Acordar mais tarde nas manhãs de domingo, especialmente no inverno, é um prazer que me permito, após a intensidade da semana. Depois do amor, o banho quente e o sol no rosto. Explico: pela manhã, o sol entra pela janela do banheiro e se derrama em pura luminosidade, deixando sensação revigorante no corpo e na alma. O cheiro de café me invade e sinto-me viva, plena e tranquila.
Lareira acesa, crepitar da lenha. Esquento as mãos com a xícara fumegante. Meu cachorro apoia a cabeça em meu colo. Sensações incomparáveis, que se inscrevem na memória. Há quem reclama do frio e se encolhe. Na vida, tem gente assim em todas as estações. Prefiro aproveitar o que de bom cada passagem do tempo tem a oferecer. No inverno, tão gostoso é estar junto, perto, abraçados, aconchegados aos nossos amores.
Tem domingos que prefiro ler, horas e horas. Outros, conversar. E ainda, alguns que gosto de permanecer em silêncio, sem a obrigação da palavra, sem precisar dizer e nem fazer nada. É o dia da semana em que o chimarrão tem gosto de afeto. O almoço, o churrasco, sabor de família. A taça de vinho é apreciada com serenidade. Respirar o ar puro, admirar a roseira que floriu ontem. Abraçar minha mãe, que desafia o tempo e me agracia com sua presença forte e inspiradora. Ouvir música, caminhar no parque. Fazer uma oração na igrejinha do bairro. Meditar, agradecer. Absoluta tranquilidade e simplicidade.
Os domingos de inverno, com sol, neblina, geada ou chuva, têm peculiar poesia. São uma pausa nas atribulações da vida. Uma pausa para respirar, sem as pressões do trabalho. Folga dos prazos, dos compromissos, das leituras técnicas, das reuniões, tarefas e mais tarefas cotidianas. É tanta correria que quase esqueço quem sou, o que quero, meus sonhos, e vou me perdendo no caos da semana. Tantas fatias de tempo destinadas a coisas desimportantes. É urgente viver mais e consumir menos!
São os domingos de inverno que propiciam um intervalo para sentir a vida em todas as suas dimensões. Fechar os olhos. Respirar fundo. Deixar de lado, mesmo que momentaneamente, os acontecimentos corriqueiros: aumento do gás, oscilação no preço da gasolina, violência, acidentes no trânsito, cassação de um político, feminicídios, fraudes, corrupção, preconceito, desigualdades e tantas outras mazelas dessa sociedade doente e entorpecida. Mas é somente uma pausa. Não significa omissão e braços cruzados.
É parênteses para acalmar o coração, refletir, esquecer uma velha saudade, energizar o pensamento. Esquecer todas as coisas materiais, o ter. Apenas ser... mulher, humana, bruxa das palavras. E desacelerar os sentimentos. Nos domingos de inverno só quero sossego. São essas pausas que me permitem manter a sanidade e a alegria de estar viva, nelas eu me permito
No dia seguinte, tudo acelera de novo, enquanto o próximo domingo não chega.
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A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.
Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Inverno. Publicado em 21 de junho de 2023 pela Editora Metamorfose. https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeinverno
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.

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