A breve primavera de uma vida
resvala em desconfortos tais, que abalam.
Invadem a estação, então florida,
velozes temporais... e a despetalam.
Ante uma inexorável despedida,
lágrimas vertem - mudas, elas falam
da chama que se esvai, quiçá perdida -
oponentes aos gritos que se calam.
Contínuo, segue o tempo, ano após ano…
A saudade abomina o desengano:
não quer extinto o amor vivido outrora.
Herança contundente do passado,
o amor latente em dois, desperdiçado,
talvez desperte, intenso, em nova aurora.
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CELEIROS DA MODERNIDADE
Antigamente, a sobra de tostões
ia direto a cofres bem pequenos.
As cédulas, guardadas nos colchões,
visavam dias novos... e serenos.
De cereais, lotados os galpões,
sem a penhora, livres os terrenos.
Nem cheques pré-datados, nem cartões...
Vaidade havia... gastos eram menos.
Tempos modernos... nestes, quase loucos,
endividados somos - salvo poucos -
mil promoções, ofertas endeusadas...
De bugigangas cheios os armários;
grande aparato exposto nos "sacrários",
onde "coisas", por nós, são adoradas!...
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O AMOR É VIDA
O amor, que floresceu em pleno outono,
trouxe consigo as marcas más da sorte...
Noites em claro - ausente o próprio sono -
e tanta angústia o faz, talvez, mais forte!
Em doce anseio entregue ao abandono,
sem ter, sequer, saída que o conforte...
Sonho frustrado, rente ao desabono
em meio aos vendavais, rondando a morte.
"Prêmio e castigo" - a saga do poeta
que vê cair por terra a sua meta,
nessa jornada curta e constrangida.
Transpondo o seu sofrer à dor sublime,
resplende à luz um fato que o redime:
mesmo na morte, o amor ainda é Vida!
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“PÁSSAROS” SEM RUMO
Feliz é o ser que encontra em seu caminho
doce aconchego e segue, vida afora,
sem conhecer a dor de estar sozinho,
exposto ao desabrigo que apavora.
Há "pássaros" sem asas e sem ninho
- somente o sonho voa, quando aflora...
No mundo perambulam sem carinho
e a sorte, inexorável, os ignora.
Não falo, aqui, dos pássaros que cantam,
nem das revoadas rápidas, que encantam,
mas, sim, daqueles onde a mágoa assola...
Dos muitos "passarinhos" desnorteados;
no alçar do voo incerto, encurralados
e em meio às penas, presos na "gaiola!..."
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PREÂMBULOS
A luz do sol se expande e, alvissareira,
leva ao labor intenso da manhã,
transposto para a tarde, rotineira,
que ao fim do dia encerra o longo afã.
O sol se põe... a noite vem, faceira,
do amor, sempre é zelosa guardiã;
de estrelas, no alto céu, se cobre inteira,
com o luar exibe um talismã!
E quem se entrega à luta, dia a dia,
envolve o corpo e a mente na magia
dessa eminente pausa, após cansaços.
Nesse retorno aos seus, estende o exemplo.
fazer do próprio lar honrado templo,
onde orações culminam com abraços!…
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VIDA EM CURSO
Há caminhos diversos... Sendo tantos,
não poderia, ao todo, descrevê-los.
Muitos - marcados pelos desencantos;
poucos - felizes junto a sãos desvelos,
Desde o nascer, o alerta de acalantos...
Neste percurso, temos que vencê-los:
"a cuca vem pegar" - que instiga prantos
e o "boi da cara preta" - pesadelos…
Quem não conhece estrada colorida,
mas só vereda escura que intimida,
imponha um desafio ao seu caminho!…
Após ter transformado o seu cenário,
deixe jorrar, no extenso itinerário,
seu dom de receber e dar carinho!
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LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses.
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova (poema de quatro versos setessílabos com rimas alternadas) e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atua historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.
Fontes:
Lucília Alzira Trindade Decarli. Enredos…: trovas e sonetos. Bandeirantes/PR: Ed. da Autora, 2025. Enviado pela autora.
Biografia = Folha do Norte do Paraná, UBT-Recife, Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná, Dário Indústria & Comércio, etc.
