sábado, 11 de julho de 2026

Anton Tchekhov (O candelabro)


Trazendo debaixo do braço um objeto envolvido no número 23 das "Novidades da Bolsa", Sasha Smirnov, filho único, assumindo um ar muito grave, entrou no gabinete do dr. Kochelkov.

— Olá, meu caro rapaz — exclamou o médico. — Então, como vamos? Que conta de novo?

Sasha piscou, levou a mão ao peito o declarou com voz comovida:

— Mamãe envia-lhe suas saudações, Ivan Nikolaievitch, e me encarregou de agradecer-lhe... Sou filho único e o senhor me salvou a vida... O senhor me curou de uma doença perigosa e nós não sabemos como provar nossa gratidão.

— Ora, esqueça-se disso, meu rapaz — interrompeu o doutor. Fiz o que outro qualquer teria feito em meu lugar.

— Sou o único filho de mamãe... Nós somos pobres e seguramente não estamos em condições de poder pagar-lhe seus cuidados. Isso nos tortura, doutor, se bem que, por outro lado, supliquemos, minha mãe e eu, seu filho único, que o senhor aceite este candelabro, essa extraordinária obra de arte...

— Para que isso?

— Não. Peço-lhe. Não recuse. Sua recusa nos magoaria... É um belo objeto, em bronze antigo. Ele nos vem do meu falecido pai e nós o guardamos como uma lembrança muito cara... Papai comprava bronzes velhos e os revendia aos amadores. Agora mamãe e eu continuamos seu pequeno negócio...

Sasha desembrulhou o objeto colocou-o sobre a mesa. Era um candelabro, de tamanho médio, em bronze antigo, artisticamente trabalhado. Representava um grupo: sobre um pedestal, erguiam-se duas figuras femininas, com as roupas de Eva, em poses que eu não saberia descrever por falta de audácia e de temperamento necessários. Essas figuras sorriam vaidosamente, com um ar tão desavergonhado que, ao que parece, não fosse uma obrigação sustentar o castiçal, elas teriam pulado fora do pedestal para se entregar a uma bacanal que nem é bom imaginar. Contemplando o presente, o doutor coçou a orelha, tossiu e disse:


— Hum... É de fato um belo objeto. Mas... Como direi? É... muito... muito livre, não é verdade? Bem é decotado... é pior!

— Por que razão?

— A serpente não poderia ter imaginado nada de mais perturbador. Colocar essa alegoria sobre a mesa seria macular todo o apartamento!

— Que estranha concepção da arte o senhor tem, doutor! — disse Sasha, ofendido. — É uma obra de arte, olhe-a bem! Essa beleza e essa elegância enchem a alma de veneração e produzem um nó na garganta... Contemplando essa perfeição, a pessoa esquece o mundo. Veja que movimento! Que finura de expressão!

— Compreendo muito bem tudo isso — disse o doutor. — Mas eu tenho família, as crianças brincam aqui frequentemente, senhoras entram neste gabinete...

— Sem dúvida, se a pessoa se coloca sob o ponto de vista vulgar, essa obra-prima apresenta um outro aspecto. Mas doutor, eleve-se acima do vulgar. Aliás, sua recusa desolaria a mim e a mamãe. Sou filho único... o senhor me salvou a vida... Nós damos ao senhor o que temos de mais caro e... e eu sinto tanto que não tenhamos o outro candelabro que forma o par para lhe oferecer...

— Obrigado, meu rapaz, eu lhe sou infinitamente grato. Meus cumprimentos à senhora sua mãe. Mas pense bem: as crianças brincam aqui... senhoras vêm aqui... Enfim, conservo-o. Fico com ele. Impossível explicar a você as razões de... de...

—Não há nada a explicar... — disse Sasha, alegre. — Coloque o candelabro aqui, perto do vaso. Ah, que pena não tenhamos o par! Até à vista, doutor!

Depois da saída de Sasha, o doutor contemplou durante bastante tempo o candelabro, coçou novamente a orelha e meditou:

— É um objeto bonito, não há dúvida... Pena ter que me desfazer dele. Impossível conservá-lo em casa... A quem poderia oferecê-lo?

