Crônica baseada na trova de Dorothy Jansson Moretti (Três Barras/SC, 1926 - 2017, Sorocaba/SP)
Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos...
e eis-me sonhando outra vez!
Há quem diga que a vida é um eterno exercício de demolição. De tempos em tempos, o teto das nossas certezas desaba e o chão das nossas seguranças se abre, deixando para trás apenas o silêncio e o rastro de poeira do que um dia chamamos de futuro. No chão, o que resta são os "pobres sonhos": fragmentos de vidro que brilham sob a luz, mas que agora parecem incapazes de refletir qualquer imagem inteira.
Diante dos escombros, a reação mais lógica seria o abandono. Afinal, quem teria paciência para lidar com o que se quebrou? Quem teria coragem de tocar nas arestas cortantes das decepções?
Mas então surge essa personagem admirável: a teimosia. Não aquela teimosia cega e ranzinza, mas a teimosia que é irmã da resiliência. Ela se agacha entre as ruínas, sem pressa e sem medo de se ferir. Ela não busca um arquiteto para reconstruir o prédio luxuoso de outrora; ela busca os cacos.
Juntar os cacos é um ato de profunda humildade. É aceitar que o sonho novo terá cicatrizes, que as linhas da colagem serão visíveis e que, talvez, o vaso reconstruído nunca mais segure a água como o original. No entanto, há uma beleza nova e subversiva nesse "sonhar outra vez". É o sonho de quem já conheceu a queda e, mesmo assim, prefere o risco da esperança ao conforto do cinismo.
Eis a mágica da alma humana: de tanto juntar pedaços, acabamos criando um mosaico. O que era um sonho "fraco" e estilhaçado transforma-se em uma obra de arte resistente, feita de perdas superadas e vontades renovadas. A vida faz o escombro, é verdade; mas a alma teimosa faz o vitral.
Ao final do dia, lá está ela, com os dedos sujos de cola e o coração batendo forte, olhando para o horizonte com o mesmo brilho nos olhos da primeira vez. Porque, enquanto houver um caco de desejo no chão, haverá material suficiente para recomeçar o mundo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.
Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
