quarta-feira, 1 de julho de 2026

Eduardo Martínez (Carlota, a observadora)

Carlota, por detrás daqueles óculos escuros, usados até nas noites mais sombrias, adorava observar os outros. De tão observadora, era capaz de afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, quantos passos cada membro da família dava até o banheiro todas as manhãs. Agnaldo, o marido, arrastava a perna esquerda por conta de um furúnculo mal curado. Todavia, o velho insistia em dizer que era por conta da guerra, mesmo que não tenha enfrentado qualquer uma, a não ser a luta contra lombrigueira durante a infância em Caxias, a famosa terra de Gonçalves Dias, tão cantada por Luiz Gonzaga. 

Alberto e Roberto, os gêmeos, quase não paravam em casa, enquanto Sônia, a única dos três filhos que se sustentava e ainda ajudava nas despesas, andava à procura de um marido que prestasse. Os hormônios, cada vez mais ausentes, diziam que era agora ou nunca. 

A velha adorava arrumar intriga com a filha, que era a mais nova. Não que Sônia fosse merecedora de tamanha perseguição. Era o que se pode chamar de boa filha. Por outro lado, era toda mimos com os gêmeos, dois notórios vagabundos no alto dos 50 anos. Os dois viviam como adolescentes, às custas da aposentadoria dos pais. É certo que de vez em quando conseguiam um emprego aqui e ali, mas logo eram despedidos por pura falta de compromisso com o horário e o trabalho. Atrasavam quase sempre, menos aos domingos e feriados, dias das folgas.

Foi numa sexta-feira, durante o café da manhã, que Sônia resolveu contar a novidade, que tanto guardara por medo de não dar certo. Superstições, diriam alguns. Seja como for, ela se virou para os pais e os irmãos, todos sentados à mesa. Disse que precisava lhes contar algo muito bom, que mudaria a sua vida. Todos a olharam espantados, especialmente Carlota, que não conseguia disfarçar a ansiedade por detrás dos óculos escuros.

Sônia, com um sorriso maior que a própria cara, disse que iria se casar com Juvenal, seu colega no Banco do Brasil. A família sabia muito bem quem era o tal homem, mas todos imaginaram que se tratava de apenas mais um namorico da parenta.  Carlota, sem saber nem mesmo os detalhes, já quis protestar. Ela, talvez por hábito herdado, precisava discordar da sua filha. 

– Veja bem! Você nem conhece o rapaz direito. Além do mais...

A filha nem escutou as palavras da mãe ou, se ouviu, fez questão de fingir que não. O que se sabe é que o casório aconteceu no mês seguinte. Sônia e Juvenal se casaram apenas no civil. Até prometeram uma cerimônia para os mais chegados, coisa que nunca aconteceu. Saíram em lua de mel para João Pessoa. Gostaram tanto do lugar, que pediram para serem transferidos para uma agência naquela cidade. 

Carlota andou calada por um bom tempo. Quase não dizia uma palavra sequer durante o café da manhã. Diante do marido manco e dos filhos, sentia falta de Sônia. Ela ouvia as idiotices de Roberto, ao mesmo tempo em que observava a cara de imbecil de Alberto.  Dois trastes inúteis! Foi a gota d'água que faltava. 

Naquele dia mesmo ela comprou duas passagens de ida: uma para ela e outra pro Agnaldo. Iriam visitar a filha e, finalmente, conhecer o neto, que, diziam, corria pelas areias da praia de Cabo Branco. Parece que gostaram tanto, que já faz mais de ano que não voltaram para casa, ali no Guará.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Biografia = Cultura SC; Jornal Cultural Rol; Notibras; Radar Digital Brasília; Casa Brasileira de Livros; Portal UFRRJ, etc.