domingo, 5 de julho de 2026

Arthur Thomaz (O hedonista*)

Literalmente nascido na orla do Rio de Janeiro. Teve o seu parto nas areias da praia de Ipanema, em uma madrugada, onde sua mãe, em um ato de desespero, aproveitando a escuridão, para não ser flagrada pelas câmeras de segurança.

Após seu nascimento e sem saber o que fazer, embrulhou-o em um velho cobertor, ainda ligado à placenta, e deixou-o em um quiosque na beira do calçadão.

Um corredor amador, no começo da manhã, ouviu algo estranho, parecendo um choro, e foi verificar o que era. Ligou para a PM, que acionou o Conselho Tutelar. Levaram-no a um hospital, onde foi medicado, ficando alguns dias em observação. Foi devolvido ao Conselho Tutelar, que o colocou no único orfanato em que havia vaga.

Os monitores o levaram ao cartório, onde o registraram com o nome de Hudson Edison em homenagem a uma dupla sertaneja. O cartorário, aborrecido, sonolento e sem paciência, registrou o nome da criança sem a letra inicial H, ficando Udson Edson.

Enfadado, perguntou qual era o sobrenome do menino. Elas responderam simultaneamente ser Silva, então o registrou como Udson Edson Silva e Silva.

Teve uma infância tranquila no orfanato, passando por alguns lares de adoção, onde foi devolvido por ter o espírito arredio, e por intimamente adorar o local onde foi acolhido com carinho.

Lá havia a monitora Gisele, fisiculturista, que orientou-o a cuidar do próprio corpo, através de exercícios e um rigoroso treinamento em academia de ginástica.

Ao chegar à puberdade, notou alterações anatômicas e hormonais nele e em suas irmãzinhas de orfanato. Pensou que iria dar problema e solicitou à diretoria que o colocasse para trabalhar como aprendiz, onde passaria o dia fora, para amenizar a situação.

Não se pode dizer que ele nunca trabalhou. Por alguns anos foi aprendiz, até completar a maioridade. Certa tarde, ouviu uma conversa entre seus patrões sobre um tal hedonismo. Interessado, foi pesquisar no Google e descobriu instantaneamente que seria um hedonista.

Pediu demissão do emprego e despediu-se com muitas lágrimas das pessoas do orfanato, prometendo voltar sempre para revê-los. Alojou-se em um modestíssimo albergue, cujo dono concedeu estadia em troca de ter a roupa de cama lavada por ele diariamente. Continuou cuidando do corpo, correndo pelas praias e aproveitando os aparelhos de musculação dos idosos nas praças públicas.

Constituiu assim um físico privilegiado. Correndo pelas praias, notou que atraía a atenção de muitas mulheres, impressionadas com o bronzeado e as formas bem delineadas de seu corpo.

Pressentiu que poderia levar a vida sem muito esforço investindo nesse ramo. Iniciou correndo pelas areias do Leblon. Reparou em uma mulher, talvez beirando 50 anos, sozinha sob um colorido guarda-sol, ostentando um enorme chapéu e alguns reluzentes colares, e que o fitava insistentemente.

Parou a corrida, aproximou-se dela e perguntou algo banal, mas suficiente para iniciarem uma conversa que obvia mente terminou na cama da enorme suíte de uma cobertura no mesmo bairro.

Foi então que Udson aprendeu a primeira e dolorida lição em sua iniciante vida de hedonista. Ao término, a mulher, visivelmente frustrada com a performance dele, deu-lhe alguns trocados para um táxi de volta e, na lacônica despedida, disse-lhe que esperava algo melhor do que ele proporcionara.

Envergonhado, sentou-se em um banco no calçadão para colocar as ideias em ordem e traçar planos.

Claramente faltava a ele mais experiência em relacionamentos amorosos. 

Na noite seguinte foi até a Vila Mimosa procurar ajuda nessa atividade. Encontrou uma moça bonita e que mostrou-se disposta a ensinar as artimanhas do sexo mediante o pagamento das aulas.

Com o tempo, Olinda afeiçoou-se ao rapaz. E, nas madrugadas após o término do movimento no local, teve muito tempo para o ensino. O que transformou-o em um mestre, quase com doutorado na arte do amor.

Agora, Udson, com muito mais confiança, retornou às atividades nas praias. Desfilava pelas areias conquistando incautas mulheres e também algumas que, interessadas apenas em desfrutar o seu corpo, não se envergonhavam de retribuir esses favores com muito dinheiro ou presenteando-o com objetos de valor. Ele viveu por muitos anos aproveitando o dinheiro das mulheres, sem sequer pensar em guardar alguma economia para o futuro, afinal, julgava-se um eterno hedonista.

Mas o tempo é implacável e, logo após completar 40 anos, percebeu que algumas gorduras teimavam em se alojar em sua cintura. Pediu a uma das incautas que pagasse um ano de mensalidades na melhor academia da Zona Sul. E a uma outra, que pagasse uma estadia em um caríssimo SPA. Enfim, infrutíferas tentativas.

Sua onda de sucesso na praia desapareceu, não causando mais o efeito naquelas mulheres. Chegou até a passar uma noite com fome e sem abrigo.

Certa tarde, correndo para ver se ainda obtinha alguma conquista, reparou em uma mulher de quase 50 anos, que lia um livro no banco do calçadão. Resolveu aproximar-se e, ela notando os olhares, ofereceu-lhe um assento ao seu lado.

Ester era uma professora dedicada ao ensino que resolvera não assumir compromissos sérios com homens, mantendo sua independência.

Entabularam uma conversa e Udson, sem muita opção para alimentação e pernoite, acompanhou Ester até a sua pequena casa na periferia, onde ela serviu um jantar caseiro e o acolheu em seus braços.

Na manhã seguinte, despediram-se sem promessas de outro encontro. Mas Udson, novamente após uma corrida pela praia, sem chamar a atenção de nenhuma mulher, encontrou-se novamente com Ester em sua leitura habitual no mesmo banco. A cena repetiu-se, até que um dia ele passou a morar com Ester.

O hedonismo terminou com Udson trabalhando em uma oficina do bairro, limpando o quintal, cuidando do jardim e dando comida aos gatos.
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*Hedonista é a pessoa que orienta sua vida, suas escolhas e seu comportamento pela busca do prazer e pela evitação do sofrimento. O termo tem origem na filosofia grega antiga, baseando-se na ideia de que o prazer é o propósito supremo e o maior indicador de felicidade humana
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.