Em Maringá, como em qualquer lugar do mundo, o tempo não é apenas clima — é o principal fornecedor de desculpas da humanidade. E a chuva, ah, a chuva… ela é a rainha de todas as justificativas, a musa da preguiça, o álibi perfeito para quem não quer sair de casa, não quer trabalhar, não quer cumprir promessa ou simplesmente prefere ficar deitado ouvindo o barulho das gotas no telhado.
Observe bem: basta o céu ficar cinza, uma nuvem escura pairar sobre a Avenida Brasil, e imediatamente todo mundo tem um motivo para adiar o que quer que seja.
O funcionário que chega atrasado: “A chuva atrapalhou o trânsito, as ruas ficaram todas alagadas”.
Nem que tenha caído apenas três gotas, suficientes para molhar o chão e nada mais — a versão oficial é sempre a de que houve uma enchente digna de filme de desastre.
O amigo que não apareceu no encontro combinado: “Meu Deus, com essa chuva eu não ia conseguir chegar, ia escorregar, ia pegar um resfriado, ia até ser assaltado se saísse de casa”.
A realidade? Ele estava era assistindo série na cama e achou que a chuva era um argumento muito mais nobre do que “não tive vontade”.
E o mais engraçado é como a cidade toda muda de comportamento quando o tempo vira. Quem costuma caminhar cinco quarteirões sem reclamar, com o sol escaldante, passa a achar que atravessar a rua com chuva é uma aventura mortal. As calçadas, que normalmente são cheias de gente, ficam vazias como se tivessem anunciado um apocalipse. E lá pelas janelas, dá para ver as pessoas espiando, meio satisfeitas, meio culpadas, pensando: “Que bom que está chovendo, assim ninguém pode me cobrar nada hoje”.
Também repare na inventividade que brota nessas horas. Já ouvi de tudo:
“Não dá para lavar o carro, porque a chuva vai sujar tudo de novo” — lógica brilhante, que serve para adiar a tarefa por uma semana inteira.
“Não posso ir ao mercado, porque com o piso molhado dentro da loja, eu posso cair e me machucar” — como se o mercado fosse uma pista de patinação no gelo.
Até o estudo ou o trabalho em casa fica impossível: “O som da chuva me deixa sonolento, não consigo me concentrar”.
Ora, antes fosse o som da chuva… o problema mesmo é que a preguiça encontrou uma trilha sonora perfeita para se instalar.
O pico da criatividade, porém, acontece quando a chuva passa e o sol volta a brilhar forte, como se nada tivesse acontecido. Aí, sim, surgem as desculpas de transição: “Ah, agora que parou, o chão está úmido, melhor esperar secar para não sujar os sapatos”. Depois: “Está muito quente agora, melhor esperar esfriar um pouco”.
E assim o dia vai passando, o sol se pondo, e a pessoa não fez nada, mas tem uma explicação para cada minuto perdido.
Pensando bem, não é só a chuva. O ser humano é um gênio em transformar qualquer detalhe do mundo ao seu redor em motivo para descansar.
Se faz frio: “Está muito gelado, o corpo pede repouso”. Se faz calor: “Está muito quente, não tem condições de fazer esforço”. Se está nublado: “O dia está escuro, parece que já é noite, melhor deixar para amanhã”. Se faz sol forte: “O calor cansa, não dá para se mexer”.
O tempo, na verdade, é só um coadjuvante. O protagonista mesmo é a nossa capacidade de transformar qualquer situação em uma desculpa esfarrapada, mas dita com tanta convicção que até nós mesmos acabamos acreditando.
E a chuva? Coitada. Ela só cai, faz o seu trabalho de molhar a terra e refrescar o ar, e acaba levando a culpa por toda a nossa falta de vontade.
No fundo, é até engraçado. Porque se um dia o tempo ficar perfeito — nem frio, nem quente, nem seco, nem úmido, céu azul sem nuvens, brisa leve — tenho certeza absoluta que alguém vai inventar: “Está um dia tão bonito, que é pena gastá-lo trabalhando… melhor ficar olhando pela janela”. E pronto: mais uma desculpa, mais um dia perdido, mais uma vitória da preguiça sobre a ação.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.
Fonte:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
