Não consigo discernir muito bem o real do irreal. Minhas ideias vão em uma linha e só naquele sentido. Vejo-me em aperto, quando o interlocutor me pergunta: “Que idade você me dá?”. Gelo. Se falar a mais, a pessoa se irrita, se a menos, pensa que é gozação, e se irrita, do mesmo jeito. Não consigo descobrir as idades simplesmente olhando às pessoas. Por conta disso, já me vi em muitas enrascadas e as últimas ocorreram no metrô.
Estava, eu, sentado no banco preferencial dos idosos, gestantes e deficientes, quando se aproximou uma senhora, que a mim pareceu ser idosa. Ao oferecer o lugar, levei um xingo e indagado, aos gritos da mulher, se achava que ela era idosa e merecedora do lugar no banco. Era das provocadoras e insistia em querer resposta, o que me fez descer do vagão e embarcar em outro.
Noutro dia, na dúvida, entre levanto ou não, perguntei à senhora se ela era idosa, pelo que levei um belo tapa no rosto. Envergonhado, desci, novamente.
Uma vez, um senhor, aquele, tinha certeza de que era idoso, próximo ao meu banco, ofereci o meu lugar. Desligado que sou, nem havia percebido que o tal estava na paquera de uma senhora e, para mostrar que estava em forma, falou-me alto e para ser ouvido por todos: “Se liga, cara, quem, aqui, está precisando sentar? Não reconhece um atleta, não? Você está mais precisado”. De novo abandono o trem.
Uma vez, quis fazer gracinha e ser educado com uma senhora, que me pareceu, grávida. “As grávidas têm preferência, sente-se senhora”. Maldito gesto e fala. A mulher, aos gritos, disse que a estava chamando de gorda e insinuando gravidez, para ofendê-la. Mas, quem, meu Deus, não acharia que aquela barriga era de gravidez? Uma senhora do lado, entrou na briga e falou que era realmente por gozação, porque para ela, que estava realmente grávida, eu não havia oferecido o lugar. Lá desço eu, de novo.
Resolvi, para evitar confusão, que não sento mais no trem.
Pensei que tinha se resolvido o dilema, mas qual. Outro dia, em pé, o banco com apenas um senhor sentado, rendeu-me mais problemas. O fulano, com os braços e rosto em feridas, ao que parece, proveniente de uma doença, dirigiu-me desaforos, dizendo que o banco estava vazio e eu me recusava a sentar ao seu lado, por nojo. Tentei argumentar, mas não teve jeito!
Desci do trem.
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O escritor LAÉ DE SOUZA é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua vivo, ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infantojuvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.
Fontes:
Laé de Souza. Nos bastidores do cotidiano. SP: Ecoarte, 2018.
Biografia = AFPESP, Projetos de Leitura, Jornal da Franca, Prefeitura Municipal de Jequié, etc.