Depois de refletir longamente, ele lembrou-se de seu amigo Kripounov, a quem devia favores.

— Ótimo — disse o doutor. — Vou levar-lhe esta obra do demônio... Ele é celibatário e leviano...

Incontinenti, o doutor vestiu-se, tomou o candelabro e dirigiu-se à casa de Kripounov.

— Olha, meu velho amigo! — disse, tendo encontrado o advogado em casa. — Eis-me aqui para agradecer a você os serviços que lhe devo. Você se recusa a aceitar dinheiro. Aceite, então, essa bagatela... Ei-la, meu caro...

O advogado entusiasmou-se com a bagatela.

—Ah! Onde encontrou isso? Aí tem com que fazer um santo perder a santidade! É maravilhoso, encantador! Onde você descobriu isso?

Tendo, desta forma, demonstrado o entusiasmo, ele lançou um olhar inquieto em direção à porta e disse:

— Mas eu não quero isso. Leve isso, meu amigo.

— Por quê?

— Porque... Eu recebo minha mãe aqui... e... e as clientes... e tem a criada. É embaraçoso. Leve isso.

— Não! Não! Não permito que você o recuse! Seria pouco amável da sua parte! Uma obra de arte! Olhe bem... Essa expressão, essa finura... Você me ofende!

— Mas, se elas ao menos tivessem uma folha de parreira...

Mas o doutor gesticulou ainda mais e desapareceu, deixando na casa de Kripounov o presente.

O doutor estava multo satisfeito consigo mesmo. Depois que ele saiu, o advogado examinou o candelabro, apalpou-o e, da mesma forma que o doutor, pensou como poderia livrar-se dele.

— É um lindo objeto. É uma pena ter que me desfazer dele. Mas é muito inconveniente, não há dúvida... O melhor é dar de presente a alguém... Esta noite irei oferecê-lo ao ator Chamekine. O folgazão gosta de objetos deste gênero. E como hoje há um espetáculo em sua honra...

Dito e feito. O candelabro, cuidadosamente embrulhado, foi presenteado a Chamekine, o grande ator. Toda aquela noite seu camarim ficou cheio de rapazes que admiravam o presente. Era um rumor de risos constante. Quando uma atriz perguntava "posso entrar?", Chamekine respondia desesperado: "Não! Não estou vestido". Mas ele estava vestido. Quem não estavam vestidas eram as mulheres do candelabro. Após o espetáculo, Chamekine perguntou ao homem que o maquilava:

— Como ver-me livre desse objeto? Moro numa pensão familiar e... Enfim, o candelabro não é uma fotografia que a gente esconda dentro de uma gaveta...

O homem retrucou:

—Venda-o. Eu conheço justamente uma velha que faz negócios com bronzes antigos... Olhe, procure a loja de Mme. Smirnov... Todo mundo a conhece.

O ator seguiu o conselho do maquilador.

Dois dias mais tarde, o dr. Kchelkov meditava no seu gabinete, quando a porta se abriu e entrou Sasha Smirnov. O moço sorria feliz. Trazia um objeto envolto num jornal.

—Doutor — começou, com a respiração curta —, imagine o nosso prazer... Por felicidade, conseguimos adquirir o candelabro que estava faltando para completar o par... Mamãe está radiante. E eu, seu filho único, também. O senhor me salvou a vida... Pois tome, doutor, tome...

Sasha, tremendo de reconhecimento, colocou o candelabro diante do doutor. Este, abrindo a boca, tentou falar, mas havia perdido a voz.
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ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes: 
Revista da Semana, 21.07.1945. Publicado originalmente na revista humorística russa Oskolki (revista Fragmentos, edição nº 50), sob o pseudônimo de Antosha Chekhonte, em 1886.
Biografia = Wikipedia; Livrista; Portal da Literatura; Mundo Educação; Brasil Escola; LPM; Revista Cult, Jornal Opção, Plug Literário, etc.