosse ácido, como o limão, e neste caso lhe desbotaria completamente a roupa.
Passando por uma volta do caminho, viu diante de si duas lindas figuras de moças iluminadas pelo sol. Iam à cidade devagar, tagarelando. A qualquer momento podiam voltar-se e veriam atrás de si um rapaz de rosto aceso a carregar uma espécie de tomate amarelo e fosforescente. Isso daria numa gargalhada.
— “Vai para o inferno” — pensou o Sr. Hinchcliff, e com um gesto rápido atirou aquele empecilho por cima da cerca de pedra de um pomar. Quando a viu desaparecer, sentiu um leve remorso, mas que não durou mais de um segundo, e depois, espigado, teso, seguro de si, ajustando a luva e a bengala, foi passar pelas moças.
Porém nas trevas da noite o Sr. Hinchcliff teve um sonho, e viu o vale e as espadas de fogo e as árvores retorcidas, e soube que era, na realidade, a Maçã da Árvore da Ciência que ele tinha jogado fora tão levianamente. Acordou muito infeliz.
Durante a manhã, o arrependimento passou; mas em seguida voltou a perturbá-lo. De qualquer maneira, não vinha enquanto ele estava feliz ou ocupado. Por fim, numa noite de luar, por volta das onze horas, quando toda Holmwood se achava imersa no sono, os remorsos retomaram com redobrada força, e empurraram-no para a aventura. Saiu do Colégio às escondidas, por cima da parede do campo de jogo, atravessou a cidade silenciosa e, na estrada da estação, pulou para dentro do pomar onde jogara a fruta. Dela não encontrou, porém, o mínimo vestígio na grama molhada de orvalho, entre os glóbulos tímidos e intangíveis dos dentes-de-leão.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
HERBERT GEORGE WELLS, conhecido universalmente como H. G. Wells, foi um escritor, historiador e biólogo britânico, amplamente consagrado como o "pai da ficção científica" ao lado de Júlio Verne. Nasceu em 1866, em Bromley/Kent/Inglaterra e faleceu em 1946 (aos 79 anos), em Londres/Inglaterra. Passou a infância em Kent, viveu e estudou em Chichester e Londres, residiu por períodos em Folkestone (na famosa casa Spade House que ele construiu) e passou temporadas no sul da França (Grasse) antes de retornar definitivamente a Londres, onde faleceu em sua casa em Regent's Park. Filho de lojistas e jogadores profissionais de críquete, trabalhou na juventude como aprendiz de tecelão e balconista. Ganhou uma bolsa para a Normal School of Science (atual Imperial College London), onde se formou em Zoologia e Biologia. Foi aluno de Thomas Henry Huxley, famoso defensor da teoria da evolução de Darwin, o que moldou profundamente sua visão de mundo. Antes de viver exclusivamente da escrita, atuou como professor de ciências, tutor acadêmico e jornalista de artigos populares.
Wells foi um autor extremamente prolífico, escrevendo mais de 100 livros de diversos gêneros. Em 1895, publicou seu primeiro grande sucesso, estabelecendo os pilares da ficção científica moderna. Suas obras iniciais previram avanços tecnológicos e dilemas éticos que se tornariam realidade décadas depois. Além da ficção científica, escreveu sátiras sociais, romances realistas sobre a classe média britânica e defendeu ativamente o socialismo utópico.
Dedicou grande parte de sua vida madura a tratados políticos, livros de divulgação científica e à análise da história da humanidade. Nunca foi um acadêmico tradicional de Letras, mas era membro ativo da Fabian Society (organização política socialista voltada a reformas graduais). Foi um dos fundadores e o segundo presidente internacional do PEN Club International (associação mundial de escritores), lutando pela liberdade de expressão e direitos autorais. Não recebeu prêmios literários formais de grande porte em vida (como o Nobel), mas foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em quatro anos diferentes (1921, 1932, 1935 e 1946).
Principais livros publicados: A Máquina do Tempo (1895) – Introduziu o conceito de viagem no tempo por vias mecânicas; A Ilha do Dr. Moreau (1896) – Debate sobre vivissecção, bioética e a linha entre humanos e animais ; O Homem Invisível (1897) – Exploração psicológica sobre o poder absoluto e a falta de moralidade; A Guerra dos Mundos (1898) – A obra-prima pioneira sobre invasão alienígena e colonialismo; Os Primeiros Homens na Lua (1901) – Viagem espacial utilizando substâncias antigravitacionais; A Forma das Coisas que Virão (1933) – Ficção especulativa em formato de crônica histórica futura; Breve História do Mundo (1920) – Um monumental best-seller que narra a história do mundo desde a pré-história.
A relevância de H. G. Wells ultrapassa o entretenimento. Ele transformou a ficção científica em uma ferramenta de crítica social, filosófica e política. Antecipou com precisão a criação da bomba atômica, tanques de guerra, aviões de combate, lasers e a própria internet (que ele chamava de "Cérebro Mundial"). Suas histórias de ficção serviam como espelhos para a sociedade de sua época; por exemplo, A Guerra dos Mundos era uma crítica direta ao imperialismo britânico na África e na Tasmânia. Sua obra política ajudou a moldar debates globais importantes, influenciando diretamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de 1948.
Fontes:
Publicado originalmente em 1896 na revista The Idler. Em 1897 no livro do autor: A História de Plattner e Outras.
Biografia =sites consultados: Wikipedia, Operamundi, O Estadão, Editora Landmark, Compasso dos Ventos, Darkside, Amazon, Antígona.pt, etc.

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