segunda-feira, 6 de julho de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (Yamlikha, a rainha das serpentes) – 1


Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez, na antiguidade dos tempos e antes do desenrolar de muitos séculos, um sábio grego chamado Daniel. Tinha muitos discípulos que lhe escutavam respeitosamente o ensino, mas não tinha um filho, para herdar-lhe os livros e manuscritos. Após esgotar os outros recursos, Daniel apelou para o Senhor dos Mundos e, no mesmo instante, sua mulher concebeu. 

Durante os meses de gravidez da mulher, o sábio, dando-se conta de que era muito velho, pensou: “A morte está próxima. Meu filho talvez não encontre meus livros e manuscritos intactos quando estiver na idade de lê-los.” 

Assim presumindo, pôs-se a condensar seus 5 mil manuscritos em cinco folhas. Depois, reduziu estas a uma única folha. Quando sentiu o fim chegar, jogou os livros e manuscritos no mar para que ninguém os possuísse e entregou a folha de papel à mulher, dizendo-lhe: 

“Não verei nosso filho. Deixo-lhe contigo esta essência de todos os conhecimentos. Entrega-a quando ele reclamar a sua herança. Se souber ler este manuscrito e compreender o que ler, será o homem mais sábio de seu tempo. Desejo que lhe dês o nome de Hassib.” 

Depois, o sábio entregou a alma a Deus. No devido tempo, a mulher deu à luz um menino que foi chamado Hassib. A mãe pediu aos astrólogos que lhe estabelecessem um horóscopo. Disseram-lhe: 

“ Mulher, teu filho viverá muitos anos e amontoará saber e riqueza, desde que escape a um perigo que lhe ameaça a mocidade.” 

Quando o menino atingiu a idade de cinco anos, a mãe mandou-o à escola. Mas ele nada aprendeu. Retirou-o da escola e tentou interessá-lo em alguma profissão. Mas ele insistia em passar os dias em permanente ociosidade. Quando atingiu os quinze anos, os sábios aconselharam a mãe a casá-lo para despertar nele o senso da responsabilidade. A mãe escolheu uma noiva adequada e casou-o com ela. Mas o casamento de nada adiantou. Hassib recusava-se a empreender qualquer atividade. Alguns vizinhos, que eram lenhadores, sugeriram então à mulher comprar para seu filho um asno e um machado e deixá-lo ir com eles às florestas e ser um lenhador. A mulher aceitou a sugestão, e um milagre se produziu. Hassib amou sua nova profissão e tornou-se um excelente lenhador, ajudando assim a sustentar a mãe e a esposa. 

Certo dia, enquanto cavava a terra em volta de um velho tronco, desenterrou uma placa de mármore solidamente fixada no solo. Chamou os companheiros e, juntos, levantaram a placa e descobriram um buraco debaixo dela. Olhando mais perto, viram que no fundo do buraco havia uma sala cheia de jarras alinhadas. Supondo que as jarras continham um tesouro antigo, ajudaram Hassib a descer até a sala. Lá ele abriu uma jarra e achou-a cheia de mel. Embora decepcionados, os lenhadores calcularam que o mel lhes daria um bom lucro e alçaram as jarras uma a uma. Quando a última jarra tinha sido levantada, recusaram-se a ajudar Hassib a subir e deixaram-no no buraco, raciocinando: “Se o ajudarmos a salvar-se, vai querer sua cota do lucro. E ele nada vale. Melhor que pereça lá.” 

De volta, contaram à mãe e à esposa de Hassib que, no decorrer de um temporal, surgira um lobo que devorou Hassib e seu asno. As mulheres choraram. Mas nada podiam fazer. Os lenhadores apuraram tamanho lucro com a venda do mel que desistiram de seu ofício árduo, e cada um deles abriu uma loja. 

Vendo-se traído e abandonado, Hassib não se deixou abalar. Percorrendo a gruta, reparou em uma fenda numa das paredes, a qual deixava passar uma luz tênue. Introduziu o machado na fenda e conseguiu alargá-la. E descobriu que se tratava, na realidade, de uma porta. Abriu a porta e achou-se numa galeria que terminava num lindo lago ao pé de uma colina de esmeralda. À beira do lago, viu um trono de ouro incrustado com pedras preciosas e cercado por 12 mil cadeiras de ouro, prata, esmeralda, cristal, aço, ébano. Sentou-se no trono e logo ouviu cantos melodiosos e viu uma longa fila de pessoas descendo da montanha para o lago. 

Quando se aproximaram, reparou que eram todas mulheres de excessiva beleza, mas cuja metade inferior terminava num órgão alongado e rastejante como o das serpentes. Quatro delas carregavam sobre os braços erguidos uma grande bandeja sobre a qual a rainha estava de pé, graciosa e sorridente. 

Hassib desceu imediatamente do trono, e as quatro mulheres depositaram nele a rainha. As outras mulheres ocuparam as 12 mil cadeiras. Todas cantavam em grego e tocavam címbalos. Depois, a rainha, que tinha reparado na presença de Hassib, acenou-lhe, convidando-o para aproximar-se, e disse-lhe: “Sê bem-vindo a meu reino subterrâneo, ó jovem que um destino benéfico conduziu até aqui. Conta-nos tua história e dize-nos o que desejas.” 

Hassib contou sua história do início ao fim. 

Encantada, a rainha disse-lhe: “Permanece conosco alguns dias. E eu te ajudarei a passar o tempo, contando-te uma história que te será útil quando voltares à terra dos homens.” 

Foi assim que a rainha Yamlikha, soberana subterrânea, contou em grego ao jovem Hassib, filho do sábio Daniel, e às 12 mil mulheres-serpentes sentadas em volta dela em cadeiras de pedras preciosas.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing